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sábado, 8 de outubro de 2016

XI. O tratamento psicanalítico do psicótico: princípios





(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)



            Freud: “Descobrimos que temos de renunciar à ideia de experimentar nosso plano de cura com os psicóticos ––renunciar a ele para sempre ou talvez apenas por enquanto, até que tenhamos encontrado outro plano que se lhes adapte melhor” [1].

            Lacan: “Um analista não deve recuar diante da psicose” [2].

            Entre a cautela de Freud e a ousadia de Lacan, devemos ficar com as duas.

          Freud fez da neurose a terra natal da psicanálise. Na época contemporânea, porém, a incursão da psicanálise no terreno da psicose já tem tradição e contribuições importantes, embora se trate de campo mais movediço e de desafios mais complexos.

A psicanálise não tem regras, mas tem princípios. E os princípios que regem o tratamento da psicose não são os mesmos que regem o tratamento da neurose.

            O breve levantamento que será feito tomará como bússola a psicanálise de orientação lacaniana.

        A experiência tem demonstrado que existem casos que caminham bem com o tratamento psicanalítico, existem casos que caminham melhor com outros tratamentos, existem casos que requerem tratamentos combinados e existem aqueles que desafiam todos os tratamentos.


            1. O matema do tratamento do psicótico

           A linguagem é a matriz de todos os casos: quanto a isso, não há diferença entre neurose, perversão e psicose. O lugar do Outro está lá, antes mesmo do sujeito nascer. O sujeito, na definição lacaniana, é um efeito do significante. Antes que ele fale, ele é falado por esse Outro pré-histórico.

Dois aspectos são fundamentais: o sujeito como ser falante é uma criação significante (1) que surge de seu estatuto primeiro de objeto (2). Na psicose, por não se introduzir a função da castração, temos um sujeito que resiste à falta-de-ser, que resiste à barra, um sujeito-objeto, a-sujeitado ao Outro.

Pode-se dizer que o paranóico fica detido no estádio do “isso fala dele”, e fala de modo desagradável, enquanto que para o esquizofrênico prevalece o “isso não fala dele”, alusão ao filho no ventre da mãe como um pedaço-de-real [3].

Miller discorre sobre o tratamento do psicótico a partir do seguinte matema:
       a   
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            O tratamento partiria da posição do psicótico como objeto e conduziria aos confins da produção do sujeito [4].


            2. A posição de escuta

            Um primeiro aspecto a ser destacado é a posição de escuta do analista em relação ao psicótico. Há em jogo vários aspectos importantes a ser examinados.

            Pelo simples fato de falar, o psicótico se põe como sujeito; e o analista, polo de enderaçamento, se põe como Outro. Enquadramento simbólico que reverte a tendência da psiquiatria a tratar o psicótico como objeto.

            A fala não só dá ao psicótico a condição de sujeito como representa certo acesso ao simbólico, num duplo trajeto: aquele que fala também se escuta. E aquele que fala, de algum modo denota e metaforiza.

            Não se trata de uma escuta qualquer: os psiquiatras clássicos também escutavam seus loucos, mas como objetos de seu esforço descritivo e classificatório. 

            Trata-se de uma escuta analítica, que procura apreender a fala do psicótico não para atribuir-lhe sentido ou compreensão, mas para “tomar ao pé da letra o que ele nos conta”, acolhendo-a como algo específico e próprio daquele sujeito. Lacan propôs o analista em posição de testemunho, como secretário do alienado [5].


            3. A interpelação do sujeito

            Há uma tendência do psicótico a se por ao lado do objeto a e em posição de quem sabe, de quem pode enunciar um saber desconhecido sobre o Outro. O analista, por sua vez, como simulacro de objeto, sob suposição de saber, procura dividir o sujeito. Ou seja, a posição do psicótico guarda certa correspondência com a posição do analista. Como contornar o obstáculo?

            Outra possibilidade a ser considerada é a tendência do psicótico, freqüente nos relatos por ele trazidos, a se colocar como objeto de gozo do Outro. O paradigma é Schreber. 

            Tanto num caso como no outro uma intervenção pode ser a interpelação do psicótico como sujeito, que deve, no entanto, obedecer ao cálculo da clínica.

            Trata-se de algo que está próximo ao que Laurent propôs com a fórmula “tocar o sujeito no doente” [6].


            4. O tratamento (retificação) do Outro

            Lacan diz que “o estado do sujeito S (neurose ou psicose) depende do que se desenrola no Outro A” [7]. Na psicose, o que se tem? Um Outro sem lei, um Outro intrusivo, um Outro gozador. Na paranóia, por exemplo, o Outro se apresenta subjetivado, perseguidor ou erotomaníaco, e o psicótico como objeto desse gozo. 

Uma solução adotada é o delírio, construção simbólica e imaginária que reorganiza o mundo do psicótico. Na verdade, não só do psicótico; existem inúmeras construções filosóficas, religiosas e políticas que constituem delírios coletivos, com função organizadora dos grupos que as comungam. 

           Na maioria das vezes, porém, os delírios infligem pesado sofrimento ao psicótico, principalmente no caso de delírios alucinatórios.

         O tratamento do Outro visa flexibilizar o poder absoluto, ou a omnisciência, ou a perfeição atribuída ao Outro. O que se busca é “uma outra Alteridade que seja alternativa ao Outro primordial do sujeito” [8].

            Não se trata de refutar, mas de afrouxar seu sistema de crenças.


5. O benefício da dúvida   
                         
            O neurótico acredita no Outro, mas vacila, porque na neurose o Outro é barrado. Pode-se dizer que a neurose é da ordem da dúvida.

            A psicose, por seu turno, é da ordem da certeza. O Outro não é barrado; o psicótico não acredita, ele tem certeza da existência do Outro.

          Na psicose, o vigor da certeza está presente tanto em relação ao Outro do delírio como em relação ao real da alucinação.

            É claro que, quando se trata de perseguição atroz, de erotomania mortífera ou de alucinações com vozes de comando assassinas, isso traz sofrimento lancinante para o psicótico.

            É nesse contexto que se torna oportuno o ditame ético de Lacan: onde houver certeza, introduzir o benefício da dúvida.


            6. A extração do objeto a

            A angústia na neurose é angústia de castração, angústia relacionada à falta.

            Na psicose, por outro lado, a angústia surge quando a falta vem a faltar, ou seja, quando há objeto, quando há objeto demais [9].

            Em outros termos, na psicose não há extração do objeto a. O psicótico não se separou de seu objeto a, guarda-o no bolso, conforme diz Lacan.

           A angústia na psicose, portanto, tem a ver com a falta da falta, com o objeto demasiadamente presente.

            Para sair dela, existem diferentes caminhos, como a extração do objeto pela via do significante.

            É possível, ainda, num curto-circuito, realizar uma passagem ao ato, tal como uma agressão, uma automutilação ou uma tentativa de suicídio.

            Um exemplo paradigmático seria Van Gogh cortando a sua orelha. Uma extração do objeto a pela via do real.
            

            7. O tratamento sob transferência

            O tratamento psicanalítico do psicótico, assim como o do neurótico, é feito sob transferência. Mas há diferenças cruciais.

            Na neurose, o vetor da transferência (amor, ódio) vai do sujeito ao Outro, ou do neurótico ao analista. E o saber está do lado do analista (sujeito suposto saber). Ao emprestar semblante para a suposição de saber o analista favorece a entrada em análise e o prosseguimento da experiência analítica.

A diferença começa aí. E Miller, a este respeito, é bem claro: “O paranoico só conhece o saber. Sua relação com o saber constitui seu sintoma. O que o persegue a não ser um saber que passeia pelo mundo, um saber que se faz mundo? [10]” Com efeito, quando o Outro se apresenta para o psicótico como o Outro do saber, ele é encontrado de forma persecutória ou erotomaníaca.

A primeira conclusão propõe que, nesse tratamento, o saber não deve ficar do lado do analista e sim do lado do psicótico.

Segunda conclusão: quando o saber fica do lado do analista, a tendência é o surgimento de transferência persecutória ou erotomaníaca. Na psicose, por conseguinte, o vetor da transferência vai do analista ao psicótico.

Quando o saber fica do lado do analista, portanto, podem manifestar-se modalidades de transferência que inviabilizam o tratamento do psicótico. Existem estratégias para evitá-lo, o que será visto da próxima vez.

Cabe a pergunta: nesse caso, que transferência seria adequada nesse caso?

Uma resposta sumária: a melhor possibilidade é quando o psicótico situa, do lado do analista, o ideal ou o objeto. É o que foi nomeado neotransferência.


8. As bengalas imaginárias

Uma clínica das suplências procura respostas para duas perguntas: (1) Como um sujeito que apresenta uma estrutura psicótica evita o desencadeamento? (2) Uma vez desencadeada uma psicose, de que modo é possível algum tipo de estabilização?

As suplências operam por caminhos que passam pelos três registros: imaginário, simbólico e real.

Na falta de acesso verdadeiro ao simbólico, um dos recursos do psicótico é utilizar o imaginário para a mediação com o real. Em importância, a identificação está para o psicótico assim como a metáfora para o neurótico. As identificações funcionam como bengalas imaginárias, fazendo o sujeito equilibrar-se como um banquinho de três pés [11]

Lacan menciona o mecanismo como se, que Helen Deutsch destacou na sintomatologia de esquizofrênicos, e atribui-lhe valor de compensação imaginária do Édipo ausente; não da imagem paterna, mas do próprio significante do Nome-do-Pai [12].


9. A construção delirante

Quando se considera a suplência pela via do simbólico, é importante assinalar, de início, que na psicose a interpretação está do lado do psicótico, e não deve estar do lado do analista.

Na psicose não há recalque e, como diz Lacan, o inconsciente está a céu aberto. Razão pela qual a interpretação é desnecessária. E como o inconsciente é intérprete, a interpretação fica do lado do psicótico.

Mais do que desnecessária, a interpretação aqui é prejudicial: ao mobilizar aspectos pulsionais, pode desencadear uma psicose até então ordinária ou desestabilizar uma psicose desencadeada.

Em vez de interpretação, construção. 

Freud as diferencia de forma eloquente.  Faz comparação com o arqueólogo, que em suas escavações encontra objetos destruídos, dos quais partes importantes se perderam.  A interpretação se dirigiria ao que emerge do soterramento; a construção procuraria reconstituir o que foi perdido para sempre [13]. Em outras palavras, a interpretação seria uma decifração, visaria o simbólico subjacente à barra do recalque.  Já a construção teria diante de si o indecifrável. Um trecho de Freud torna-se oportuno nesse instante.    

            “Os delírios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso de um tratamento analítico —tentativas de explicação e de cura, embora seja verdade que estas, sob as condições de uma psicose, não podem mais do que substituir o fragmento de realidade que está sendo rejeitado no presente por outro fragmento que já foi rejeitado no passado... Tal como nossa construção só é eficaz porque recupera um fragmento de experiência perdida, assim também o delírio deve seu poder convincente ao elemento de verdade histórica que ele insere no lugar da realidade rejeitada” [14].  


            10. O tratamento do real pelo real

            Há algo comum em todos os casos paradigmáticos de psicose estudados pela psicanálise. Suas soluções são autoconstruidas.

          O primeiro paradigma é Schreber, cuja estabilização foi conseguida pela construção de uma metáfora delirante. 

Serão consideradas, a partir de agora, as suplências que se verificam por meio do tratamento do real pelo real. 

A primeira possibilidade a ser mencionada são casos de passagens ao ato. Para a psiquiatria, delírio, passagem ao ato e sintoma fazem parte da doença. Para a psicanálise, não é necessariamente assim. 

 No caso de Aimée, por exemplo, após uma passagem ao ato ocorreu sua estabilização, que prevaleceu até o fim de sua vida. Aimée foi governanta do pai de Lacan e mãe de Didieu Anzieu, psicanalista analisado por Lacan, que não o reconheceu como filho de sua ex-paciente [15]

Outra maneira de tratar o real pelo real é a obra: dar à luz, ex-nihilo, a partir do nada, a um objeto novo, sem precedentes, objeto que se impõe como real, como produto de uma operação sobre o real do gozo não aprisionado nas redes de linguagem [16]. Entre os numerosos exemplos estão obras pictóricas (Van Gogh), filosóficas (Rousseau), literárias (Hölderlin). No Brasil, o nome mais importante é Artur Bispo do Rosário.

Um caso excepcional é o de Joyce: embora a literatura esteja no registro do simbólico, ele assassina o sentido, passa ao real. Sua obra, quanto a isso, é única. 

Para Lacan, no caso de Joyce, o desencadeamento teria sido evitado pela construção de um sintoma, o que o elevou à dignidade de um paradigma. O sintoma joyceano, enquanto nome de gozo, é mais uma solução autoconstruida, mais uma forma de tratamento do real pelo real. 

Se no primeiro Lacan temos aplicação da psicanálise à psicose, o último Lacan aprendeu tanto com Joyce que se pode falar em aplicação da psicose à psicanálise. E enquanto o primeiro Lacan pergunta: como alguém se torna louco?, o último Lacan indaga: como alguém pode não se tornar louco?

            Para a psiquiatria, a solução está do lado do psiquiatra, do saber da ciência. Para a psicanálise, a solução está do lado do psicótico. Ela aposta no saber do psicótico. O que poderia ser formulado assim: o psicótico sabe o seu caminho.

          O tratamento psicanalítico da psicose inclui, assim, a construção de um sintoma a partir do trabalho com o que ele traz, sintoma capaz de organizar minimamente seu mundo e regular minimamente seu gozo.


Bibliografia sugerida

Leitura resumida:

Miller, J.A. (1996) Produzir o sujeito? In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Barreto, F. P. (1999) O tratamento psicanalítico do psicótico: aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 131-160. Belo Horizonte: Itatiaia.

Leitura avançada:

Laurent, E.(1989)  Estabilizaciones em las psicosis. Buenos Aires: Manantial.



NOTAS


[1] Freud, S. (1975) Esboço de Psicanálise (1938). ESB, Vol. XXIII, p 200.  Rio de Janeiro: Imago.

[2] Lacan, J.  Ouverture de la Section Clinique.  In:  Ornicar?  Paris:  9: 7-14, avril 1977, p. 12.

[3] Miller, J.-A. (1996) Produzir o sujeito? In: Matemas I, p.156-157. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[4] Miller, J.-A. (1996) Idem, p. 160.

[5] Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As psicoses (1955-1956), p. 235. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[6] Laurent, E. (1989) Entrevista sobre a apresentação de pacientes. In: Clínica Lacaniana nº 3. São Paulo: UNICOPI, p. 151.

[7] Lacan, J. (1998) De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1955-1956). In: Escritos, p. 555. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[8] Zenoni, A. (1995) Tratamento Del Outro. In: Lazos. Hacia uma clínica de las suplencias, p. 123. Córdoba: Editorial Fundacion Ross.

[9]Miller, J.-A. (2005) Introdução à leitura do Seminário da angústia de Jacques Lacan. In: Opção Lacaniana nº 43, p. 56-57.  São Paulo: Eólia, 7-91, maio de 2005.

[10] Miller, J.-A. (1998) Lições sobre apresentação de doentes (p. 202). In: Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica. A conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998.

[11] Barreto, F. P. (1999) O tratamento psicanalítico do psicótico: aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 149-150. Belo Horizonte: Itatiaia.

[12] Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As psicoses (1955-1956), p. 220. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[13] Freud, S. (1975) Construções em Análise (1937).  ESB, Vol. XXIII, p. 295.  Rio de Janeiro: Imago.

[14] Freud, S. (1975)  Idem, p. 303.

[15] Roudinesco, E. (1988) História da Psicanálise na França, Volume 2, p. 138-139.  Rio de Janeiro: Jorge ZaharEditor.

[16] Soler, C. (1992) El trabajo de la psicosis. In: Estudios sobre las psicosis, p. 18. Buenos Aires: Manantial.

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