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segunda-feira, 6 de junho de 2016

V. No tempo das grandes escolas





(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)




            No final do século XIX, a psiquiatria clássica apresenta firme posição anatomista, que postula sua inserção no método anatomoclínico, próprio da medicina de bases científicas. Não obstante, em sua prática prevalece o método clínico, que, com Kraepelin, chega ao apogeu e quase ao esgotamento de suas possibilidades.

            Por seu lado, a medicina está prestes a consolidar seu ingresso no método científico, por meio do estabelecimento de bases biológicas (clínicas, anatômicas e fisiológicas).

            Se, até então, observa-se forte tendência de identificação da psiquiatria com a medicina, o alvorecer do século XX marcará acentuada tendência ao afastamento das duas disciplinas. 

É possível apontar com clareza a razão principal desse movimento. 

Do lado da medicina, a introdução no método científico exigiu a exclusão da subjetividade, tanto do observador como do observado, o que, como já foi assinalado, influenciou a própria prática médica.

Do lado da psiquiatria, ocorreu exatamente o contrário: a busca de instrumentalização epistemológica para o estudo e investigação da subjetividade. Com esse intuito, três fontes principais foram utilizadas: a psicanálise freudiana, a fenomenologia husserliana e o existencialismo heideggeriano.  Em linhas gerais, tal foi o motivo que levou a psiquiatria a viver sua era das grandes escolas.

            É possível dividi-las em dois grandes grupos: as dinâmicas e as fenomenológicas. A obra inaugural das escolas dinâmicas foi “O grupo das esquizofrenias” (1911), de Bleuler (1857-1939), enquanto que a obra fundamental das escolas fenomenológicas foi a “Psicopatologia Geral” (1913), de Karl Jaspers (1883-1969).


            Bleuler

       O termo esquizofrenias foi empregado para designar a demência precoce de Kraepelin, particularmente mal nomeada, na opinião dele, já que não se tratava de demência e nem sempre era juvenil ou precoce. 

O ponto de partida e a originalidade de suas concepções prendem-se a seu ponto de vista psicanalítico sobre os sintomas esquizofrênicos. Assim, as perturbações do fluxo do pensamento, as perturbações de seu conteúdo, as bizarrices afetivas ou volitivas, os sintomas catatônicos, os delírios e as alucinações, etc., encontrariam sentido na psicologia dos complexos e nos mecanismos (condensação, deslocamento, simbolização, etc.) evidenciados por Freud no estudo dos sonhos e dos atos falhos. Tudo aquilo que, para os autores precedentes, parecia decorrer do acaso ou da lesão, tornou-se assim a expressão de um movimento patológico. 

Os mecanismos freudianos, entretanto, não eram suficientes para explicar porque uma esquizofrenia e não uma histeria. O que conferia aos sintomas seu cunho particular escapava a essa apreensão dos conteúdos, do sentido. Alguma coisa da ordem da forma diferia radicalmente do funcionamento normal ou neurótico. Um distúrbio primário cuja causa poderia ser uma toxina específica liberada pela ação do complexo causal, ou, ao contrário, agindo antes dele e lhe conferindo sua potência patogênica. A manifestação desse distúrbio primário gerador seria visível em diversos níveis da sintomatologia esquizofrênica, bem como no desaparecimento do poder regulador da síntese consciente[1]

A natureza exata desse distúrbio primário era concebida de acordo com a teoria associacionista utilizada por Bleuler e que teve em Wundt seu expoente máximo. O transtorno esquizofrênico fundamental seria o rebaixamento da tensão associativa das idéias: dissociação, desagregação, interceptação do pensamento. O termo alemão correlacionado com tais expressões é Spaltung (dissociação). Em outros sintomas fundamentais a Spaltung atingiria a vida afetiva, produzindo a separação do amor e do ódio (ambivalência) ou seria expressão da ruptura do contato vital com a realidade (autismo, derivado do auroerotismo freudiano). O famoso tripé bleuleriano estava, assim, constituído: dissociação do pensamento, ambivalência e autismo[2]

Os outros sintomas, incluindo as alucinações e os delírios, eram considerados acessórios, superestruturais. As principais formas clínicas foram assim definidas. a) Forma paranóide: em que a sintomatologia predominantemente delirante e alucinatória indicava um comprometimento exacerbado da esfera intelectual. O delírio da esquizofrenia seria menos sistematizado do que o delírio da paranóia.  b) Forma catatônica: em que a sintomatologia se mostrava mais exuberante na área motora. c) Forma hebefrênica: em que os sintomas eram mais frequentemente expressões instintivo-afetivas. d) Forma simples: muito pobre em sintomas acessórios, nela predominavam os sintomas fundamentais.


            Jaspers

No início do século XX ganha força a divisão do campo epistêmico entre ciências da natureza e ciências da cultura. A esfera da natureza seria susceptível dos métodos já comprovados na ciência clássica (galileana), enquanto que a esfera da história e do homem precisaria dotar-se de metodologia sui generis. Duas palavras-chave se impõem para mostrar a diferença: o explicar (na linhagem das ciências da natureza) e o compreender (na linhagem de qualquer ciência humana), introduzidas por Droysen e adotadas por Dilthey[3].


QUADRO I


CIÊNCIAS  DA  NATUREZA


CIÊNCIAS  DA  CULTURA

O  que  o  homem  não  criou


O  mundo  criado  pelo  homem

Explicar


Compreender

Observação
Experiência


Historicidade
Significação
Interpretação


Matematizada

Não matematizável


Nomotética

Idiográfica


Monismo epistemológico:

Fisicalismo alemão
Positivismo de Comte
Estruturalismo


Dualismo epistemológico:

Dilthey
Jaspers


Dilthey foi o grande teórico das ciências do espírito, sistematicamente opostas por ele às ciências da natureza. Outro protagonista da clivagem foi Windelband, que diferencia o procedimento nomotético, que procura produzir conceitos empíricos universais (ciências naturais), do procedimento idiográfico, que se refere, de modo amplo, ao conceito de acontecer singular e peculiar (coincidente com o método histórico).

Jaspers foi aluno de Kraepelin. Sua Psicopatologia Geral (1913) é um marco insuperável. Seu rigor crítico e metodológico redefiniu o campo de trabalho da psiquiatria, estabelecendo que, por mais que a ciência avance, ela nunca se reduzirá à medicina, dada a natureza de seu objeto. Posição que, no seu desdobramento, conduziu a uma psiquiatria constituída por duas vertentes: a científico-natural e a histórico-cultural.

A causalidade orgânica na psiquiatria, mesmo quando comprovada, não apresenta a linearidade da causalidade orgânica na medicina. Isso é muito bem conhecido há mais de um século. Não há correspondência biunívoca entre o quadro clínico e o achado cerebral. Jaspers comenta o célebre exemplo da paralisia cerebral: com base no diagnóstico clínico, Kraepelin descobriu 30% de paralíticos em seu estabelecimento; com a punção lombar e o serodiagnóstico de Wassermann, introduzido nesse período, não encontrou mais do que 8 a 9%.[4]

A sua “Psicopatologia Geral”, publicada em 1913, foi um divisor de águas. Além de aplicar o método fenomenológico de Husserl à clínica, o autor introduziu na psiquiatria a diferença entre o explicar e o compreender, considerando-a na sua dupla face de ciência da natureza e ciência do espírito. 


O normal e o patológico na psiquiatria

            Eis um tema raramente abordado: como se estabelece a questão do normal e do patológico na psiquiatria? Quase que invariavelmente se apela para as bases neurobiológicas, que, entretanto, não passam de postulados, de petições de princípio, incapazes de sustentar as classificações apresentadas pela psiquiatra nos seus mais de dois séculos de sua existência.

            Existe um compêndio de psiquiatria da escola fenomenologicoclínica que expõe o problema com clareza invulgar e revela as verdadeiras bases que definem o normal e o patológico nesse campo. O que será apresentado é um resumo do que ali consta.[5]

“No conceito de norma devemos distinguir um conteúdo e uma forma-função. O conteúdo da norma, equiparável ao termo médio, tem uma base estatística e, como assinala a doutrina do relativismo cultural, não constitui um estado absoluto, nem tem um fundamento ontológico, mas está subordinado ao tempo histórico, ao lugar e às peculiaridades de uma cultura. Uma norma estável de validade geral não existe. Mas o conteúdo da norma está condicionado fenomenologicamente pela existência da norma como função. A função da norma existe em todo tempo e lugar. Transcende, pois, ao relativismo”.

            Mais adiante, o autor estabelece a correlação: “Em virtude do exercício da faculdade de tipificação, todos nós co-participamos do mesmo mundo. O mundo normal é um mundo tipificado. O mundo do doente psíquico se distingue fundamentalmente do normal não por seu conteúdo, mas por sua forma. Podemos descrever a patologia da tipificação como o mórbido”.

Para, pouco depois, concluir: “Eis aqui minha definição predileta de psiquiatria: ‘A psiquiatria é o ramo humanista por excelência da medicina que trata do estudo, da prevenção e do tratamento dos modos psíquicos de adoecer’. A idéia do modo psíquico de adoecer, segundo acabo de expor, se funda na perda involuntária da faculdade normativa.”[6]


            A diversificação das escolas

A primeira metade do século XX, por conseguinte, foi marcada pela diversificação das escolas psiquiátricas. As principais serão apenas citadas. 

Entre as dinâmicas pode-se incluir: a psicodinâmica alemã (Moebius, Bleuler, Kretschmer), a psicodinâmica francesa (Claude, Baruk), a organodinâmica (Ey), a psiquiatria dinâmica inglesa (Maxwell Jones), a psiquiatria dinâmica americana (Alexander). No Brasil, Iracy Doyle foi uma representante da escola psicodinâmica.

Entre as fenomenológicas é possível citar: a  fenomenologicoclínica alemã (Jaspers, Grühle, Mayer Gross, Karl Schneider, Kurt Schneider), a  fenomenologicoclínica francesa (Blondel, Dide, Guiraud, Minkowski), a antropologicofenomenológica (Gebsatel), a fenomenológico-existencialista, que associa a fenomenologia husserliana ao existencialismo heideggeriano (Binswanger, Kuhn, Strauss)[7]. No Brasil, Leme Lopes destacou-se pela escola fenomenologicoclínica e Nobre de Melo pela fenomenológico-existencial.

De imperfeita — como toda classificação — ela tem, contudo, o mérito de mostrar a pluralização epistemológica — considerada um pecado pelo discurso universalizante da ciência galileana.



Bibliografia sugerida:

Leitura resumida:
Barreto, F.P. (2010) Como vejo a psiquiatria hoje (Entre as aves e as feras). In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 143 a 159. Belo Horizonte: Scriptum.

Leitura avançada:
Alonso Fernandez, F. (1968) Fundamentos de la Psiquiatria Actual. Capítulo 1º — La psiquiatria y sus fronteras e Capítulo 2º — Epistemologia y metodologia psiquiátricas. Madrid: Paz Montalvo.



NOTAS


[1] Bercherie, P. (1989) Os Fundamentos da Clínica. História e estrutura do saber psiquiátrico, p. 226-227. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[2] Alonso-Fernandez, F. (1968) Fundamentos de la Psiquiatria Actual. TomoII (p. 328). Madrid: Editorial Paz Montalvo.

[3] Assoun, P.-L. (1983) Introdução à Epistemologia Freudiana, p. 45-46. Rio de Janeiro: Imago.

[4] Jaspers K. (1987) Psicopatologia geral (pp. 689-690). Rio de Janeiro: Atheneu.

[5] Barreto, F. P. (2010) A psicanálise aplicada à saúde mental (Uma contribuição ao tema da prática lacaniana nas instituições). In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 100-101. Belo Horizonte: Scriptum.

[6] Alonso-Fernandez, F. (1968) Fundamentos de la Psiquiatria Actual. Tomo I (pp. 26-27). Madrid: Editorial Paz Montalvo.

[7] Barreto, F. P. (2010) Como vejo a psiquiatria hoje (Entre as aves e as feras). In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p.146-147. Berlo Horizonte: Scriptum.

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