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domingo, 17 de julho de 2016

VIII. Sobre os discursos



(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)



            Durante as exposições houve referências à noção de discurso como algo que se opõe à perspectiva historicista. Há cortes maiores que criam um novo discurso, há cortes menores que mudam um mesmo discurso. Os novos discursos ou as novas modalidades, no entanto, coexistem com as anteriores: pode haver vários discursos ou várias modalidades discursivas num mesmo contexto ou numa mesma época. 
            O que é um discurso? No “Seminário 20” Lacan afirma que “Não há nenhuma realidade pré-discursiva” e propõe discurso como o que funda e define cada realidade [1].
            Um exemplo: para Lacan, a natureza é produto da cultura[2]. O que pode assim ser esclarecido: antes do advento da cultura, o natural equivale ao real. É o surgimento da cultura que cria a natureza como realidade distinta.
Discurso pode ainda ser definido como o que faz laço social. O discurso científico enlaça os cientistas. O discurso religioso enlaça os fiéis. O discurso político enlaça os militantes, e assim por diante.
            Ou então, com forma de tratamento: discurso médico, discurso analítico, discurso psiquiátrico, discurso universitário, etc.
            É importante ressaltar que não há síntese discursiva. Não há como, por exemplo, reunir discurso analítico e discurso psiquiátrico num só discurso. Cada termo se define em relação a outros termos do mesmo discurso; se um termo é retirado de seu discurso e inserido em outro, isso muda inteiramente sua significação. Resumindo, não há como reunir dois discursos, só é possível aproximá-los.
            O discurso tem uma estrutura, que pode ser representada por um esquema.

                                                  agente              outro     
                                                   verdade               produção  [3]

            Uma enunciação do esquema poderia ser a seguinte: um agente se dirige a um outro impulsionado por uma verdade para obter uma produção.


            Os quatro discursos
            Lacan concebe quatro discursos fundamentais a partir de quatro termos elementares:
            ­S1 : o significante-mestre.
            S2: o saber.
            $ : o sujeito.
            a  :  o objeto mais-de-gozar.  
            Obtêm-se os quatro discursos mediante rotação dos quatro termos nos quatro lugares da estrutura dos discursos, no sentido horário ou anti-horário (Quadro I). Desse modo ficam configurados os matemas do Discurso do Mestre, do Discurso da Universidade, do Discurso da Histérica e do Discurso do Analista.


QUADRO I



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            Os discursos e os tratamentos dos doentes
            Durante sete aulas foram considerados os tratamentos de doentes por vários discursos. Um exame mais acurado permite concluir que todas as formas de tratamentos de pessoas enfermas podem ser aproximadas ao discurso universitário. 
            É possível abarcar todos os tratamentos com a seguinte enunciação: um (suposto) saber em lugar de agente se dirige a um outro (o doente tomado como objeto) impulsionado por um poder em lugar de verdade para produzir uma cura – um sujeito (sadio).
            Antes de prosseguir, uma advertência. Não se deve associar certos termos ou certas expressões a um único discurso. Por exemplo: religião. Ou então: psiquiatria clássica. Com efeito, vários discursos estão aqui implicados. Pode-se dizer que a segregação dos alienados pela psiquiatria clássica é herança do discurso do Mestre. O que não impede afirmar, também, que ao tratar os enfermos ela se aproximou do discurso Universidade[4].
Com base nessa proposta, serão formulados em termos de discurso todos os tratamentos visitados ao longo do presente seminário. A abordagem utilizada, como foi visto, não é histórica, a não ser que seja considerada como história do nascimento de discursos ou de modalidades discursivas. Ou seja: todos os tratamentos listados estão presentes, de alguma maneira, na época contemporânea.

            ANIMISMO: um sacerdote (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por um poder (dos deuses) para conseguir a sobrevivência do sujeito.
            RELIGIÃO: um sacerdote (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por um poder (de Deus) para conseguir a cura (salvação) do sujeito.
            MEDICINA PRÉ-CIENTÍFICA: um médico (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por um poder (de sua sabedoria) para produzir a cura do sujeito (saúde como bem físico e moral).
            MEDICINA CIENTÍFICA: um médico (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por um poder (da ciência) para produzir a cura do sujeito (saúde como normalidade biológica).
            PSIQUIATRIA CLÁSSICA: um psiquiatra (portador de um suposto saber) se dirige a um alienado impulsionado por um poder (de sua sabedoria) para produzir a cura do sujeito (saúde mental como bem moral).
            PSIQUIATRIA DAS ESCOLAS: um psiquiatra (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por um poder (de sua sabedoria) para produzir a cura do sujeito (saúde mental como normalidade cultural).
            PSIQUIATRIA DO DSM: um psiquiatra (portador de um suposto saber) se dirige a um doente impulsionado por um poder (de seu conhecimento científico) para produzir a cura do sujeito (saúde mental como normalidade cultural).
            SAÚDE MENTAL: uma equipe (portadora de um suposto saber) se dirige a um portador de sofrimento mental impulsionada por um poder (de uma política de saúde) para produzir a cura do sujeito (saúde mental como ordem pública).
            A exceção fica por conta da psicanálise: no seu tratamento, o lugar do outro é ocupado por um sujeito, e não por um objeto; e o lugar do agente é ocupado por um semblante de objeto. O que está em questão é o discurso analítico, do qual se pode formular a enunciação que se segue.
            PSICANÁLISE: um analista (semblante de objeto) se dirige a um sujeito impulsionado por um (não) saber em lugar de verdade para produzir um sintoma (identificado com o sujeito).



Bibliografia sugerida
Leitura resumida:
Jorge Forbes (1993) Os eixos da subversão psicanalítica: os quatro discursos. http://www.psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/Oseixosdasubversaoanalitica-osquatrodiscursos.pdf  
Leitura avançada:
Lacan, J. (1992) O Seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.


NOTAS


[1] Lacan, J. (1982) O Seminário. Livro 20. Mais, ainda (1972-1973), p. 45. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

[2] Lacan, J. (2009). O Seminário. Livro 18. De um discurso que não fosse semblante (1971), p. 54. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[3] Lacan, J. (2003) Radiofonia (1970). In: Outros Escritos, p. 447. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[4] Miller, J.-A.(1987). ?Producir el sujeto? In: Matemas I, p. 175-176. Buenos Aires: Manantial.

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