(PSICANÁLISE
E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
No final do século XIX, a psiquiatria clássica apresenta
firme posição anatomista, que postula sua inserção no método anatomoclínico,
próprio da medicina de bases científicas. Não obstante, em sua prática
prevalece o método clínico, que, com Kraepelin, chega ao apogeu e quase ao esgotamento
de suas possibilidades.
Por seu lado, a medicina está prestes a consolidar seu
ingresso no método científico, por meio do estabelecimento de bases biológicas
(clínicas, anatômicas e fisiológicas).
Se, até então, observa-se forte tendência de
identificação da psiquiatria com a medicina, o alvorecer do século XX marcará
acentuada tendência ao afastamento das duas disciplinas.
É
possível apontar com clareza a razão principal desse movimento.
Do
lado da medicina, a introdução no método científico exigiu a exclusão da
subjetividade, tanto do observador como do observado, o que, como já foi
assinalado, influenciou a própria prática médica.
Do
lado da psiquiatria, ocorreu exatamente o contrário: a busca de
instrumentalização epistemológica para o estudo e investigação da
subjetividade. Com esse intuito, três fontes principais foram utilizadas: a
psicanálise freudiana, a fenomenologia husserliana e o existencialismo
heideggeriano. Em linhas gerais, tal foi
o motivo que levou a psiquiatria a viver sua era das grandes escolas.
É possível dividi-las em dois grandes grupos: as dinâmicas e as fenomenológicas. A obra inaugural das escolas dinâmicas foi “O
grupo das esquizofrenias” (1911), de Bleuler (1857-1939), enquanto que a obra
fundamental das escolas fenomenológicas foi a “Psicopatologia Geral” (1913), de
Karl Jaspers (1883-1969).
Bleuler
O termo esquizofrenias foi empregado para
designar a demência precoce de Kraepelin, particularmente mal nomeada, na
opinião dele, já que não se tratava de demência e nem sempre era juvenil ou
precoce.
O
ponto de partida e a originalidade de suas concepções prendem-se a seu ponto de
vista psicanalítico sobre os sintomas esquizofrênicos. Assim, as perturbações
do fluxo do pensamento, as perturbações de seu conteúdo, as bizarrices afetivas
ou volitivas, os sintomas catatônicos, os delírios e as alucinações, etc.,
encontrariam sentido na psicologia
dos complexos e nos mecanismos (condensação, deslocamento, simbolização, etc.)
evidenciados por Freud no estudo dos sonhos e dos atos falhos. Tudo aquilo que,
para os autores precedentes, parecia decorrer do acaso ou da lesão, tornou-se
assim a expressão de um movimento patológico.
Os
mecanismos freudianos, entretanto, não eram suficientes para explicar porque
uma esquizofrenia e não uma histeria. O que conferia aos sintomas seu cunho
particular escapava a essa apreensão dos conteúdos, do sentido. Alguma coisa da
ordem da forma diferia radicalmente
do funcionamento normal ou neurótico. Um distúrbio primário cuja causa poderia
ser uma toxina específica liberada pela ação do complexo causal, ou, ao
contrário, agindo antes dele e lhe conferindo sua potência patogênica. A manifestação
desse distúrbio primário gerador seria visível em diversos níveis da
sintomatologia esquizofrênica, bem como no desaparecimento do poder regulador
da síntese consciente[1].
A
natureza exata desse distúrbio primário era concebida de acordo com a teoria
associacionista utilizada por Bleuler e que teve em Wundt seu expoente máximo. O
transtorno esquizofrênico fundamental seria o rebaixamento da tensão
associativa das idéias: dissociação, desagregação, interceptação do pensamento.
O termo alemão correlacionado com tais expressões é Spaltung (dissociação). Em outros sintomas fundamentais a Spaltung atingiria a vida afetiva,
produzindo a separação do amor e do ódio (ambivalência) ou seria expressão da
ruptura do contato vital com a realidade (autismo, derivado do auroerotismo
freudiano). O famoso tripé bleuleriano estava, assim, constituído: dissociação
do pensamento, ambivalência e autismo[2].
Os
outros sintomas, incluindo as alucinações e os delírios, eram considerados
acessórios, superestruturais. As principais formas clínicas foram assim
definidas. a) Forma paranóide: em que a sintomatologia predominantemente
delirante e alucinatória indicava um comprometimento exacerbado da esfera intelectual.
O delírio da esquizofrenia seria menos sistematizado do que o delírio da
paranóia. b) Forma catatônica: em que a
sintomatologia se mostrava mais exuberante na área motora. c) Forma
hebefrênica: em que os sintomas eram mais frequentemente expressões
instintivo-afetivas. d) Forma simples: muito pobre em sintomas acessórios, nela
predominavam os sintomas fundamentais.
Jaspers
No
início do século XX ganha força a divisão do campo epistêmico entre ciências da natureza e ciências da cultura. A esfera da
natureza seria susceptível dos métodos já comprovados na ciência clássica
(galileana), enquanto que a esfera da história e do homem precisaria dotar-se
de metodologia sui generis. Duas
palavras-chave se impõem para mostrar a diferença: o explicar (na linhagem das ciências da natureza) e o compreender (na linhagem de qualquer
ciência humana), introduzidas por
Droysen e adotadas por Dilthey[3].
QUADRO
I
|
CIÊNCIAS DA NATUREZA
|
CIÊNCIAS DA CULTURA
|
|
O que
o homem não
criou
|
O mundo
criado pelo homem
|
|
Explicar
|
Compreender
|
|
Observação
Experiência
|
Historicidade
Significação
Interpretação
|
|
Matematizada
|
Não
matematizável
|
|
Nomotética
|
Idiográfica
|
|
Monismo
epistemológico:
Fisicalismo
alemão
Positivismo de
Comte
Estruturalismo
|
Dualismo epistemológico:
Dilthey
Jaspers
|
Dilthey
foi o grande teórico das ciências do espírito, sistematicamente opostas por ele
às ciências da natureza. Outro protagonista da clivagem foi Windelband, que
diferencia o procedimento nomotético, que
procura produzir conceitos empíricos universais (ciências naturais), do procedimento idiográfico, que se refere,
de modo amplo, ao conceito de acontecer singular e peculiar (coincidente com o
método histórico).
Jaspers
foi aluno de Kraepelin. Sua Psicopatologia
Geral (1913) é um marco insuperável. Seu rigor crítico e metodológico
redefiniu o campo de trabalho da psiquiatria, estabelecendo que, por mais que a
ciência avance, ela nunca se reduzirá à medicina, dada a natureza de seu
objeto. Posição que, no seu desdobramento, conduziu a uma psiquiatria
constituída por duas vertentes: a científico-natural e a histórico-cultural.
A
causalidade orgânica na psiquiatria, mesmo quando comprovada, não apresenta a
linearidade da causalidade orgânica na medicina. Isso é muito bem conhecido há
mais de um século. Não há correspondência biunívoca entre o quadro clínico e o
achado cerebral. Jaspers comenta o célebre exemplo da paralisia cerebral: com
base no diagnóstico clínico, Kraepelin descobriu 30% de paralíticos em seu
estabelecimento; com a punção lombar e o serodiagnóstico de Wassermann,
introduzido nesse período, não encontrou mais do que 8 a 9%.[4]
A
sua “Psicopatologia Geral”, publicada em 1913, foi um divisor de águas. Além de
aplicar o método fenomenológico de Husserl à clínica, o autor introduziu na
psiquiatria a diferença entre o explicar e o compreender, considerando-a na sua
dupla face de ciência da natureza e ciência do espírito.
O normal e o patológico na
psiquiatria
Eis um tema
raramente abordado: como se estabelece a questão do normal e do patológico na
psiquiatria? Quase que invariavelmente se apela para as bases neurobiológicas,
que, entretanto, não passam de postulados, de petições de princípio, incapazes
de sustentar as classificações apresentadas pela psiquiatra nos seus mais de
dois séculos de sua existência.
Existe um compêndio de psiquiatria da escola
fenomenologicoclínica que expõe o problema com clareza invulgar e revela as
verdadeiras bases que definem o normal e o patológico nesse campo. O que será
apresentado é um resumo do que ali consta.[5]
“No
conceito de norma devemos distinguir um conteúdo e uma forma-função. O conteúdo
da norma, equiparável ao termo médio, tem uma base estatística e, como assinala
a doutrina do relativismo cultural, não constitui um estado absoluto, nem tem
um fundamento ontológico, mas está subordinado ao tempo histórico, ao lugar e
às peculiaridades de uma cultura. Uma norma estável de validade geral não
existe. Mas o conteúdo da norma está condicionado fenomenologicamente pela
existência da norma como função. A função da norma existe em todo tempo e
lugar. Transcende, pois, ao relativismo”.
Mais adiante, o autor estabelece a
correlação: “Em virtude do exercício da faculdade de tipificação, todos nós
co-participamos do mesmo mundo. O mundo normal é um mundo tipificado. O mundo
do doente psíquico se distingue fundamentalmente do normal não por seu
conteúdo, mas por sua forma. Podemos descrever a patologia da tipificação como
o mórbido”.
Para,
pouco depois, concluir: “Eis aqui minha definição predileta de psiquiatria:
‘A psiquiatria é o ramo humanista por excelência da medicina que trata do
estudo, da prevenção e do tratamento dos modos psíquicos de adoecer’. A idéia
do modo psíquico de adoecer, segundo acabo de expor, se funda na perda
involuntária da faculdade normativa.”[6]
A diversificação
das escolas
A
primeira metade do século XX, por conseguinte, foi marcada pela diversificação
das escolas psiquiátricas. As principais serão apenas citadas.
Entre
as dinâmicas pode-se incluir: a psicodinâmica alemã (Moebius, Bleuler,
Kretschmer), a psicodinâmica francesa (Claude, Baruk), a organodinâmica (Ey), a
psiquiatria dinâmica inglesa (Maxwell Jones), a psiquiatria dinâmica americana
(Alexander). No Brasil, Iracy Doyle foi uma representante da escola
psicodinâmica.
Entre
as fenomenológicas é possível citar: a
fenomenologicoclínica alemã (Jaspers, Grühle, Mayer Gross, Karl
Schneider, Kurt Schneider), a
fenomenologicoclínica francesa (Blondel, Dide, Guiraud, Minkowski), a
antropologicofenomenológica (Gebsatel), a fenomenológico-existencialista, que
associa a fenomenologia husserliana ao existencialismo heideggeriano
(Binswanger, Kuhn, Strauss)[7]. No
Brasil, Leme Lopes destacou-se pela escola fenomenologicoclínica e Nobre de
Melo pela fenomenológico-existencial.
De
imperfeita — como toda classificação — ela tem, contudo, o mérito de mostrar a
pluralização epistemológica — considerada um pecado pelo discurso
universalizante da ciência galileana.
Bibliografia
sugerida:
Leitura
resumida:
Barreto, F.P. (2010) Como vejo a psiquiatria hoje (Entre as aves
e as feras). In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 143 a 159. Belo
Horizonte: Scriptum.
Leitura
avançada:
Alonso Fernandez, F.
(1968) Fundamentos de la Psiquiatria Actual. Capítulo 1º — La
psiquiatria y sus fronteras e Capítulo
2º — Epistemologia y metodologia psiquiátricas. Madrid: Paz Montalvo.
NOTAS
[1]
Bercherie, P. (1989) Os Fundamentos da
Clínica. História e estrutura do saber psiquiátrico, p. 226-227. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[2] Alonso-Fernandez,
F. (1968) Fundamentos de la Psiquiatria Actual. TomoII (p. 328). Madrid: Editorial Paz
Montalvo.
[3]
Assoun, P.-L. (1983) Introdução à
Epistemologia Freudiana, p. 45-46. Rio de Janeiro: Imago.
[4]
Jaspers K. (1987) Psicopatologia geral (pp. 689-690). Rio de Janeiro: Atheneu.
[5]
Barreto, F. P. (2010) A psicanálise
aplicada à saúde mental (Uma contribuição ao tema da prática lacaniana nas
instituições). In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 100-101. Belo
Horizonte: Scriptum.
[6]
Alonso-Fernandez, F. (1968) Fundamentos
de la Psiquiatria Actual. Tomo I (pp. 26-27). Madrid: Editorial Paz
Montalvo.
[7]
Barreto, F. P. (2010) Como vejo a
psiquiatria hoje (Entre as aves e as feras). In: Ensaios de Psicanálise e Saúde
Mental, p.146-147. Berlo Horizonte: Scriptum.
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