(PSICANÁLISE
E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
Durante as exposições houve referências à noção de
discurso como algo que se opõe à perspectiva historicista. Há cortes maiores
que criam um novo discurso, há cortes menores que mudam um mesmo discurso. Os
novos discursos ou as novas modalidades, no entanto, coexistem com as
anteriores: pode haver vários discursos ou várias modalidades discursivas num
mesmo contexto ou numa mesma época.
O que é um discurso? No “Seminário 20” Lacan afirma que
“Não há nenhuma realidade pré-discursiva” e propõe discurso como o que funda e
define cada realidade [1].
Um exemplo: para Lacan, a natureza é produto da cultura[2]. O
que pode assim ser esclarecido: antes do advento da cultura, o natural equivale
ao real. É o surgimento da cultura que cria a natureza como realidade distinta.
Discurso
pode ainda ser definido como o que faz laço social. O discurso científico
enlaça os cientistas. O discurso religioso enlaça os fiéis. O discurso político
enlaça os militantes, e assim por diante.
Ou então, com forma de tratamento: discurso médico,
discurso analítico, discurso psiquiátrico, discurso universitário, etc.
É importante ressaltar que não há síntese discursiva. Não
há como, por exemplo, reunir discurso analítico e discurso psiquiátrico num só
discurso. Cada termo se define em relação a outros termos do mesmo discurso; se
um termo é retirado de seu discurso e inserido em outro, isso muda inteiramente
sua significação. Resumindo, não há como reunir dois discursos, só é possível
aproximá-los.
O discurso tem uma estrutura, que pode ser representada por
um esquema.
↑
agente →
outro ↓
verdade produção [3]
Uma enunciação do esquema poderia ser a seguinte: um agente se dirige a um outro impulsionado
por uma verdade para obter uma produção.
Os quatro discursos
Lacan concebe quatro discursos fundamentais a partir de
quatro termos elementares:
S1 : o significante-mestre.
S2: o saber.
$ : o sujeito.
a : o objeto mais-de-gozar.
Obtêm-se os quatro discursos mediante rotação dos quatro
termos nos quatro lugares da estrutura dos discursos, no sentido horário ou
anti-horário (Quadro I). Desse modo ficam configurados os matemas do Discurso
do Mestre, do Discurso da Universidade, do Discurso da Histérica e do Discurso
do Analista.
QUADRO
I
Os discursos e os
tratamentos dos doentes
Durante sete
aulas foram considerados os tratamentos de doentes por vários discursos. Um
exame mais acurado permite concluir que todas as formas de tratamentos de
pessoas enfermas podem ser aproximadas ao discurso universitário.
É possível abarcar todos os tratamentos com a seguinte
enunciação: um (suposto) saber em lugar de
agente se dirige a um outro (o doente tomado como objeto) impulsionado por um
poder em lugar de verdade para produzir uma cura – um sujeito (sadio).
Antes de prosseguir, uma advertência. Não se deve
associar certos termos ou certas expressões a um único discurso. Por exemplo:
religião. Ou então: psiquiatria clássica. Com efeito, vários discursos estão
aqui implicados. Pode-se dizer que a segregação dos alienados pela psiquiatria
clássica é herança do discurso do Mestre. O que não impede afirmar, também, que
ao tratar os enfermos ela se aproximou do discurso Universidade[4].
Com
base nessa proposta, serão formulados em termos de discurso todos os
tratamentos visitados ao longo do presente seminário. A abordagem utilizada, como
foi visto, não é histórica, a não ser que seja considerada como história do
nascimento de discursos ou de modalidades discursivas. Ou seja: todos os
tratamentos listados estão presentes, de alguma maneira, na época
contemporânea.
ANIMISMO: um
sacerdote (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por
um poder (dos deuses) para conseguir a sobrevivência do sujeito.
RELIGIÃO: um
sacerdote (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por
um poder (de Deus) para conseguir a cura (salvação) do sujeito.
MEDICINA
PRÉ-CIENTÍFICA: um médico (portador de um suposto saber) se dirige a um doente
impulsionado por um poder (de sua sabedoria) para produzir a cura do sujeito
(saúde como bem físico e moral).
MEDICINA
CIENTÍFICA: um médico (portador de um suposto saber) se dirige a um doente
impulsionado por um poder (da ciência) para produzir a cura do sujeito (saúde
como normalidade biológica).
PSIQUIATRIA
CLÁSSICA: um psiquiatra (portador de um suposto saber) se dirige a um
alienado impulsionado por um poder (de sua sabedoria) para produzir a cura do
sujeito (saúde mental como bem moral).
PSIQUIATRIA DAS
ESCOLAS: um psiquiatra (portador de um suposto saber) se dirige a um doente
impulsionado por um poder (de sua sabedoria) para produzir a cura do sujeito
(saúde mental como normalidade cultural).
PSIQUIATRIA DO
DSM: um psiquiatra (portador de um suposto saber) se dirige a um doente
impulsionado por um poder (de seu conhecimento científico) para produzir a cura
do sujeito (saúde mental como normalidade cultural).
SAÚDE MENTAL: uma
equipe (portadora de um suposto saber) se dirige a um portador de sofrimento
mental impulsionada por um poder (de uma política de saúde) para produzir a
cura do sujeito (saúde mental como ordem pública).
A exceção fica por conta da psicanálise: no seu
tratamento, o lugar do outro é ocupado por um sujeito, e não por um objeto; e o
lugar do agente é ocupado por um semblante de objeto. O que está em questão é o
discurso analítico, do qual se pode formular a enunciação que se segue.
PSICANÁLISE: um
analista (semblante de objeto) se dirige a um sujeito impulsionado por um (não)
saber em lugar de verdade para produzir um sintoma (identificado com o sujeito).
Bibliografia
sugerida
Leitura resumida:
Jorge Forbes (1993) Os eixos da subversão psicanalítica: os
quatro discursos. http://www.psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/Oseixosdasubversaoanalitica-osquatrodiscursos.pdf
Leitura avançada:
Lacan, J. (1992) O Seminário. Livro 17. O avesso da
psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
NOTAS
[1]
Lacan, J. (1982) O Seminário. Livro 20.
Mais, ainda (1972-1973), p. 45. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
[2]
Lacan, J. (2009). O Seminário. Livro 18.
De um discurso que não fosse semblante (1971), p. 54. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor.
[3]
Lacan, J. (2003) Radiofonia (1970). In:
Outros Escritos, p. 447. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[4]
Miller, J.-A.(1987). ?Producir el sujeto?
In: Matemas I, p. 175-176. Buenos Aires: Manantial.

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