(PSICANÁLISE
E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
A droga é um remédio ou um veneno? O problema é a droga
ou quem a consome? São questões que mobilizam discussões desde a Grécia
Clássica.
A melhor resposta para a primeira pergunta foi dada por
Paracelso, no século XVI: “O veneno é a dose”. Fórmula que se tornou um dos
princípios fundamentais da farmacologia.
Para a segunda pergunta, há várias respostas. Serão
apenas listadas.
O discurso do mestre contemporâneo estabelece: o problema é a droga, numa perspectiva
que constroi, no mundo inteiro, prodigioso aparelho de repressão, com altíssimo
custo em termos de dinheiro, atores, vidas, instituições. O combate ao
narcotráfico, com todo esse dispêndio, apresenta resultados que são do
conhecimento de todos. A legalização de todas as drogas encontra número cada
vez maior de defensores, embora se trate de mudança delicada e que necessita de
planejamento internacional [1].
Quando
se postula: o problema é quem consome a
droga, há, pelo menos, três respostas diferentes.
A primeira, sustentada pela
psiquiatria biológica, consiste em afirmar que a toxicomania é uma doença. Ou seja, decorre de distúrbio
neurobiológico de origem genética, proposição que desconsidera ou desvaloriza
tudo o que é da ordem da subjetividade ou da cultura. Seu ideal é tratar a
dependência à droga com outra droga.
Quando se coloca a toxicomania como
doença, o problema se situa do lado de quem consome, mas desresponsabiliza o
sujeito. A responsabilidade é atribuída à disfunção orgânica.
A cultura atual traz outra concepção de
toxicomania, incompatível com a anterior, mas que, não obstante, coexiste com
ela. Segundo essa outra concepção, a
toxicomania é um crime, no sentido jurídico, e um erro, no sentido moral. Ou
seja, o problema está do lado de quem consome a droga, e o sujeito é
responsabilizado como autor de um crime e de uma transgressão dos costumes.
Abordagem que traz, obrigatoriamente, o enquadramento num contexto de culpa e
punição [2].
Uma terceira posição, inteiramente
distinta das anteriores, é a da psicanálise. Para ela, o problema está na
relação do sujeito com a droga. A droga tem importância, mas a ênfase fica do
lado do sujeito. Diferente da psiquiatria biológica, portanto, a psicanálise
enfatiza o sujeito e a subjetividade. Por outro lado, o sujeito é responsável,
sim, mas não se trata de ética que envolva culpa e punição. Pelo contrário, a
psicanálise procura retirá-lo desse âmbito. A ética jurídico-moralista é a do
crime e castigo. A ética da psicanálise responsabiliza o sujeito, não para
castigá-lo, mas para mostrar que ele não é vítima, e sim autor de seu destino.
Não existe oráculo! Nada em definitivo já estava escrito! A ética da psicanálise pode ser definida como
ética das consequências. Ou seja, todo ato tem consequências e
cada um deve arcar com as consequências de seus atos.
Para
ser preciso, para a psicanálise a toxicomania é um modo de gozo: tema que
requer desdobramentos.
O que é o gozo?
O
gozo é a satisfação da pulsão.
A
teoria das pulsões é o axioma da psicanálise. Ou, conforme diz Freud, “a nossa
mitologia” [3].
Miller
vê três momentos na concepção freudiana das pulsões. Num primeiro momento, as
pulsões de autoconservação se opõem às pulsões sexuais, ou, os fatores ligados
à sobrevivência do indivíduo se opõem aos da sobrevivência da espécie, como no
dilema entre fome e amor sugerido pelo poeta Schiller. Mais tarde, com o
conceito de narcisismo, a libido circula entre os dois tipos de pulsão, o que
sugere sua unificação. No terceiro tempo lógico de sua elaboração, Freud
reconstitui a oposição, situando, de um lado, a libido e sua função agregadora
como pulsão de vida, como Eros, e de outro lado as forças desagregadoras da
pulsão de morte, ou Tanatos [4].
Haveria,
com Lacan, um quarto tempo: unificação das pulsões sexuais com a pulsão de
morte por meio do gozo. O gozo é satisfação e incômodo, ou nó de satisfação e
de dor [5].
Existe aí, portanto, um paradoxo: o prazer está em
continuidade com o desprazer ou com o seu para-além. O amálgama das duas
pulsões cria um bem para o sujeito que não coincide com o seu bem-estar, um bem
que pode se traduzir por mal-estar ou mesmo se confundir com a dor. O gozo,
como diz Lacan, “começa com cócegas e termina com labaredas de gasolina” [6].
A existência de um além do princípio do
prazer pode ser deduzida a partir de casos de adição a drogas. Há um padrão em
jogo: o bem-estar pode existir no início; com o agravamento da dependência,
surge a necessidade imperiosa e repetitiva de satisfação, em que o prazer cede
lugar progressivamente ao sofrimento e que não raro culmina com a morte.
Na atualidade, com o declínio do pai e a
ascensão do gozo consumista — garantidor do discurso capitalista — o modo de
gozo da adição torna-se presente em numerosas situações. Por exemplo, em
relação à comida. Come-se, primeiro, por fome ou prazer, mas depois disso,
continua-se a comer por compulsão, sem qualquer necessidade alimentar, sem
algum prazer ou até com sofrimento. A lista pode ser amplamente estendida:
adição às compras, adição à Internet, adição aos remédios, adição ao trabalho,
adição ao jogo, adição ao sexo, adição aos furtos, adição aos smartphones... O modelo geral da vida
cotidiana na época contemporânea é a adição. Existe hoje uma sociedade de
viciados? Haveria uma toxicomania generalizada? Nenhuma surpresa a constatar.
Trata-se apenas de consequência lógica do imperativo de gozo consumista [7].
Como
goza o toxicômano?
Há outra definição: o gozo é o que não
serve para nada. Lacan afirma isso com base em Freud, segundo o qual a
satisfação que a criança obtém com a chupeta não está a serviço da alimentação
– é algo a mais e que não serve absolutamente para nada [8].
Ou seja, o gozo está dissociado da preservação do indivíduo ou mesmo da
espécie.
Para situar o gozo do toxicômano, é
preciso introduzir certa pluralização dos gozos. Uma diferenciação mínima opõe
gozo sexual àquele que logicamente o precede, que é um gozo assexual.
O gozo sexual só é concebível a partir da
castração, razão pela qual é denominado, também, gozo fálico. Com efeito,
somente com a castração é possível falar da diferença entre os sexos. O gozo
sexual ou fálico está, então, marcado pelo significante.
O gozo assexual não passa pelo Outro, é
puro autoerotismo e cabe muito bem na definição: não serve para nada. Gozo das
pulsões parciais, sem limites e que, no extremo, pode levar à morte.
É o falo que faz crer em alguma utilidade
para o gozo, como, por exemplo, a de propiciar o encontro entre os sexos. O
gozo fálico pode mesmo buscar o corpo do Outro sexo, mas há outras
possibilidades. Na homossexualidade procura-se um corpo que seja igual. E na
masturbação há a procura do “pequeno pipi”, no próprio corpo.
Na toxicomania haveria ruptura não apenas
com o Outro sexo, mas, também, ruptura com o fálico. Como diz Lacan: “A droga é
o que permite romper o casamento do corpo com o pequeno pipi” [9].
O gozo do toxicômano, por conseguinte, não
passa pelo Outro, nem pelo gozo fálico. A preterição do pequeno pipi
corresponde a um gozo prévio à questão sexual, ilimitado, insubordinado, que
remete a um sempre mais, mortífero.
Algo que se tornou emblemático do autismo contemporâneo do gozo.
Duas citações de Lacan podem ser oportunas.
“A dimensão pela
qual o ser falante se distingue do animal é, certamente, o existir nele essa
hiância pela qual ele se perderia, pela qual lhe seria permitido operar sobre o
corpo ou sobre os corpos, o seu ou os de seus semelhantes, ou os dos animais
que o cercam, para fazer surgir, em benefício deles ou do próprio, aquilo que é
propriamente chamado de gozo” [10].
“Onde é que isso
habita, o gozo? Do que ele precisa? De um corpo. Para gozar, é preciso um
corpo. Nem mesmo os que prometem beatitudes eternas podem fazê-lo, a não ser
supondo que o corpo seja seu veículo. Glorioso ou não, ele tem de estar
presente. É preciso um corpo. Por quê? Porque a dimensão do gozo, para o corpo,
é a dimensão da descida para a morte” [11].
Demanda,
desejo e gozo
Ao tratar a toxicomania como um modo de
gozo, é pertinente considerar, ainda que de modo sumário, outros conceitos
articulados à questão: demanda e desejo. No primeiro Lacan temos a tríade necessidade, demanda e desejo. No
seu último ensino, com a mudança da
concepção de real, a tríade tornou-se demanda,
desejo e gozo.
Demanda
não
é outra coisa que dirigir-se ao Outro. Abrange todo o dito pelo sujeito em
análise. O simples fato de que a demanda fale dá lugar à interpretação.
Na experiência analítica, porém,
encontra-se também uma demanda paradoxal, uma demanda que Freud mesmo chamou de
silenciosa: que não fala, mas, pressupõe a linguagem, obedece às regras da
linguagem.
O vetor da demanda, portanto, compreende a
parte que se pode interpretar, o desejo,
e a parte que não se pode interpretar, a pulsão.
O gozo,
como já foi dito, é a satisfação da pulsão. Em Freud, a pulsão está sempre
satisfeita. É o que quer dizer Lacan em “Televisão” com aquela frase: “O
sujeito é sempre feliz”.
Como, então, situar a renúncia às pulsões,
tema fundamental de “O mal-estar na civilização?” Sim, para não perder o amor
do Outro, o sujeito aceita renunciar à satisfação das pulsões, mas o Outro é
internalizado como supereu e o gozo da renúncia é deslocado para ele. Ou há
satisfação da pulsão ou há gozo na renúncia, quer dizer, gozo deslocado para a
consciência moral. A pulsão continua, então, plenamente satisfeita, de modo
direto ou por deslocamento.
O gozo é não-dialético, é sempre gozo do
Um [12],
há aí um autismo fundamental. O gozo não leva em consideração o Outro e não
existe gozo do Outro. O gozo do Outro é aquele que o sujeito supõe no Outro,
sendo o próprio Outro, igualmente, um ser suposto. Trata-se de estado
hipotético do gozo que corresponde à satisfação plena e sem entrave algum: é o
gozo absoluto, é o gozo perdido para sempre, é o desejo da mãe onipotente.
Com a inscrição da castração e com a
mediação do Nome-do-Pai, há uma perda de gozo, há uma limitação do gozo
absoluto. O gozo fálico ou gozo sexual passa a corresponder à
satisfação parcial cujo limite é dado pelo significante fálico. O mais-de-gozo é o gozo residual que
excede ao gozo fálico; é um dos nomes do objeto
(a).
Se o gozo é sempre satisfeito, o desejo é
estruturalmente insatisfeito. E o desejo é dialético: O desejo é o desejo do
Outro, o desejo é desejo de desejo. E o desejo é antinômico ao gozo.
Se não há castração, se prevalece o gozo
absoluto, não há desejo. O caminho parte do gozo pulsional, passa pela renúncia
ao gozo pulsional por amor e dá como resultado a insatisfação fundamental do
desejo. Satisfazer o desejo é matá-lo.
Em comparação com o gozo, o desejo é mais
civilizado. Enquanto que o gozo é função coordenada ao supereu, o desejo é
função coordenada ao Nome-do-Pai. O desejo é uma defesa, uma barreira contra o
gozo do corpo. Com efeito, a própria possibilidade do desejo só existe na
impossibilidade do gozo (absoluto). É o advento do Nome-do-Pai no Outro que
define tanto uma coisa como a outra.
É não cedendo no desejo que se enfraquece
o supereu e seu imperativo: Goza! O supereu corresponde ao Outro não-castrado,
herdeiro do pai todo-poderoso e gozador da horda primitiva, podendo ser
identificado ainda à figura da mãe arcaica com seu desejo sem limites. Existe
equivalência, portanto, entre o gozo exigido pelo supereu e o gozo do Outro.
Os termos apresentados contribuem para
balizar a direção do tratamento do toxicômano.
Bibliografia
sugerida
Leitura
resumida:
Barreto, F.P. (2016) A responsabilidade do toxicômano. In: O
bem-estar na coivilização. Curitiba: Editora CRV.
Leitura
avançada:
Santiago, J. (2001) A droga do toxicômano. Uma parceria cínica
na era da ciência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
NOTAS
[1]
Barreto, F. P. (2010) A responsabilidade
do toxicômano. In: O bem-estar na civilização, p. 71-72. Curitiba: Editora
CRV.
[2]
Idem, p. 63.
[3]
Freud, S. (1976) Novas Conferências
Introdutórias sobre Psicanálise (1933). In: ESB, Vol. XXII, p. 119. Rio de
Janeiro: Imago.
[4]
Miller, J.-A. (1997) Patologia da ética.
In: Lacan elucidado, p. 374. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[5]
Idem, p. 374.
[6] Lacan J. O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, editor, 1992; p. 68.
[7]
Barreto, F. P. (2010) Op. cit, p. 64-65.
[8]
Naparstek, F. y colaboradores (2006) Introducción
a la clínica com toxicomanía y alcoholismo, p. 52. Buenos Aires: Grama
Ediciones.
[9]
Lacan, J. Encerramento da Jornada de
Cartéis da EFP. 1975. Inédito.
[10]
Lacan, J. (2011) Estou falando com as
paredes (1971-72), p. 29. Rio de Janeiro: Zahar.
[11]
Lacan, J. (2011) Idem, p. 28.
[12]
Miller, J.-A. (1984) Teoria de los goces.
In: Recorrido de Lacan, p. 152. Buenos Aires: Manantial.
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