(PSICANÁLISE
E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
Embora
constituida como prática social há mais de dois milênios, a introdução da
medicina no método científico foi relativamente tardia: teve início na segunda
metade do século XVIII e foi concluida na primeira metade do século XX. Entre
os fatores que contribuiram para a demora está a maior complexidade da biologia
e a proibição para dissecar cadáveres humanos.
Cabe a pergunta: qual o fundamento da medicina em seu
período pré-científico?
Longo tempo no qual se destacaram poucos nomes. Dentre
eles: Hipócrates (460 a 370 a.C.), Asclepíades (124 a 40 a.C.), Celso (25 a.C.
a 50 d.C.), Galeno (129 a 217), Avicena (980 a 1037), Averróis (1126 a 1198),
Maimônides (1138 a 1204), Paracelso (1493 a 1541), Vesalius (1514 a 1564),
Harvey (1578-1657). Hipócrates, Galeno e Avicena constituiram corpo de saber melhor
sistematizado.
A principal fonte de inspiração da medicina foi a
filosofia. Todo grande médico era, também, filósofo.
E enquanto prática social, como avaliar a medicina desse
período?
A questão tem dois lados. Primeiro: o corpo de saber
constituido era extremamente precário. Com o advento da era científica, pouca
coisa foi mantida. Base teórica tão inconsistente deu lugar a procedimentos
inócuos ou mais comumente desastrosos. Os médicos e seus serviços chegaram a
tornar-se perigos sociais. A história da medicina está repleta de exemplos. Seus
procedimentos, em vez de terapêuticos, eram iatrogênicos.
A questão tem outro lado: é difícil admitir que prática
social tão longeva e importante tenha sido apenas danosa. Com efeito, muitos
médicos foram figuras sociais de grande prestígio e carismáticas. Lacan lembra
o aforisma de Balint ––o médico, ao receitar, receita a si próprio. Assim, por
exemplo, o imperador Marco Aurélio convocava Galeno para que esse lhe vertesse
com suas próprias mãos a teriaga (xarope que se presumia eficaz contra picadas
de animais peçonhentos).[1] Ou
seja, a ação terapêutica da medicina dessa época pode ser atribuída ao que a
psicanálise isolou com o nome de transferência.
Com efeito, a
transferência é fator das relações pessoais que não deve ser subestimado. Pode criar
ou fazer desaparecer sintomas, como ficou demonstrado nas célebres experiências
de Charcot com as histéricas. Além disso, um paciente pode imputar ao médico
uma cura ou um agravamento que se processou por causas naturais. Finalmente, a
transferência pode alterar o curso de doenças orgânicas —fenômeno que constitui
observação corriqueira na clínica médica.
Pelos mesmos motivos, a função da transferência pode
elucidar o que ocorre nas curas milagrosas. Com frequência pacientes agradecem
a Deus (pai onipotente) por curas naturais ou devidas ao médico. Ou então, a
melhora é efeito de poderosa influência sugestionadora: não é à toa que nas
salas dos ex-votos predominam agradecimentos de paralíticos e cegos —sintomas
conversivos comuns.
A sinopse será finalizada. Quando a medicina ensaiava seu
ingresso no método científico, Hahnemann (1755-1843) fundou a homeopatia,
baseada no método segundo o qual o semelhante cura o semelhante e inspirada na
eficácia da diluição das doses. O sucesso da homeopatia foi devido à redução da
iatrogenia e a um manejo peculiar dos poderes da transferência.
A introdução da medicina no método científico foi gradual
e teve início com o nascimento da clínica.
O método clínico
Meados do século XVIII. Pródromos da Revolução Francesa.
Questionamento da religião e de suas proibições, época das luzes.
Pinel
(1745-1826) foi o principal artífice dos fundamentos da clínica. Suas obras
principais a esse respeito foram “Nosografia Filosófica ou o Método da Análise
Aplicado à Medicina” (1798) e “Medicina Clínica ou a Medicina Tornada mais Precisa
e mais Exata pela Aplicação da Análise” (1802).
Pinel foi buscar
no enciclopedista Condillac (1715-1780) o método da análise, que procura
relacionar o ato perceptivo com o elemento da linguagem. A descrição do filósofo (ou a do clínico)
visa reproduzir, na sintaxe da linguagem, a ordem dos encadeamentos
naturais. “Analisar nada mais é do que
observar em uma ordem sucessiva as qualidades de um objeto, a fim de lhes dar
no espírito a ordem simultânea em que elas existem... Ora, qual é esta ordem? A
natureza a indica por si mesma; é aquela na qual ela apresenta os objetos”[2].
Juntamente com o método da análise, Pinel herdou de
Condillac uma concepção nominalista,
que critica a realidade substancial dos seres abstratos e gerais: tudo o que se
pode construir acima dos seres singulares não é nada mais do que nomes. Tal concepção pressupõe, ainda,
que a armadura do real é delineada segundo o modelo da linguagem, que um e
outro possuem estatuto análogo, isto é, discursivo.
Por esse motivo, para Condillac “A ciência não é mais do que uma língua bem
feita”.[3]
Pinel
compartilhava com os empiristas uma profunda desconfiança em relação aos sistemas
explicativos, por sinal, abundantes na medicina de então. Em contrapartida, propugnava frequentação tão
extensa quanto possível do real ––no caso, da clínica. Cabia ao estudioso agrupar os fenômenos
percebidos e classificá-los em função de suas analogias e diferenças. Assim teríamos as classes, os gêneros e as
espécies. Enfim, as categorias extraídas
da experiência recebiam o nome que lhes dava vida na ciência, escapando da
polissemia da linguagem comum.[4]
Pinel
manteve-se ligado às concepções nominalistas e até o fim da vida, permaneceu
surdo às lições essenciais da anatomia patológica[5]. Para
ele, a clínica se bastava.
O método anatomoclínico
Bichat
(1771-1802) é um dos fundadores da anatomia patológica. Embora tenha uma dívida
grande para com Pinel[6], distanciou-se
dele e avançou em outra direção, enraizando a epistemologia da clínica na
anatomia patológica e constituindo o método
anatomoclínico. A orientação de
Bichat, que será amplamente hegemônica na medicina científica, é fiel ao método
da análise, subsidiando-se na experiência e conferindo prestígio ao olhar. Ao fundar a clínica na anatomia patológica,
estabeleceu enfim um fundamento objetivo, real e indubitável de uma descrição
das doenças. Distanciou-se, porém, do
nominalismo então vigente no método clínico, segundo o qual a análise se
apoiava somente em palavras ou em percepções susceptíveis de serem transcritas
numa linguagem. Com Bichat passa-se de
uma percepção analítica a uma percepção das análises reais. A análise, sim, mas separada de seu suporte
linguístico; análise que diz respeito a fenômenos reais não mais concebidos com
um estatuto de discurso[7].
“Abram
alguns cadáveres”: eis a exortação de Bichat aos médicos de sua época. Ele soube reconhecer o cadáver no estatuto de
fenômeno real e de texto; objeto de análise e livro aberto à leitura dos
processos da vida, da doença e da morte.
Somente então nossa cultura enunciou o primeiro discurso científico
sobre o indivíduo.[8]
Pinel
foi rebelde à inclusão da medicina no método anatomoclínico. Continuou
afirmando, por exemplo, que as febres e as neuroses (entre as quais incluía as
loucuras) estavam isentas de lesões orgânicas.
No que tange às febres, recebeu ataques violentos de Broussais, e sua
posição custou-lhe uma derrota completa.[9]
A
construção do método anátomoclínico, todavia, foi lenta e gradual. Nesse
percurso pelo menos três grandes nomes merecem destaque. Pode-se dizer que as
bases anatomopatológicas foram erguidas no nível dos órgãos por Morgagni
(1682-1771), no nível dos tecidos por Bichat e no nível das células por Virchow
(1821-1902)[10].
As bases fisiológicas
Além
das bases clínicas a anatômicas, o ingresso da medicina no método científico contará
com um terceiro e mais importante enfoque: o estabelecimento das bases
fisiológicas. Trata-se, novamente, de longo caminho, e aqui serão lembrados,
apenas dois nomes e suas contribuições: Claude Bernard (1813-1878), com as
constantes do meio interno e Cannon (1871-1945), com o conceito de homeostasia.
Embora
os conceitos de normal e de patológico sejam bastante complexos e
multifacetados, pode-se afirmar com
segurança que a introdução da medicina no método científico se realizou a
partir da consideração do normal e do patológico em sólidas bases biológicas,
ou seja, clínicas, anatômicas e fisiológicas.
É
preciso considerar, porém, que a medicina não é uma ciência e, sim, uma prática
social. É importante que esta prática seja construída com fundamentos
científicos, desde que não se limite a isto. Outros fatores em jogo devem ser
considerados.
Lacan observa que nem sempre o que o paciente
demanda do médico é a cura. Às vezes,
ele desafia o médico a retirá-lo de sua condição de enfermo ––o que implica
estar ligado à ideia de conservá-la.
Outras vezes, demanda do médico que o autentique como enfermo. Ou ainda, demanda que lhe preserve em sua
enfermidade. Além do mais, não é
necessário ser psicanalista, sequer médico, para saber que, quando alguém
demanda algo, isso não é idêntico, e às vezes é inclusive diametralmente oposto,
àquilo que se deseja. Introduz-se,
assim, a estrutura da falha que existe entre a demanda e o desejo.[11]
O corpo-máquina
A
introdução da medicina no método científico trouxe grandes mudanças, tanto no
que se refere ao papel do médico como no que se refere à concepção de doente.
Uma
das características do método científico é a exclusão da subjetividade —do observador
e do observado. A lenta construção de seus fundamentos científicos fez com que
a medicina enquanto prática social caminhasse para esse mesmo objetivo, ou
seja, um apagamento da subjetividade do médico e do paciente.
É
nítida a mudança no papel social do médico. Outrora, figura dotada de prestígio
e autoridade, tanto mais respeitada quanto mais carismática. Hoje, um técnico reconhecido
por qualificações estritamente definidas.
Mudanças
mais impressionantes ocorreram do lado do paciente. Criou-se nova concepção de
corpo, numa evolução que caminha para situá-lo na expectativa de ser
inteiramente fotografado, radiografado, calibrado, diagramado e condicionado. O
corpo passou a ser considerado como sistema homeostático, em sua pura presença
animal, o que já foi chamado com justeza de corpo-máquina.
A medicina sabe cada vez mais sobre partes cada vez menores desse
corpo-máquina, cujas leis e funcionamento vêm sendo desvendados de forma
minuciosa e precisa. No final do século XX, o progresso exponencial dos recursos
tecnológicos permitiu uma dissecção virtual in vivo, que, além do mais,
mudou o recorte do corpo. Houve uma fragmentação, um estilhaçamento produzido
pelo discurso científico. O avanço do conhecimento foi tamanho que só cabe a
cada um o estudo e o domínio de um pequeno fragmento desse corpo.[12]
O
médico concebido como técnico; o paciente como corpo-máquina; subtração da subjetividade
de ambos os lados; acesso direto às condições anatômicas e fisiológicas: eis as
condições nas quais foi assinalado um possível fim da clínica.
Não
se trata de evolução desejável, fruto de avanço duramente conquistado e enfim
alcançado. A exclusão da subjetividade, antes de ser
solução, é pedra no caminho da prática médica. Um simples dado permite adiantar
a magnitude do problema: o principal sintoma médico, a dor, é algo inteiramente
subjetivo.
Alie-se
a isso a complexidade do normal e do patológico e a defasagem entre a demanda e
o desejo do paciente: a redução ao estritamente biológico é fábrica de pontos
cegos.
Quase
toda definição de medicina começa assim: “É a ciência e a arte...” Na prática
médica atual, a ciência mortificou a arte.
Bibiografia
sugerida:
Barreto, F. P. (1999) Sobre o nascimento e os
fundamentos da clínica. In: Reforma psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 99 a
110. Belo Horizonte: Itatiaia.
Barreto, F. P. (2010) Notas sobre a história
da medicina. In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 37 a 44. Belo
Horizonte: Scriptum.
Leitura avançada:
Foucault, M. (1987) O Nascimento
da Clínica. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.
Canguilhem, C. (1990) O Normal e o
Patológico, 3ª edição. Rio de Janeiro: Forense-Universitária
NOTAS
[1]
Lacan, J. (1985) Psicoanálisis y medicina (1966).
In: Intervenciones y Textos (p. 87). Buenos
Aires: Manantial.
[2] Foucault,
M. (1987) O Nascimento da Clínica, p. 108. Rio de Janeiro: Forense-Universitária,
1987.
[3]
Foucault, M. (1987) Idem, p. 107.
[4]
Barreto, F. P. (1999) Sobre o Nascimento
e os Fundamentos da Clínica. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p.
102. Belo Horizonte: Itatiaia.
[5] Foucault, M. (1987) Op. cit., p. 150.
[6] Foucault, M. (1987) Idem., p. 149-150.
[7] Foucault, M. (1987) Idem, p. 149-150.
[8] Foucault, M. Op. cit., p. 227.
[9]
Barreto, F. P. (1999) Op. cit., p.104.
[10]
Canguilhem, C. (1990) O Normal e o
Patológico, 3ª edição. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, p. 183.
[11]
Barreto, F. P. (2010) Notas sobre a
história da medicina. In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 41. Belo
Horizonte: Scriptum.
[12]
Barreto, F. P. (2010) Idem, p. 40.
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