(PSICANÁLISE E
PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
Freud:
“Descobrimos que temos de renunciar à ideia de experimentar nosso plano de cura
com os psicóticos ––renunciar a ele para sempre ou talvez apenas por enquanto,
até que tenhamos encontrado outro plano que se lhes adapte melhor” [1].
Lacan: “Um analista não deve recuar
diante da psicose” [2].
Entre a cautela de Freud e a ousadia
de Lacan, devemos ficar com as duas.
Freud fez da neurose a terra natal
da psicanálise. Na época contemporânea, porém, a incursão da psicanálise no
terreno da psicose já tem tradição e contribuições importantes, embora se trate
de campo mais movediço e de desafios mais complexos.
A psicanálise não tem regras, mas tem princípios. E
os princípios que regem o tratamento da psicose não são os mesmos que regem o
tratamento da neurose.
O breve levantamento que será feito
tomará como bússola a psicanálise de orientação lacaniana.
A experiência tem demonstrado que
existem casos que caminham bem com o tratamento psicanalítico, existem casos
que caminham melhor com outros tratamentos, existem casos que requerem
tratamentos combinados e existem aqueles que desafiam todos os tratamentos.
1. O matema do tratamento do psicótico
A linguagem é a matriz de todos os casos: quanto a
isso, não há diferença entre neurose, perversão e psicose. O lugar do Outro
está lá, antes mesmo do sujeito nascer. O sujeito, na definição lacaniana, é um
efeito do significante. Antes que ele fale, ele é falado por esse Outro
pré-histórico.
Dois aspectos são fundamentais: o sujeito como ser
falante é uma criação significante (1) que surge de seu estatuto primeiro de
objeto (2). Na psicose, por não se introduzir a função da castração, temos um
sujeito que resiste à falta-de-ser, que resiste à barra, um sujeito-objeto,
a-sujeitado ao Outro.
Pode-se dizer que o paranóico fica detido no estádio
do “isso fala dele”, e fala de modo desagradável, enquanto que para o
esquizofrênico prevalece o “isso não fala dele”, alusão ao filho no ventre da
mãe como um pedaço-de-real [3].
Miller discorre sobre o tratamento do psicótico a
partir do seguinte matema:
a
↓
$
O tratamento partiria da posição do
psicótico como objeto e conduziria aos confins da produção do sujeito [4].
2. A posição de escuta
Um primeiro aspecto a ser destacado
é a posição de escuta do analista em relação ao psicótico. Há em jogo vários
aspectos importantes a ser examinados.
Pelo simples fato de falar, o
psicótico se põe como sujeito; e o analista, polo de enderaçamento, se põe como
Outro. Enquadramento simbólico que reverte a tendência da psiquiatria a tratar
o psicótico como objeto.
A fala não só dá ao psicótico a
condição de sujeito como representa certo acesso ao simbólico, num duplo
trajeto: aquele que fala também se escuta. E aquele que fala, de algum modo
denota e metaforiza.
Não se trata de uma escuta qualquer:
os psiquiatras clássicos também escutavam seus loucos, mas como objetos de seu
esforço descritivo e classificatório.
Trata-se de uma escuta analítica,
que procura apreender a fala do psicótico não para atribuir-lhe sentido ou
compreensão, mas para “tomar ao pé da letra o que ele nos conta”, acolhendo-a
como algo específico e próprio daquele sujeito. Lacan propôs o analista em
posição de testemunho, como secretário do alienado [5].
3. A interpelação do sujeito
Há uma tendência do psicótico a se por ao lado do
objeto a e em posição de quem sabe,
de quem pode enunciar um saber desconhecido sobre o Outro. O analista, por sua
vez, como simulacro de objeto, sob suposição de saber, procura dividir o
sujeito. Ou seja, a posição do psicótico guarda certa correspondência com a
posição do analista. Como contornar o obstáculo?
Outra possibilidade a ser
considerada é a tendência do psicótico, freqüente nos relatos por ele trazidos,
a se colocar como objeto de gozo do Outro. O paradigma é Schreber.
Tanto num caso como no outro uma
intervenção pode ser a interpelação do psicótico como sujeito, que deve, no
entanto, obedecer ao cálculo da clínica.
Trata-se de algo que está próximo ao
que Laurent propôs com a fórmula “tocar o sujeito no doente” [6].
4. O tratamento (retificação) do Outro
Lacan diz que “o estado do sujeito S (neurose ou
psicose) depende do que se desenrola no Outro A” [7].
Na psicose, o que se tem? Um Outro sem lei, um Outro intrusivo, um Outro
gozador. Na paranóia, por exemplo, o Outro se apresenta subjetivado,
perseguidor ou erotomaníaco, e o psicótico como objeto desse gozo.
Uma solução adotada é o delírio, construção
simbólica e imaginária que reorganiza o mundo do psicótico. Na verdade, não só
do psicótico; existem inúmeras construções filosóficas, religiosas e políticas
que constituem delírios coletivos, com função organizadora dos grupos que as
comungam.
Na maioria das vezes, porém, os
delírios infligem pesado sofrimento ao psicótico, principalmente no caso de
delírios alucinatórios.
O tratamento do Outro visa
flexibilizar o poder absoluto, ou a omnisciência, ou a perfeição atribuída ao
Outro. O que se busca é “uma outra Alteridade que seja alternativa ao Outro
primordial do sujeito” [8].
Não se trata de refutar, mas de
afrouxar seu sistema de crenças.
5. O benefício
da dúvida
O neurótico acredita no Outro, mas
vacila, porque na neurose o Outro é barrado. Pode-se dizer que a neurose é da
ordem da dúvida.
A psicose, por seu turno, é da ordem
da certeza. O Outro não é barrado; o psicótico não acredita, ele tem certeza da
existência do Outro.
Na psicose, o vigor da certeza está
presente tanto em relação ao Outro do delírio como em relação ao real da
alucinação.
É claro que, quando se trata de
perseguição atroz, de erotomania mortífera ou de alucinações com vozes de
comando assassinas, isso traz sofrimento lancinante para o psicótico.
É nesse contexto que se torna
oportuno o ditame ético de Lacan: onde houver certeza, introduzir o benefício
da dúvida.
6.
A extração do objeto a
A angústia na neurose é angústia de castração,
angústia relacionada à falta.
Na psicose, por outro lado, a angústia
surge quando a falta
vem a faltar, ou seja, quando há objeto, quando há objeto demais [9].
Em outros termos, na psicose não há
extração do objeto a. O psicótico não
se separou de seu objeto a, guarda-o
no bolso, conforme diz Lacan.
A angústia na psicose, portanto, tem
a ver com a falta da falta, com o objeto demasiadamente presente.
Para sair dela, existem diferentes
caminhos, como a extração do objeto pela via do significante.
É possível, ainda, num
curto-circuito, realizar uma passagem ao ato, tal como uma agressão, uma
automutilação ou uma tentativa de suicídio.
Um exemplo paradigmático seria Van
Gogh cortando a sua orelha. Uma extração do objeto a pela via do real.
7.
O tratamento sob transferência
O tratamento psicanalítico do psicótico, assim como
o do neurótico, é feito sob transferência. Mas há diferenças cruciais.
Na neurose, o vetor da transferência
(amor, ódio) vai do sujeito ao Outro, ou do neurótico ao analista. E o saber
está do lado do analista (sujeito suposto saber). Ao emprestar semblante para a
suposição de saber o analista favorece a entrada em análise e o prosseguimento
da experiência analítica.
A diferença começa aí. E Miller, a
este respeito, é bem claro: “O paranoico só conhece o saber. Sua relação com o
saber constitui seu sintoma. O que o persegue a não ser um saber que passeia
pelo mundo, um saber que se faz mundo? [10]”
Com efeito, quando o Outro se apresenta para o psicótico como o Outro do saber,
ele é encontrado de forma persecutória ou erotomaníaca.
A
primeira conclusão propõe que, nesse tratamento, o saber não deve ficar do lado
do analista e sim do lado do psicótico.
Segunda
conclusão: quando o saber fica do lado do analista, a tendência é o surgimento
de transferência persecutória ou erotomaníaca. Na psicose, por conseguinte, o
vetor da transferência vai do analista ao psicótico.
Quando
o saber fica do lado do analista, portanto, podem manifestar-se modalidades de
transferência que inviabilizam o tratamento do psicótico. Existem estratégias
para evitá-lo, o que será visto da próxima vez.
Cabe
a pergunta: nesse caso, que transferência seria adequada nesse caso?
Uma
resposta sumária: a melhor possibilidade é quando o psicótico situa, do lado do
analista, o ideal ou o objeto. É o que foi nomeado neotransferência.
8. As bengalas imaginárias
Uma
clínica das suplências procura respostas para duas perguntas: (1) Como um
sujeito que apresenta uma estrutura psicótica evita o desencadeamento? (2) Uma
vez desencadeada uma psicose, de que modo é possível algum tipo de
estabilização?
As
suplências operam por caminhos que passam pelos três registros: imaginário,
simbólico e real.
Na
falta de acesso verdadeiro ao simbólico, um dos recursos do psicótico é utilizar
o imaginário para a mediação com o real. Em importância, a identificação está
para o psicótico assim como a metáfora para o neurótico. As identificações
funcionam como bengalas imaginárias,
fazendo o sujeito equilibrar-se como um banquinho de três pés [11].
Lacan menciona o mecanismo como
se, que Helen Deutsch destacou na sintomatologia de esquizofrênicos, e
atribui-lhe valor de compensação imaginária do Édipo ausente; não da imagem
paterna, mas do próprio significante do Nome-do-Pai [12].
9. A construção delirante
Quando
se considera a suplência pela via do simbólico, é importante assinalar, de
início, que na psicose a interpretação está do lado do psicótico, e não deve estar do lado do analista.
Na psicose não há recalque e,
como diz Lacan, o inconsciente está a céu aberto. Razão pela qual a
interpretação é desnecessária. E como o inconsciente é intérprete, a
interpretação fica do lado do psicótico.
Mais do que desnecessária, a
interpretação aqui é prejudicial: ao mobilizar aspectos pulsionais, pode
desencadear uma psicose até então ordinária ou desestabilizar uma psicose
desencadeada.
Em vez de interpretação,
construção.
Freud as diferencia de forma eloquente. Faz comparação com o arqueólogo, que em suas
escavações encontra objetos destruídos, dos quais partes importantes se
perderam. A interpretação se dirigiria ao
que emerge do soterramento; a construção procuraria reconstituir o que foi
perdido para sempre [13]. Em
outras palavras, a interpretação seria uma decifração, visaria o simbólico
subjacente à barra do recalque. Já a
construção teria diante de si o indecifrável. Um trecho de Freud torna-se
oportuno nesse instante.
“Os delírios dos pacientes
parecem-me ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso de um
tratamento analítico —tentativas de explicação e de cura, embora seja verdade
que estas, sob as condições de uma psicose, não podem mais do que substituir o
fragmento de realidade que está sendo rejeitado no presente por outro fragmento
que já foi rejeitado no passado... Tal como nossa construção só é eficaz porque
recupera um fragmento de experiência perdida, assim também o delírio deve seu
poder convincente ao elemento de verdade histórica que ele insere no lugar da
realidade rejeitada” [14].
10.
O tratamento do real pelo real
Há algo comum em todos os casos paradigmáticos de
psicose estudados pela psicanálise. Suas soluções são autoconstruidas.
O primeiro paradigma é Schreber,
cuja estabilização foi conseguida pela construção de uma metáfora delirante.
Serão consideradas, a partir de agora, as suplências
que se verificam por meio do tratamento do real pelo real.
A primeira possibilidade a ser mencionada são casos
de passagens ao ato. Para a psiquiatria, delírio,
passagem ao ato e sintoma fazem parte da doença. Para a psicanálise, não é
necessariamente assim.
No caso de
Aimée, por exemplo, após uma passagem ao ato ocorreu sua estabilização, que
prevaleceu até o fim de sua vida. Aimée foi governanta do pai de Lacan e mãe de
Didieu Anzieu, psicanalista analisado por Lacan, que não o reconheceu como
filho de sua ex-paciente [15].
Outra maneira de tratar o real pelo real é a obra: dar à luz, ex-nihilo, a partir do nada, a um objeto novo, sem precedentes,
objeto que se impõe como real, como produto de uma operação sobre o real do
gozo não aprisionado nas redes de linguagem [16].
Entre os numerosos exemplos estão obras pictóricas (Van Gogh), filosóficas
(Rousseau), literárias (Hölderlin). No Brasil, o nome mais importante é Artur
Bispo do Rosário.
Um caso excepcional é o de Joyce: embora a
literatura esteja no registro do simbólico, ele assassina o sentido, passa ao
real. Sua obra, quanto a isso, é única.
Para Lacan, no caso de Joyce, o desencadeamento
teria sido evitado pela construção de um sintoma, o que o elevou à dignidade de
um paradigma. O sintoma joyceano, enquanto nome de gozo, é mais uma solução
autoconstruida, mais uma forma de tratamento do real pelo real.
Se no primeiro Lacan temos aplicação da psicanálise
à psicose, o último Lacan aprendeu tanto com Joyce que se pode falar em
aplicação da psicose à psicanálise. E enquanto o primeiro Lacan pergunta: como
alguém se torna louco?, o último Lacan indaga: como alguém pode não se tornar
louco?
Para a psiquiatria, a solução está
do lado do psiquiatra, do saber da ciência. Para a psicanálise, a solução está
do lado do psicótico. Ela aposta no saber do psicótico. O que poderia ser
formulado assim: o psicótico sabe o seu caminho.
O tratamento psicanalítico da
psicose inclui, assim, a construção de um sintoma a partir do trabalho com o
que ele traz, sintoma capaz de organizar minimamente seu mundo e regular
minimamente seu gozo.
Bibliografia sugerida
Leitura resumida:
Miller,
J.A. (1996) Produzir o sujeito? In:
Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Barreto,
F. P. (1999) O tratamento psicanalítico
do psicótico: aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p.
131-160. Belo Horizonte: Itatiaia.
Leitura avançada:
Laurent,
E.(1989) Estabilizaciones em las psicosis. Buenos Aires: Manantial.
NOTAS
[1]
Freud, S. (1975) Esboço de Psicanálise
(1938). ESB, Vol. XXIII, p 200. Rio de Janeiro: Imago.
[3]
Miller, J.-A. (1996) Produzir o sujeito?
In: Matemas I, p.156-157. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[4] Miller, J.-A. (1996) Idem, p. 160.
[5]
Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As
psicoses (1955-1956), p. 235. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[6]
Laurent, E. (1989) Entrevista sobre a
apresentação de pacientes. In: Clínica Lacaniana nº 3. São Paulo: UNICOPI,
p. 151.
[7] Lacan, J. (1998) De uma questão preliminar a todo tratamento
possível da psicose (1955-1956). In: Escritos, p. 555. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor.
[8] Zenoni, A. (1995) Tratamento Del Outro. In: Lazos. Hacia uma
clínica de las suplencias, p. 123. Córdoba: Editorial Fundacion Ross.
[9]Miller, J.-A. (2005) Introdução à leitura do Seminário da
angústia de Jacques Lacan. In: Opção Lacaniana nº 43, p. 56-57. São Paulo: Eólia, 7-91, maio de
2005.
[10] Miller, J.-A. (1998) Lições sobre apresentação de doentes (p.
202). In: Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica. A
conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira,
1998.
[11] Barreto, F. P. (1999) O tratamento psicanalítico do psicótico:
aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 149-150. Belo
Horizonte: Itatiaia.
[12] Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As psicoses
(1955-1956), p. 220. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[13]
Freud, S. (1975) Construções em Análise
(1937). ESB, Vol. XXIII, p. 295. Rio
de Janeiro: Imago.
[14]
Freud, S. (1975) Idem, p. 303.
[15] Roudinesco, E. (1988) História da Psicanálise na França, Volume 2,
p. 138-139. Rio de Janeiro: Jorge
ZaharEditor.
[16] Soler, C. (1992) El trabajo de la psicosis. In: Estudios
sobre las psicosis, p. 18. Buenos Aires: Manantial.
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