Seminário
A
DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI
Capítulo III
A
direção do tratamento do psicótico
Os
princípios que regem o tratamento da psicose não são os mesmos que regem o
tratamento da neurose. O breve levantamento que será feito tomará como bússola
a psicanálise de orientação lacaniana.
A experiência tem demonstrado que
existem casos que caminham bem com o tratamento psicanalítico, existem casos
que caminham melhor com outros tratamentos, existem casos que requerem
tratamentos combinados e existem aqueles que desafiam todos os tratamentos.
1. O matema do tratamento do psicótico
A linguagem é a matriz de todos os casos: quanto a
isso, não há diferença entre neurose, perversão e psicose. O lugar do Outro
está lá, antes mesmo do sujeito nascer. O sujeito, na definição lacaniana, é um
efeito do significante. Antes que ele fale, ele é falado por esse Outro
pré-histórico.
Dois aspectos são fundamentais: o sujeito como ser
falante é uma criação significante (1) que surge de seu estatuto primeiro de
objeto (2). Na psicose, por não se introduzir a função da castração, temos um
sujeito que resiste à falta-de-ser, que resiste à barra, um sujeito-objeto,
a-sujeitado ao Outro.
Pode-se dizer que o paranoico fica detido no estádio
do “isso fala dele”, e fala de modo desagradável, enquanto que para o
esquizofrênico prevalece o “isso não fala dele”, alusão ao filho no ventre da
mãe como um pedaço-de-real [1].
Miller discorre sobre o tratamento do psicótico a
partir do seguinte matema:
$
O tratamento partiria da posição do
psicótico como objeto e conduziria aos confins da produção do sujeito [2].
2. A posição de escuta
Um primeiro aspecto a ser destacado
é a posição de escuta do analista em relação ao psicótico. Há em jogo vários
aspectos importantes a serem examinados.
Pelo simples fato de falar, o
psicótico se põe como sujeito; e o analista, polo de endereçamento, se põe como
Outro. Enquadramento simbólico que reverte a tendência da psiquiatria a tratar
o psicótico como objeto.
A fala não só dá ao psicótico a
condição de sujeito como representa certo acesso ao simbólico, num duplo
trajeto: aquele que fala também se escuta. E aquele que fala, de algum modo
denota e metaforiza.
Não se trata de uma escuta qualquer:
os psiquiatras clássicos também escutavam seus loucos, mas como objetos de seu
esforço descritivo e classificatório.
Trata-se de uma escuta analítica,
que procura apreender a fala do psicótico não para atribuir-lhe sentido ou
compreensão, mas para “tomar ao pé da letra o que ele nos conta”, acolhendo-a
como algo específico e próprio daquele sujeito. Lacan propôs o analista em
posição de testemunho, como secretário do alienado [3].
3. A interpelação do sujeito
Há uma tendência do psicótico a se por ao lado do
objeto a e em posição de quem sabe,
de quem pode enunciar um saber desconhecido sobre o Outro. O analista, por sua
vez, como simulacro de objeto, sob suposição de saber, procura dividir o
sujeito. Ou seja, a posição do psicótico guarda certa correspondência com a
posição do analista. Como contornar o obstáculo?
Outra possibilidade a ser
considerada é a tendência do psicótico, frequente nos relatos por ele trazidos,
a se colocar como objeto de gozo do Outro. O paradigma é Schreber.
Tanto num caso como no outro uma
intervenção pode ser a interpelação do psicótico como sujeito, que deve, no
entanto, obedecer ao cálculo da clínica.
Trata-se de algo que está próximo ao
que Laurent propôs com a fórmula “tocar o sujeito no doente”[4].
Uma
das estratégias para tratar o psicótico que se apresenta em condição de objeto
consiste, portanto, em interpelá-lo como sujeito.
O simples convite à fala já constitui um movimento nesse
sentido, pois aquele que fala está no lugar do sujeito que se dirige ao Outro
da escuta.
Como toda intervenção, a interpelação deve ser feita sob
transferência, e inclui todas as modalidades de convocação, implicação ou
responsabilização do psicótico como sujeito, visando balançar seu assujeitamento
ao Outro.
Vinheta. Um
paranóico apresenta delírio erotomaníaco recorrente. Cada vez que se propõe a
trabalhar, seja num estágio ou mesmo numa oportunidade de emprego, aparece uma
moça que dá indicações de querer seduzi-lo ou assediá-lo, ou de querer “ficar”
com ele, ainda que não exista, de sua parte, nenhum interesse nisso, nenhuma
atração sexual pela moça em questão. É algo tão forte que faz com perca noites
de sono, ou que pense seriamente em abandonar o local de trabalho. Houve, aqui,
uma intervenção fundamental:
—Você não deve ficar com quem você não
quer.
Intervenção
que surtiu efeito: há mais de seis anos ele trabalha num emprego público
conseguido mediante concurso.
4. O tratamento (retificação) do Outro
Lacan diz que “o estado do sujeito S (neurose ou
psicose) depende do que se desenrola no Outro A” [5].
Na psicose, o que se tem? Um Outro sem lei, um Outro intrusivo, um Outro
gozador. Na paranoia, por exemplo, o Outro se apresenta subjetivado —
perseguidor ou erotomaníaco — e o psicótico como objeto desse gozo.
Uma solução adotada é o delírio, construção simbólica
e imaginária que reorganiza o mundo do psicótico. Na verdade, não só do
psicótico; existem inúmeras construções filosóficas, religiosas e políticas que
constituem delírios coletivos, com função organizadora dos grupos que as
comungam.
Na maioria das vezes, porém, os
delírios infligem pesado sofrimento ao psicótico, principalmente no caso de
delírios alucinatórios.
O tratamento do Outro visa
flexibilizar o poder absoluto, ou a omnisciência, ou a perfeição atribuída ao
Outro. O que se busca é “uma outra Alteridade que seja alternativa ao Outro
primordial do sujeito” [6].
Não se trata de refutar, mas de
afrouxar seu sistema de crenças, ou de balançar a onipotência do Outro, que
é, na psicose, estruturalmente tirânico, torturador, mortífero. Um dos
objetivos do tratamento poderia assim ser definido: contribuir para criar um
outro Outro (não confundir com Outro do Outro).
A própria manobra da transferência poderia ser citada
como uma estratégia que concorre para isso. Mas existem intervenções que tem
efeitos quando se procura uma retificação do Outro.
Vinheta. Colette
Soler cita o caso de uma psicótica em análise que, em pânico frente aos
propósitos de seu perseguidor, entra em crise com pensamentos suicidas, fazendo
crer que não haveria alternativa a não ser uma hospitalização. Uma intervenção
da analista, porém tem efeito apaziguador:
—Ele
não tem esse direito.
Palavras
portadoras de um limite a respeito das pretensões do Outro sobre sua vida[7].
5. O benefício da
dúvida
O neurótico acredita no Outro, mas
vacila, porque na neurose o Outro é barrado. Pode-se dizer que a neurose é da
ordem da dúvida.
A psicose, por seu turno, é da ordem
da certeza. O Outro não é barrado; o psicótico não acredita, ele tem certeza da
existência do Outro.
Na psicose, o vigor da certeza está
presente tanto em relação ao Outro do delírio como em relação ao real da
alucinação.
É claro que, quando se trata de
perseguição atroz, de erotomania mortífera ou de alucinações com vozes de
comando assassinas, isso traz sofrimento lancinante para o psicótico.
É nesse contexto que se torna
oportuno o ditame ético de Lacan: onde houver certeza, introduzir o benefício
da dúvida.
A
certeza psicótica aparece, como foi visto, em duas situações principais: diante
do Outro do delírio e diante do real da alucinação. Em ambos os casos pode
estar associada a angústia dilacerante ou a passagens ao ato. O analista, sob
transferência, pode contribuir para atenuar o quadro, introduzindo o benefício
da dúvida.
Vinheta. Uma
analista sob supervisão atende a um esquizofrênico internado numa unidade
psiquiátrica devido a sérias agressões cometidas contra sua mãe. Na unidade de
internação, novas agressões acontecem contra outro paciente e contra uma
atendente. Ao falar sobre elas, ele se queixa de vozes de comando com
autoridade inexorável, que lhe ordenam agredir ou até mesmo matar certas
pessoas que cruzam o seu caminho. A analista intervém:
—Por que motivo você acha que tem que obedecer
a essas vozes?
Intervenção
que foi feita várias vezes em diferentes situações e com diferentes termos.
6. A extração do objeto a
A angústia na neurose é angústia de castração,
angústia relacionada à falta.
Na psicose, por outro lado, a
angústia surge quando
a falta vem a faltar, ou seja, quando há objeto, quando há objeto demais [8].
Em outros termos, na psicose não há
extração do objeto a. O psicótico não
se separou de seu objeto a, guarda-o
no bolso, conforme diz Lacan.
Para
Lacan, ainda, “o campo da realidade se sustenta apenas pela extração do objeto a” [9].
Ou seja, é a extração do objeto a que
fornece o enquadramento, ou a janela na qual a realidade toma sua significação
para nós. A extração do objeto a, além
disso, está correlacionada à própria produção do sujeito.
Miller
afirma: “A morte do sujeito na psicose é o que se produz quando o objeto a não é extraido do campo” [10].
Mais
adiante, ao conjecturar sobre preliminares ao tratamento da psicose, Miller
indaga: “Extrair o objeto a é a
fórmula para isso?” [11] É
preciso observar que tal proposta não anula o matema do tratamento do
psicótico, pois a extração do objeto é correlativa da produção do sujeito. Miller
termina concluindo que a extração do objeto a
é apenas um outro nome da castração.
A angústia na psicose, portanto,
tem a ver com a falta da falta, com o objeto demasiadamente presente. Para sair
dela, existem diferentes caminhos, como a extração do objeto pela via do
significante. É possível, ainda, num curto-circuito, realizar uma passagem ao
ato, tal como uma agressão, uma automutilação ou uma tentativa de suicídio.
Vinhetas.Existem
várias vias para a extração do objeto a.
1)
Pela via da passagem ao ato. Pode-se citar, aqui, o caso de Van Gogh, que num
momento de crise cortou a própria orelha, e o caso Aimée, que com uma navalha
agrediu a uma atriz, como exemplos ocorridos fora do tratamento. Dentro do
tratamento, pode-se evocar uma psiquiatra que atendia um psicótico num CERSAM
de Belo Horizonte, e que teve seu carro riscado
pelo paciente. Em todos esses casos, após a passagem ao ato sobreveio certa
estabilização.
2)
Pela via da alucinação. É o célebre exemplo do Homem dos Lobos.“Quando eu tinha
cinco anos, estava brincando no jardim, perto da babá, fazendo cortes com meu
canivete na casca de uma das nogueiras que aparecem em meu sonho também. De
repente, para meu inexprimível terror, notei ter cortado fora o dedo mínimo da
mão (direita ou esquerda?), de modo que ele se achava dependurado, preso apenas
pela pele. Não senti dor, mas um grande medo. Não me atrevi a dizer nada à
babá, que se encontrava a apenas alguns passos de distância, mas me deixei cair
sobre o assento mais próximo e lá fiquei sentado, incapaz de dirigir outro
olhar ao meu dedo. Por fim me acalmei, olhei para ele e vi que estava
inteiramente ileso” [12].
3)
Pela via da palavra. Os dois casos da Convenção de Antibes, que serão
apresentados em 7.6. (neotransferência), “O doutor está um caco” ou “Pareces
uma lebre”, são bons exemplos.
7.
O tratamento sob transferência
O tratamento psicanalítico do psicótico, assim como o
do neurótico, é feito sob transferência. Mas há diferenças cruciais.
Na neurose, o vetor da transferência
(amor, ódio) vai do sujeito ao Outro, ou do neurótico ao analista. E o saber
está do lado do analista (sujeito suposto saber). Ao emprestar semblante para a
suposição de saber o analista favorece a entrada em análise e o prosseguimento
da experiência analítica.
A diferença começa aí. E Miller, a este
respeito, é bem claro: “O paranoico só conhece o saber. Sua relação com o saber
constitui seu sintoma. O que o persegue a não ser um saber que passeia pelo
mundo, um saber que se faz mundo? [13]”
Com efeito, quando o Outro se apresenta para o psicótico como o Outro do saber,
ele é encontrado de forma persecutória ou erotomaníaca.
A
primeira conclusão propõe que, nesse tratamento, o saber não deve ficar do lado
do analista e sim do lado do psicótico.
Segunda
conclusão: quando o saber fica do lado do analista, a tendência é o surgimento
de transferência persecutória ou erotomaníaca. Na psicose, por conseguinte, o
vetor da transferência vai do analista ao psicótico.
Quando
o saber fica do lado do analista, portanto, podem manifestar-se modalidades de
transferência que inviabilizam o tratamento do psicótico. Existem estratégias
para evitá-lo, o que será visto da próxima vez.
Cabe
a pergunta: que transferência seria adequada nesse caso?
Uma
resposta sumária: a melhor possibilidade é quando o psicótico situa, do lado do
analista, o objeto ou o ideal. É o que foi nomeado neotransferência.
Existem
várias estratégias que contribuem para lidar com a transferência do psicótico.
7.1. Manobra da transferência
A transferência psicótica (persecutória ou
erotomaníaca) é um obstáculo intransponível para o trabalho analítico que deve ser
evitado a todo custo.
Lacan referiu-se à
manobra da transferência uma única
vez, na “Questão Preliminar”; mesmo assim, sem se deter sobre o tema. É preciso
reunir indicações para formalizar algo a respeito[14].
A manobra da transferência seria um modo do analista lidar com a transferência
psicótica que consiste em sair do lugar persecutório ou erotomaníaco em que o
psicótico o coloca, buscando um lugar vazio de gozo. Implica, portanto, não
emprestar semblante às atribuições do psicótico.
Vinheta: uma
residente de psiquiatria sob supervisão dá continuidade ao tratamento de um
paciente paranoico recebendo-o para mais uma sessão. Ouve então da parte dele o
seguinte comentário.
—Você
me atende com frequência muito maior do que outros médicos atendem seus pacientes
e sempre fecha a porta... será que estaria interessada em mim como mulher?...
Já
orientada quanto a essa possibilidade, a residente responde prontamente:
—Estou interessada em você, sim, mas meu
interesse é unicamente profissional. A frequência maior é para poder ouvi-lo e
a porta fechada é para não sermos interrompidos.
De forma ativa, portanto, a atribuição
erotomaníaca foi refutada.
A
transferência erotomaníaca ou persecutória, quando muito intensa, pode dar
origem a passagens ao ato que dificultam ou inviabilizam a continuação do
tratamento. A agressão visaria à barração do Outro ameaçador ou então à ruptura
com ele.
7.2. Inversão da suposição de saber
Enquanto
que na direção do tratamento do neurótico o analista faz semblante de suposição
de saber, no caso do tratamento do psicótico a melhor estratégia é a posição de
sujeito suposto não saber.
Isso se deve, em primeiro lugar, à razão
mencionada anteriormente: quando o saber do inconsciente se coloca do lado do
analista, há favorecimento da transferência persecutória ou erotomaníaca.
Quando o psicótico atribui saber ao analista,
por conseguinte, o mais prudente é proceder à inversão da suposição de saber,
que deve estar do lado do psicótico.
Há
uma segunda razão para a estratégia, que está em consonância com o último
ensino de Lacan. Situar o saber do lado do psicótico é admitir, entre outros
aspectos, que ele sabe o seu caminho, ou que ele é capaz de construi-lo. A
tarefa do analista não é trazer a solução, mas entrevê-la no que lhe é apresentado.
Vinheta.
Um psicótico aparentemente dócil foi internado várias vezes pelo mesmo motivo:
agressões físicas a seu pai, homem autoritário e de convicções rígidas. A
família procurou-me após outra internação, dessa vez por agressão física ao avô
paterno. Ele pouco falava sobre os motivos de suas agressões. Durante as férias
do pai, ele fica hospedado na casa de um tio paterno, que se torna a nova
vítima de sua agressão física. Seu pai, profundamente irado, pergunta-me sobre
uma solução, uma internação de longa permanência, ou algo assim. Comento com o
paciente que todas suas agressões dirigiram-se ao seu pai ou a familiares dele.
E pergunto-lhe:
—Você
gostaria de viver na sua própria casa?
A
resposta foi prontamente positiva. Pondero com o pai que um pequeno apartamento
é menos oneroso do que uma longa internação... E trabalho com a idéia de uma
distância mais flexível entre eles. As agressões físicas cessaram.
7.3. Dispersão da suposição de saber
Trata-se de algo que fica bem evidenciado na prática feita por muitos (pratique à
plusieurs) realizada numa instituição[15].
Tal proposta tem alguns pilares. 1) Uma posição de aprendizagem em relação à
clínica, o que, como foi visto, inclui uma suposição de saber do lado do
psicótico. 2) Uma des-hierarquização do saber prévio, no que se refere ao
coletivo institucional. 3) Uma divisão de responsabilidades.
Fica implícita uma dispersão da suposição de saber, ou
uma diluição que se comporta como estratégia frente à transferência psicótica.
Algo dessa natureza pode ser constatado nos serviços da
rede de saúde mental, inclusive como um recurso a mais quando o tratamento da
psicose conta com uma estrutura coletiva de resposta.
7.4. Vinculo
frouxo
A foraclusão
localizada que caracteriza a psicose produz um achatamento do eixo simbólico e
pode produzir um alongamento do eixo imaginário. O que quer dizer que o
psicótico tende a compensar o desfalque simbólico com uma hipertrofia do
imaginário.
Na prática clínica há evidências nítidas do que foi dito,
como, por exemplo, tendência a funcionar numa relação simétrica, de igual para
igual. Tal especularidade pode ter consequências complicadoras, como o
desenvolvimento de dualidade imaginária, que, no extremo, pode se converter em
rivalidade delirante e mortífera.
O vínculo frouxo surge, então, como estratégia para
enfrentar tal situação. Reduzir a especularidade e dar preferência a encontros
breves e não muito próximos uns dos outros. Existem casos em que a
estabilização alcançada permite um espaçamento gradativo das sessões, sem que o
tratamento perca sua efetividade.
Vinheta. Para
ressaltar a importância do vínculo frouxo, Beneti contrapõe a manutenção do
tratamento num “vínculo tenso”, representado por sessões longas, frequentes e
com um analista pródigo em interpretações: o que, inevitavelmente, leva a
passagens ao ato. E cita o exemplo trágico e ruidoso de um analista da IPA de
São Paulo, que atendia a uma paranoica recorrendo à “maternagem” (técnica de
inspiração kleiniana que procura estabelecer entre o terapeuta e o paciente
relação análoga à que existiria entre uma “boa mãe” e o filho). A paciente
experimenta alucinações em que seu analista a abraça, a toca, etc., e sente
orgasmos ao caminhar pelas ruas. Gozo insuportável, erotomaníaco, mortífero,
que tem como saída o assassinato do analista. A paciente vai até o consultório
e o mata a tiros de revólver, quando este a recebe ao abrir a porta[16].
7.5. Trivialização
da transferência
Estratégia que
Miller mencionou em Angra dos Reis, numa reunião dos Institutos, em 1999, e que
consiste simplesmente em não endossar a tendência de certos psicóticos de
fixar-se em seus pontos deliriogênicos, perpetuando-se na sua narrativa
delirante. O que se pretende é valorizar aqueles momentos de seu relato em que
ele toca na realidade trivial, no dia a dia, na tentativa de trazê-lo para tais
temas.
Sem bem considerada, a trivialização da transferência é
algo semelhante ao que propunham os psiquiatras clássicos: evitar o delírio e
trazer o alienado à “realidade”.
7.6. Neotransferência
A neotransferência
é a transferência que se espera no tratamento do psicótico. É a melhor resposta
que se tem no momento para a cogitação de Freud sobre um novo plano mais
adequado para esses casos, mencionada no início do capítulo anterior.
Como caracterizar a neotransferência?
Um primeiro aspecto já ficou marcado: o saber está do
lado do psicótico.
E do lado do analista, o que se espera?
Quanto a isso, duas respostas. Embora haja tendência do
psicótico a situar-se como objeto, ele pode, em certas situações, tratar o
analista como objeto a. Outra
possibilidade é o analista como ideal, ou como S1, que põe o
psicótico a trabalho, visando a uma produção que tem valor de suplência.
Finalmente, a neotransferência pode assim ser definida:
como a criação e o uso de lalíngua da transferência no tratamento da psicose [17].
A
neotransferência é um tear onde se procura tecer o laço social, a matriz de um
discurso. Além disso, a clínica tem demonstrado que, frequentemente, o
estabelecimento de um vínculo (neo)transferencial possui, por si só, certa
função estabilizadora. É uma constatação [18].
Vinhetas. 1)
Na Convenção de Antibes alguns casos
clínicos evidenciam a passagem de sujeito a objeto. Num dos exemplos, um caso
de mutismo, ela se dá quando, a certa altura, o psicótico comenta ironicamente
sobre o analista: “El doctor está cachuso” (O
doutor está um caco). Noutro exemplo, a passagem se dá quando a menina
psicótica insulta o analista: “Pareces uma lebre! Não gosto de vir aqui para te
ver! Com teu corte de cabelo pareces uma lebre!” Este nome de animal produzia
um equívoco na lalíngua com o nome do terapeuta: “Lelièvre”. Desse modo, o caco ou a lebre indicam o analista na posição de objeto (a)[19].
2)
Um paranoico, que faz tratamento psicanalítico há anos, dirige perguntas ao
analista nos seguintes termos: —Que dia vai acabar a crise econômica do Brasil?
Em qual concurso público eu tenho mais chances? Que dia será descoberta a cura
de problema como o meu? Perguntas que são cuidadosamente devolvidas pelo
analista. Um dia, ele faltou à sessão (o que é raríssimo) e no dia seguinte sua
mãe telefona: —Ele disse que está cansado de tratar-se e que não quer saber
mais nem de entrevistas nem de remédios. —Cansado de tratar-se ou cansado do
analista?—De jeito nenhum: é Deus no céu e o senhor na terra; é questão de
momento e em breve ele voltará. De fato, não demorou muito e o tratamento foi
retomado. O episódio evidenciou forte laço transferencial com o analista no
lugar de ideal.
3)
Um psicótico em tratamento num CERSAM (CAPS) de Belo Horizonte demonstra,
inicialmente, desconfiança e hostilidade em relação à sua analista, que se
mantém, não obstante, sua firme decisão de acolhê-lo. Certo dia, o inesperado:
diz que a analista parece uma “olanzapina”, medicação antipsicótica que ele faz
uso há anos, por ser distante e calada como um remédio silencioso. A partir
daí, a análise avança.
8. As bengalas imaginárias
Uma
clínica das suplências procura respostas para duas perguntas: (1) Como um
sujeito que apresenta uma estrutura psicótica evita o desencadeamento? (2) Uma
vez desencadeada uma psicose, de que modo é possível algum tipo de
estabilização?
As
suplências operam por caminhos que passam pelos três registros: imaginário,
simbólico e real.
Na
falta de acesso verdadeiro ao simbólico, um dos recursos do psicótico é
utilizar o imaginário para a mediação com o real. Em importância, a
identificação está para o psicótico assim como a metáfora para o neurótico. As
identificações funcionam como bengalas
imaginárias, fazendo o sujeito equilibrar-se como um banquinho de três pés [20].
Lacan menciona o mecanismo como se, que Helen Deutsch destacou na sintomatologia de
esquizofrênicos, e atribui-lhe valor de compensação imaginária do Édipo
ausente; não da imagem paterna, mas do próprio significante do Nome-do-Pai [21].
9.
A
construção delirante
Quando
se considera a suplência pela via do simbólico, é importante assinalar, de
início, que na psicose a interpretação está do lado do psicótico, e não deve estar do lado do analista.
Na psicose não há recalque e, como
diz Lacan, o inconsciente está a céu aberto. Razão pela qual a interpretação é
desnecessária. E como o inconsciente é intérprete, a interpretação fica do lado
do psicótico.
Mais do que desnecessária, a
interpretação aqui é prejudicial: ao mobilizar aspectos pulsionais, pode
desencadear uma psicose até então ordinária ou desestabilizar uma psicose
desencadeada.
Em vez de interpretação,
construção.
Freud as diferencia de forma eloquente. Faz comparação com o arqueólogo, que em suas
escavações encontra objetos destruídos, dos quais partes importantes se
perderam. A interpretação se dirigiria
ao que emerge do soterramento; a construção procuraria reconstituir o que foi
perdido para sempre [22].
Em outras palavras, a interpretação seria uma decifração, visaria o simbólico
subjacente à barra do recalque. Já a
construção teria diante de si o indecifrável. Um trecho de Freud torna-se
oportuno nesse instante.
“Os delírios dos pacientes
parecem-me ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso de um
tratamento analítico —tentativas de explicação e de cura, embora seja verdade
que estas, sob as condições de uma psicose, não podem mais do que substituir o
fragmento de realidade que está sendo rejeitado no presente por outro fragmento
que já foi rejeitado no passado... Tal como nossa construção só é eficaz porque
recupera um fragmento de experiência perdida, assim também o delírio deve seu
poder convincente ao elemento de verdade histórica que ele insere no lugar da
realidade rejeitada” [23].
Vale
lembrar novamente que toda solução psicótica pode acontecer sem o concurso de
qualquer tratamento, e o que se faz é tentar, com o tratamento, favorecer as
saídas que os próprios psicóticos ensinaram à psicanálise.
Assim
ocorre também com a construção. O exemplo paradigmático é o de Schreber, que,
com sua construção delirante, alcançou relativa estabilização, reconstruindo
seu mundo por meio da metáfora delirante “Mulher-de-Deus”.
Não
é o analista que escolhe o caminho, mas o psicótico. Não obstante, quando a
construção tem lugar, a escuta analítica e algumas pontuações ou comentários
podem facilitá-la, contribuindo para amenizar a angústia e moderar o gozo.
A
relutância do psicótico em aceitar o tratamento analítico frequentemente é
apenas um dado inicial. O que se verifica na maioria das vezes é a dedicada e
assídua participação nas sessões, em tratamentos que podem se prolongar e que
constituem, por si só, fator de estabilização.
10.
O tratamento do real pelo real
Há algo comum em todos os casos paradigmáticos de
psicose estudados pela psicanálise. Suas soluções são autoconstruidas.
O primeiro paradigma é Schreber,
cuja estabilização foi conseguida pela construção de uma metáfora delirante.
Serão consideradas, a partir de agora, as suplências
que se verificam por meio do tratamento do real pelo real.
A primeira possibilidade a ser mencionada são casos de
passagens ao ato. Para a psiquiatria, delírio,
passagem ao ato e sintoma fazem parte da doença. Para a psicanálise, não é
necessariamente assim.
No caso de
Aimée, por exemplo, após uma passagem ao ato ocorreu sua estabilização, que
prevaleceu até o fim de sua vida. Aimée foi governanta do pai de Lacan e mãe de
Didieu Anzieu, psicanalista analisado por Lacan, que não o reconheceu como
filho de sua ex-paciente [24].
Outra maneira de tratar o real pelo real é a obra: dar à luz, ex-nihilo, a partir do nada, a um objeto novo, sem precedentes,
objeto que se impõe como real, como produto de uma operação sobre o real do
gozo não aprisionado nas redes de linguagem [25].
Entre os numerosos exemplos estão obras pictóricas (Van Gogh), filosóficas
(Rousseau), literárias (Hölderlin). No Brasil, o nome mais importante é Artur
Bispo do Rosário.
Um caso excepcional é o de Joyce: embora a literatura
esteja no registro do simbólico, ele assassina o sentido, passa ao real. Sua
obra, quanto a isso, é única.
Para Lacan, no caso de Joyce, o desencadeamento teria
sido evitado pela construção de um sintoma, o que o elevou à dignidade de um
paradigma. O sintoma joyceano, enquanto nome de gozo, é mais uma solução
autoconstruida, mais uma forma de tratamento do real pelo real.
Se no primeiro Lacan temos aplicação da psicanálise à
psicose, o último Lacan aprendeu tanto com Joyce que se pode falar em aplicação
da psicose à psicanálise. E enquanto o primeiro Lacan pergunta: como alguém se
torna louco?, o último Lacan indaga: como alguém pode não se tornar louco?
Para a psiquiatria, a solução está
do lado do psiquiatra, do saber da ciência. Para a psicanálise, a solução está
do lado do psicótico. Ela aposta no saber do psicótico. O que poderia ser
formulado assim: o psicótico sabe o seu caminho.
O tratamento psicanalítico da
psicose inclui, assim, a construção de um sintoma a partir do trabalho com o
que ele traz, sintoma capaz de organizar minimamente seu mundo e regular
minimamente seu gozo.
Na
Conversação de Arcachon Miller afirma que a segunda clínica de Lacan tem uma
equação fundamental: NP ≡ Σ. Ou seja, o sinthoma é equivalente ao Nome-do-Pai[26].
Em
que consiste o sinthoma joyceano?
Em
primeiro lugar, é um nome. Alusão ao
renome que Joyce tanto buscou, escrevendo para “ocupar os críticos durante
trezentos anos”, “único meio de assegurar a imortalidade” [27].
Com efeito, Lacan identificou em Joyce uma demissão paterna, uma Verwerfung de fato, e o renome almejado
fez a compensação da carência paterna. O nome, ou o sinthoma, constituiu
suplência do Nome-do-Pai ausente.
Em
segundo lugar, o sinthoma é uma forma de gozar do corpo e do inconsciente. Não
há como interpretar, não há como analisar os escritos de Joyce: só se pode
captar o gozo de quem o escreveu. Joyce encarna o sinthoma, ele é o sinthoma,
nessa pulverização gozosa da língua que marca o corpo e em que o sentido se
esfuma [28].
Vinheta. Um psicótico é acolhido num
serviço de saúde mental de nossa rede para um tratamento psicanalítico que
durou vários anos (citado no item 1.6.3). Em seu curso houve uma mudança
crucial que aqui será resumida. Movido pelo empuxo à mulher, o psicótico adotou
identificação feminina, inclusive nome feminino. Ao mesmo tempo, com seu novo
nome passou a produzir sua obra, obra escrita, escrita na sua lalíngua. Com
isso, alcançou estabilização expressiva e mais do que isso: com seu nome de
gozo obteve reconhecimento em sua comunidade e construiu interessante laço
social.
Bibliografia sugerida
Leitura resumida:
Miller,
J.A. (1996) Produzir o sujeito? In:
Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Barreto,
F. P. (1999) O tratamento psicanalítico
do psicótico: aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p.
131-160. Belo Horizonte: Itatiaia.
Barreto, F. P. (2010) Transferência e psicose. In: Ensaios de
psicanálise e saúde mental, p. 297-304. Belo Horizonte: Scriptum.
Leitura
avançada:
Soler, C. (1992) Estudios sobre las psicosis. Buenos Aires:
Manantial.
Laurent,
E. (1989) Estabilizaciones en las psicosis. Buenos Aires: Manantial.
NOTAS
[1]
Miller, J.-A. (1996) Produzir o sujeito?
In: Matemas I, p.156-157. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[2] Miller, J.-A. (1996) Idem, p. 160.
[3]
Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As
psicoses (1955-1956), p. 235. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[4]
Laurent, E. (1989) Entrevista sobre a
apresentação de pacientes. In: Clínica Lacaniana nº 3. São Paulo: UNICOPI,
p. 151.
[5] Lacan, J. (1998) De uma questão preliminar a todo tratamento
possível da psicose (1955-1956). In: Escritos, p. 555. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor.
[6]Zenoni, A. (1995) Tratamento Del Outro. In: Lazos. Hacia uma
clínica de lassuplencias, p. 123. Córdoba: Editorial Fundacion Ross.
[7]
Soler, C. (1992) ?Que lugar para el
analista? In: Estudios sobre laspsicosis, p. 11. Buenos Aires: Manantial.
[8]Miller, J.-A. (2005) Introdução à leitura do Seminário da
angústia de Jacques Lacan. In: Opção Lacaniana nº 43, p. 56-57. São Paulo: Eólia, 7-91, maio de
2005.
[9]
Miller, J.-A. (1996) Mostrado em Prémontré. In:Matemas I, p. 151. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[10]Idem, p. 152.
[11]Idem, p. 154.
[12]
Freud, S. (1976) História de uma Neurose
Infantil (1914). In: ESB, Vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, p. 166.
[13] Miller, J.-A. (1998) Lições sobre apresentação de doentes (p.
202). In: Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica. A
conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira,
1998.
[14]
Barreto, F. P. (2010) Transferência e
psicose. In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 301-302. Belo
Horizonte: Scriptum.
[15]Zenoni,
A. Qual Instituição para o Sujeito Psicótico? In:Abrecampos, Ano 1, Nº
0. Belo Horizonte: Instituto Raul
Soares, 2000, pp. 19-20.
[16]
Beneti, A. Sobre o tratamento
psicanalítico da psicose. In: Artigos, Vol II, 1996, p. 25-26. Belo
Horizonte: Centro de Estudos Galba Velloso.
[17]Miller,
J.-A. y otros.(2003) Neotransferencia:
Lalengua de latransferenciaenlaspsicosis. In: La psicosis ordinária, p. 132.
Buenos Aires: Paidós.
[18]
Barreto, F. P. (2010) Op. Cit., p.
[19] Miller, J.-A. y otros. (2003)
Op. cit., p. 131-158.
[20] Barreto, F. P. (1999) O tratamento psicanalítico do psicótico:
aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 149-150. Belo
Horizonte: Itatiaia.
[21] Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As psicoses
(1955-1956), p. 220. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[22]
Freud, S. (1975) Construções em Análise
(1937). ESB, Vol. XXIII, p. 295.Rio
de Janeiro: Imago.
[23]
Freud, S. (1975) Idem,p. 303.
[24]Roudinesco, E. (1988) História da Psicanálise na França, Volume 2,
p. 138-139. Rio de Janeiro: Jorge
ZaharEditor.
[25] Soler, C. (1992) El trabajo de lapsicosis. In: Estudios sobre
laspsicosis, p. 18. Buenos Aires: Manantial.
[26]La Conversation d’Arcachon, 1997, p. 156. Paris: Agalma- Seuil.
[27]Lysy,
A. (2005) Joyce e o Nome-do-Pai. In:
Scilicet dos Nomes do Pai, p. 87. Rio de Janeiro, Escola Brasileira de
Psicanálise, Gráfica Edil.
[28]Idem, p.89.
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