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domingo, 4 de dezembro de 2016

XV. A toxicomania como um modo de gozo





(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)


            A droga é um remédio ou um veneno? O problema é a droga ou quem a consome? São questões que mobilizam discussões desde a Grécia Clássica.

            A melhor resposta para a primeira pergunta foi dada por Paracelso, no século XVI: “O veneno é a dose”. Fórmula que se tornou um dos princípios fundamentais da farmacologia.

            Para a segunda pergunta, há várias respostas. Serão apenas listadas.

            O discurso do mestre contemporâneo estabelece: o problema é a droga, numa perspectiva que constroi, no mundo inteiro, prodigioso aparelho de repressão, com altíssimo custo em termos de dinheiro, atores, vidas, instituições. O combate ao narcotráfico, com todo esse dispêndio, apresenta resultados que são do conhecimento de todos. A legalização de todas as drogas encontra número cada vez maior de defensores, embora se trate de mudança delicada e que necessita de planejamento internacional  [1]

Quando se postula: o problema é quem consome a droga, há, pelo menos, três respostas diferentes.

            A primeira, sustentada pela psiquiatria biológica, consiste em afirmar que a toxicomania é uma doença. Ou seja, decorre de distúrbio neurobiológico de origem genética, proposição que desconsidera ou desvaloriza tudo o que é da ordem da subjetividade ou da cultura. Seu ideal é tratar a dependência à droga com outra droga.

Quando se coloca a toxicomania como doença, o problema se situa do lado de quem consome, mas desresponsabiliza o sujeito. A responsabilidade é atribuída à disfunção orgânica.

A cultura atual traz outra concepção de toxicomania, incompatível com a anterior, mas que, não obstante, coexiste com ela. Segundo essa outra concepção, a toxicomania é um crime, no sentido jurídico, e um erro, no sentido moral. Ou seja, o problema está do lado de quem consome a droga, e o sujeito é responsabilizado como autor de um crime e de uma transgressão dos costumes. Abordagem que traz, obrigatoriamente, o enquadramento num contexto de culpa e punição [2].

Uma terceira posição, inteiramente distinta das anteriores, é a da psicanálise. Para ela, o problema está na relação do sujeito com a droga. A droga tem importância, mas a ênfase fica do lado do sujeito. Diferente da psiquiatria biológica, portanto, a psicanálise enfatiza o sujeito e a subjetividade. Por outro lado, o sujeito é responsável, sim, mas não se trata de ética que envolva culpa e punição. Pelo contrário, a psicanálise procura retirá-lo desse âmbito. A ética jurídico-moralista é a do crime e castigo. A ética da psicanálise responsabiliza o sujeito, não para castigá-lo, mas para mostrar que ele não é vítima, e sim autor de seu destino. Não existe oráculo! Nada em definitivo já estava escrito!  A ética da psicanálise pode ser definida como ética das consequências. Ou seja, todo ato tem consequências e cada um deve arcar com as consequências de seus atos.

Para ser preciso, para a psicanálise a toxicomania é um modo de gozo: tema que requer desdobramentos.

O que é o gozo?

O gozo é a satisfação da pulsão.

A teoria das pulsões é o axioma da psicanálise. Ou, conforme diz Freud, “a nossa mitologia” [3]
Miller vê três momentos na concepção freudiana das pulsões. Num primeiro momento, as pulsões de autoconservação se opõem às pulsões sexuais, ou, os fatores ligados à sobrevivência do indivíduo se opõem aos da sobrevivência da espécie, como no dilema entre fome e amor sugerido pelo poeta Schiller. Mais tarde, com o conceito de narcisismo, a libido circula entre os dois tipos de pulsão, o que sugere sua unificação. No terceiro tempo lógico de sua elaboração, Freud reconstitui a oposição, situando, de um lado, a libido e sua função agregadora como pulsão de vida, como Eros, e de outro lado as forças desagregadoras da pulsão de morte, ou Tanatos [4].

Haveria, com Lacan, um quarto tempo: unificação das pulsões sexuais com a pulsão de morte por meio do gozo. O gozo é satisfação e incômodo, ou nó de satisfação e de dor [5].

            Existe aí, portanto, um paradoxo: o prazer está em continuidade com o desprazer ou com o seu para-além. O amálgama das duas pulsões cria um bem para o sujeito que não coincide com o seu bem-estar, um bem que pode se traduzir por mal-estar ou mesmo se confundir com a dor. O gozo, como diz Lacan, “começa com cócegas e termina com labaredas de gasolina” [6].

A existência de um além do princípio do prazer pode ser deduzida a partir de casos de adição a drogas. Há um padrão em jogo: o bem-estar pode existir no início; com o agravamento da dependência, surge a necessidade imperiosa e repetitiva de satisfação, em que o prazer cede lugar progressivamente ao sofrimento e que não raro culmina com a morte.

Na atualidade, com o declínio do pai e a ascensão do gozo consumista — garantidor do discurso capitalista — o modo de gozo da adição torna-se presente em numerosas situações. Por exemplo, em relação à comida. Come-se, primeiro, por fome ou prazer, mas depois disso, continua-se a comer por compulsão, sem qualquer necessidade alimentar, sem algum prazer ou até com sofrimento. A lista pode ser amplamente estendida: adição às compras, adição à Internet, adição aos remédios, adição ao trabalho, adição ao jogo, adição ao sexo, adição aos furtos, adição aos smartphones... O modelo geral da vida cotidiana na época contemporânea é a adição. Existe hoje uma sociedade de viciados? Haveria uma toxicomania generalizada? Nenhuma surpresa a constatar. Trata-se apenas de consequência lógica do imperativo de gozo consumista [7].


Como goza o toxicômano?

Há outra definição: o gozo é o que não serve para nada. Lacan afirma isso com base em Freud, segundo o qual a satisfação que a criança obtém com a chupeta não está a serviço da alimentação – é algo a mais e que não serve absolutamente para nada [8]. Ou seja, o gozo está dissociado da preservação do indivíduo ou mesmo da espécie.

Para situar o gozo do toxicômano, é preciso introduzir certa pluralização dos gozos. Uma diferenciação mínima opõe gozo sexual àquele que logicamente o precede, que é um gozo assexual.

O gozo sexual só é concebível a partir da castração, razão pela qual é denominado, também, gozo fálico. Com efeito, somente com a castração é possível falar da diferença entre os sexos. O gozo sexual ou fálico está, então, marcado pelo significante.

O gozo assexual não passa pelo Outro, é puro autoerotismo e cabe muito bem na definição: não serve para nada. Gozo das pulsões parciais, sem limites e que, no extremo, pode levar à morte.  

É o falo que faz crer em alguma utilidade para o gozo, como, por exemplo, a de propiciar o encontro entre os sexos. O gozo fálico pode mesmo buscar o corpo do Outro sexo, mas há outras possibilidades. Na homossexualidade procura-se um corpo que seja igual. E na masturbação há a procura do “pequeno pipi”, no próprio corpo.

Na toxicomania haveria ruptura não apenas com o Outro sexo, mas, também, ruptura com o fálico. Como diz Lacan: “A droga é o que permite romper o casamento do corpo com o pequeno pipi” [9].

O gozo do toxicômano, por conseguinte, não passa pelo Outro, nem pelo gozo fálico. A preterição do pequeno pipi corresponde a um gozo prévio à questão sexual, ilimitado, insubordinado, que remete a um sempre mais, mortífero. Algo que se tornou emblemático do autismo contemporâneo do gozo.

Duas citações de Lacan podem ser oportunas.

“A dimensão pela qual o ser falante se distingue do animal é, certamente, o existir nele essa hiância pela qual ele se perderia, pela qual lhe seria permitido operar sobre o corpo ou sobre os corpos, o seu ou os de seus semelhantes, ou os dos animais que o cercam, para fazer surgir, em benefício deles ou do próprio, aquilo que é propriamente chamado de gozo” [10].

“Onde é que isso habita, o gozo? Do que ele precisa? De um corpo. Para gozar, é preciso um corpo. Nem mesmo os que prometem beatitudes eternas podem fazê-lo, a não ser supondo que o corpo seja seu veículo. Glorioso ou não, ele tem de estar presente. É preciso um corpo. Por quê? Porque a dimensão do gozo, para o corpo, é a dimensão da descida para a morte” [11].



Demanda, desejo e gozo

Ao tratar a toxicomania como um modo de gozo, é pertinente considerar, ainda que de modo sumário, outros conceitos articulados à questão: demanda e desejo. No primeiro Lacan temos a tríade necessidade, demanda e desejo. No seu  último ensino, com a mudança da concepção de real, a tríade tornou-se demanda, desejo e gozo.

Demanda não é outra coisa que dirigir-se ao Outro. Abrange todo o dito pelo sujeito em análise. O simples fato de que a demanda fale dá lugar à interpretação.

Na experiência analítica, porém, encontra-se também uma demanda paradoxal, uma demanda que Freud mesmo chamou de silenciosa: que não fala, mas, pressupõe a linguagem, obedece às regras da linguagem.

O vetor da demanda, portanto, compreende a parte que se pode interpretar, o desejo, e a parte que não se pode interpretar, a pulsão.

O gozo, como já foi dito, é a satisfação da pulsão. Em Freud, a pulsão está sempre satisfeita. É o que quer dizer Lacan em “Televisão” com aquela frase: “O sujeito é sempre feliz”.

Como, então, situar a renúncia às pulsões, tema fundamental de “O mal-estar na civilização?” Sim, para não perder o amor do Outro, o sujeito aceita renunciar à satisfação das pulsões, mas o Outro é internalizado como supereu e o gozo da renúncia é deslocado para ele. Ou há satisfação da pulsão ou há gozo na renúncia, quer dizer, gozo deslocado para a consciência moral. A pulsão continua, então, plenamente satisfeita, de modo direto ou por deslocamento.

O gozo é não-dialético, é sempre gozo do Um [12], há aí um autismo fundamental. O gozo não leva em consideração o Outro e não existe gozo do Outro. O gozo do Outro é aquele que o sujeito supõe no Outro, sendo o próprio Outro, igualmente, um ser suposto. Trata-se de estado hipotético do gozo que corresponde à satisfação plena e sem entrave algum: é o gozo absoluto, é o gozo perdido para sempre, é o desejo da mãe onipotente.

Com a inscrição da castração e com a mediação do Nome-do-Pai, há uma perda de gozo, há uma limitação do gozo absoluto. O gozo fálico ou gozo sexual passa a corresponder à satisfação parcial cujo limite é dado pelo significante fálico. O mais-de-gozo é o gozo residual que excede ao gozo fálico; é um dos nomes do objeto (a).

Se o gozo é sempre satisfeito, o desejo é estruturalmente insatisfeito. E o desejo é dialético: O desejo é o desejo do Outro, o desejo é desejo de desejo. E o desejo é antinômico ao gozo.

Se não há castração, se prevalece o gozo absoluto, não há desejo. O caminho parte do gozo pulsional, passa pela renúncia ao gozo pulsional por amor e dá como resultado a insatisfação fundamental do desejo. Satisfazer o desejo é matá-lo.

Em comparação com o gozo, o desejo é mais civilizado. Enquanto que o gozo é função coordenada ao supereu, o desejo é função coordenada ao Nome-do-Pai. O desejo é uma defesa, uma barreira contra o gozo do corpo. Com efeito, a própria possibilidade do desejo só existe na impossibilidade do gozo (absoluto). É o advento do Nome-do-Pai no Outro que define tanto uma coisa como a outra.

É não cedendo no desejo que se enfraquece o supereu e seu imperativo: Goza! O supereu corresponde ao Outro não-castrado, herdeiro do pai todo-poderoso e gozador da horda primitiva, podendo ser identificado ainda à figura da mãe arcaica com seu desejo sem limites. Existe equivalência, portanto, entre o gozo exigido pelo supereu e o gozo do Outro.

Os termos apresentados contribuem para balizar a direção do tratamento do toxicômano.  


Bibliografia sugerida

Leitura resumida:
Barreto, F.P. (2016) A responsabilidade do toxicômano. In: O bem-estar na coivilização. Curitiba: Editora CRV.

Leitura avançada:
Santiago, J. (2001) A droga do toxicômano. Uma parceria cínica na era da ciência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.


NOTAS

[1] Barreto, F. P. (2010) A responsabilidade do toxicômano. In: O bem-estar na civilização, p. 71-72. Curitiba: Editora CRV.

[2] Idem, p. 63.

[3] Freud, S. (1976) Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1933). In: ESB, Vol. XXII, p. 119. Rio de Janeiro: Imago.

[4] Miller, J.-A. (1997) Patologia da ética. In: Lacan elucidado, p. 374. Rio de Janeiro: Jorge  Zahar Editor.

[5] Idem, p. 374.

[6] Lacan J. O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro, Jorge Zahar, editor, 1992; p. 68.

[7] Barreto, F. P. (2010) Op. cit, p. 64-65.

[8] Naparstek, F. y colaboradores (2006) Introducción a la clínica com toxicomanía y alcoholismo, p. 52. Buenos Aires: Grama Ediciones.

[9] Lacan, J. Encerramento da Jornada de Cartéis da EFP. 1975. Inédito.

[10] Lacan, J. (2011) Estou falando com as paredes (1971-72), p. 29. Rio de Janeiro: Zahar.

[11] Lacan, J. (2011) Idem, p. 28.

[12] Miller, J.-A. (1984) Teoria de los goces. In: Recorrido de Lacan, p. 152. Buenos Aires: Manantial.

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