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quinta-feira, 7 de abril de 2016

II. Medicina e método científico



(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)



             O pai da medicina é Hipócrates, segundo versão europeia. Há quem considere várias versões pré-hipocráticas da medicina: egípcia, persa, indiana, chinesa. Acontece que, nesses casos, não se verifica o corte entre medicina e concepções mitológicas ou religiosas, conforme foi argumentado no capítulo anterior. Daí a preferência adotada pela versão europeia.

Embora constituida como prática social há mais de dois milênios, a introdução da medicina no método científico foi relativamente tardia: teve início na segunda metade do século XVIII e foi concluida na primeira metade do século XX. Entre os fatores que contribuiram para a demora está a maior complexidade da biologia e a proibição para dissecar cadáveres humanos.

            Cabe a pergunta: qual o fundamento da medicina em seu período pré-científico? 

          Longo tempo no qual se destacaram poucos nomes. Dentre eles: Hipócrates (460 a 370 a.C.), Asclepíades (124 a 40 a.C.), Celso (25 a.C. a 50 d.C.), Galeno (129 a 217), Avicena (980 a 1037), Averróis (1126 a 1198), Maimônides (1138 a 1204), Paracelso (1493 a 1541), Vesalius (1514 a 1564), Harvey (1578-1657). Hipócrates, Galeno e Avicena constituiram corpo de saber melhor sistematizado.

           A principal fonte de inspiração da medicina foi a filosofia. Todo grande médico era, também, filósofo. 

            E enquanto prática social, como avaliar a medicina desse período?

            A questão tem dois lados. Primeiro: o corpo de saber constituido era extremamente precário. Com o advento da era científica, pouca coisa foi mantida. Base teórica tão inconsistente deu lugar a procedimentos inócuos ou mais comumente desastrosos. Os médicos e seus serviços chegaram a tornar-se perigos sociais. A história da medicina está repleta de exemplos. Seus procedimentos, em vez de terapêuticos, eram iatrogênicos.

          A questão tem outro lado: é difícil admitir que prática social tão longeva e importante tenha sido apenas danosa. Com efeito, muitos médicos foram figuras sociais de grande prestígio e carismáticas. Lacan lembra o aforisma de Balint ––o médico, ao receitar, receita a si próprio. Assim, por exemplo, o imperador Marco Aurélio convocava Galeno para que esse lhe vertesse com suas próprias mãos a teriaga (xarope que se presumia eficaz contra picadas de animais peçonhentos).[1] Ou seja, a ação terapêutica da medicina dessa época pode ser atribuída ao que a psicanálise isolou com o nome de transferência.

            Com efeito, a transferência é fator das relações pessoais que não deve ser subestimado. Pode criar ou fazer desaparecer sintomas, como ficou demonstrado nas célebres experiências de Charcot com as histéricas. Além disso, um paciente pode imputar ao médico uma cura ou um agravamento que se processou por causas naturais. Finalmente, a transferência pode alterar o curso de doenças orgânicas —fenômeno que constitui observação corriqueira na clínica médica.

           Pelos mesmos motivos, a função da transferência pode elucidar o que ocorre nas curas milagrosas. Com frequência pacientes agradecem a Deus (pai onipotente) por curas naturais ou devidas ao médico. Ou então, a melhora é efeito de poderosa influência sugestionadora: não é à toa que nas salas dos ex-votos predominam agradecimentos de paralíticos e cegos —sintomas conversivos comuns.

          A sinopse será finalizada. Quando a medicina ensaiava seu ingresso no método científico, Hahnemann (1755-1843) fundou a homeopatia, baseada no método segundo o qual o semelhante cura o semelhante e inspirada na eficácia da diluição das doses. O sucesso da homeopatia foi devido à redução da iatrogenia e a um manejo peculiar dos poderes da transferência.

            A introdução da medicina no método científico foi gradual e teve início com o nascimento da clínica.


          O método clínico

         Meados do século XVIII. Pródromos da Revolução Francesa. Questionamento da religião e de suas proibições, época das luzes.

Pinel (1745-1826) foi o principal artífice dos fundamentos da clínica. Suas obras principais a esse respeito foram “Nosografia Filosófica ou o Método da Análise Aplicado à Medicina” (1798) e “Medicina Clínica ou a Medicina Tornada mais Precisa e mais Exata pela Aplicação da Análise” (1802).

         Pinel foi buscar no enciclopedista Condillac (1715-1780) o método da análise, que procura relacionar o ato perceptivo com o elemento da linguagem.  A descrição do filósofo (ou a do clínico) visa reproduzir, na sintaxe da linguagem, a ordem dos encadeamentos naturais.  “Analisar nada mais é do que observar em uma ordem sucessiva as qualidades de um objeto, a fim de lhes dar no espírito a ordem simultânea em que elas existem... Ora, qual é esta ordem? A natureza a indica por si mesma; é aquela na qual ela apresenta os objetos”[2].

            Juntamente com o método da análise, Pinel herdou de Condillac uma concepção nominalista, que critica a realidade substancial dos seres abstratos e gerais: tudo o que se pode construir acima dos seres singulares não é nada mais do que nomes. Tal concepção pressupõe, ainda, que a armadura do real é delineada segundo o modelo da linguagem, que um e outro possuem estatuto análogo, isto é, discursivo. Por esse motivo, para Condillac “A ciência não é mais do que uma língua bem feita”.[3]

Pinel compartilhava com os empiristas uma profunda desconfiança em relação aos sistemas explicativos, por sinal, abundantes na medicina de então.  Em contrapartida, propugnava frequentação tão extensa quanto possível do real ––no caso, da clínica.  Cabia ao estudioso agrupar os fenômenos percebidos e classificá-los em função de suas analogias e diferenças.  Assim teríamos as classes, os gêneros e as espécies.  Enfim, as categorias extraídas da experiência recebiam o nome que lhes dava vida na ciência, escapando da polissemia da linguagem comum.[4]  

Pinel manteve-se ligado às concepções nominalistas e até o fim da vida, permaneceu surdo às lições essenciais da anatomia patológica[5]. Para ele, a clínica se bastava. 


O método anatomoclínico

Bichat (1771-1802) é um dos fundadores da anatomia patológica. Embora tenha uma dívida grande para com Pinel[6], distanciou-se dele e avançou em outra direção, enraizando a epistemologia da clínica na anatomia patológica e constituindo o método anatomoclínico.  A orientação de Bichat, que será amplamente hegemônica na medicina científica, é fiel ao método da análise, subsidiando-se na experiência e conferindo prestígio ao olhar.  Ao fundar a clínica na anatomia patológica, estabeleceu enfim um fundamento objetivo, real e indubitável de uma descrição das doenças.  Distanciou-se, porém, do nominalismo então vigente no método clínico, segundo o qual a análise se apoiava somente em palavras ou em percepções susceptíveis de serem transcritas numa linguagem.  Com Bichat passa-se de uma percepção analítica a uma percepção das análises reais.  A análise, sim, mas separada de seu suporte linguístico; análise que diz respeito a fenômenos reais não mais concebidos com um estatuto de discurso[7].

“Abram alguns cadáveres”: eis a exortação de Bichat aos médicos de sua época.  Ele soube reconhecer o cadáver no estatuto de fenômeno real e de texto; objeto de análise e livro aberto à leitura dos processos da vida, da doença e da morte.  Somente então nossa cultura enunciou o primeiro discurso científico sobre o indivíduo.[8]  

Pinel foi rebelde à inclusão da medicina no método anatomoclínico. Continuou afirmando, por exemplo, que as febres e as neuroses (entre as quais incluía as loucuras) estavam isentas de lesões orgânicas.  No que tange às febres, recebeu ataques violentos de Broussais, e sua posição custou-lhe uma derrota completa.[9]

A construção do método anátomoclínico, todavia, foi lenta e gradual. Nesse percurso pelo menos três grandes nomes merecem destaque. Pode-se dizer que as bases anatomopatológicas foram erguidas no nível dos órgãos por Morgagni (1682-1771), no nível dos tecidos por Bichat e no nível das células por Virchow (1821-1902)[10].


As bases fisiológicas

Além das bases clínicas a anatômicas, o ingresso da medicina no método científico contará com um terceiro e mais importante enfoque: o estabelecimento das bases fisiológicas. Trata-se, novamente, de longo caminho, e aqui serão lembrados, apenas dois nomes e suas contribuições: Claude Bernard (1813-1878), com as constantes do meio interno e Cannon (1871-1945), com o conceito de homeostasia.

Embora os conceitos de normal e de patológico sejam bastante complexos e multifacetados, pode-se afirmar com segurança que a introdução da medicina no método científico se realizou a partir da consideração do normal e do patológico em sólidas bases biológicas, ou seja, clínicas, anatômicas e fisiológicas.

É preciso considerar, porém, que a medicina não é uma ciência e, sim, uma prática social. É importante que esta prática seja construída com fundamentos científicos, desde que não se limite a isto. Outros fatores em jogo devem ser considerados.

Lacan observa que nem sempre o que o paciente demanda do médico é a cura.  Às vezes, ele desafia o médico a retirá-lo de sua condição de enfermo ––o que implica estar ligado à ideia de conservá-la.  Outras vezes, demanda do médico que o autentique como enfermo.  Ou ainda, demanda que lhe preserve em sua enfermidade.  Além do mais, não é necessário ser psicanalista, sequer médico, para saber que, quando alguém demanda algo, isso não é idêntico, e às vezes é inclusive diametralmente oposto, àquilo que se deseja.  Introduz-se, assim, a estrutura da falha que existe entre a demanda e o desejo.[11]


O corpo-máquina

A introdução da medicina no método científico trouxe grandes mudanças, tanto no que se refere ao papel do médico como no que se refere à concepção de doente.

Uma das características do método científico é a exclusão da subjetividade —do observador e do observado. A lenta construção de seus fundamentos científicos fez com que a medicina enquanto prática social caminhasse para esse mesmo objetivo, ou seja, um apagamento da subjetividade do médico e do paciente.

É nítida a mudança no papel social do médico. Outrora, figura dotada de prestígio e autoridade, tanto mais respeitada quanto mais carismática. Hoje, um técnico reconhecido por qualificações estritamente definidas.

Mudanças mais impressionantes ocorreram do lado do paciente. Criou-se nova concepção de corpo, numa evolução que caminha para situá-lo na expectativa de ser inteiramente fotografado, radiografado, calibrado, diagramado e condicionado. O corpo passou a ser considerado como sistema homeostático, em sua pura presença animal, o que já foi chamado com justeza de corpo-máquina. A medicina sabe cada vez mais sobre partes cada vez menores desse corpo-máquina, cujas leis e funcionamento vêm sendo desvendados de forma minuciosa e precisa. No final do século XX, o progresso exponencial dos recursos tecnológicos permitiu uma dissecção virtual in vivo, que, além do mais, mudou o recorte do corpo. Houve uma fragmentação, um estilhaçamento produzido pelo discurso científico. O avanço do conhecimento foi tamanho que só cabe a cada um o estudo e o domínio de um pequeno fragmento desse corpo.[12]     

O médico concebido como técnico; o paciente como corpo-máquina; subtração da subjetividade de ambos os lados; acesso direto às condições anatômicas e fisiológicas: eis as condições nas quais foi assinalado um possível  fim da clínica

Não se trata de evolução desejável, fruto de avanço duramente conquistado e enfim alcançado. A exclusão da subjetividade, antes de ser solução, é pedra no caminho da prática médica. Um simples dado permite adiantar a magnitude do problema: o principal sintoma médico, a dor, é algo inteiramente subjetivo. 

Alie-se a isso a complexidade do normal e do patológico e a defasagem entre a demanda e o desejo do paciente: a redução ao estritamente biológico é fábrica de pontos cegos.

Quase toda definição de medicina começa assim: “É a ciência e a arte...” Na prática médica atual, a ciência mortificou a arte.


Bibiografia sugerida:

Leitura resumida:

Barreto, F. P. (1999) Sobre o nascimento e os fundamentos da clínica. In: Reforma psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 99 a 110. Belo Horizonte: Itatiaia.

Barreto, F. P. (2010) Notas sobre a história da medicina. In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 37 a 44. Belo Horizonte: Scriptum.

Leitura avançada:

Foucault, M. (1987) O Nascimento da Clínica. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

Canguilhem, C. (1990) O Normal e o Patológico, 3ª edição. Rio de Janeiro: Forense-Universitária



NOTAS


[1] Lacan, J. (1985)  Psicoanálisis y medicina (1966).  In:  Intervenciones y Textos (p. 87).  Buenos Aires: Manantial.

[2] Foucault, M. (1987) O Nascimento da Clínica, p. 108. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

[3] Foucault, M. (1987) Idem, p. 107.

[4] Barreto, F. P. (1999) Sobre o Nascimento e os Fundamentos da Clínica. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 102. Belo Horizonte: Itatiaia.

[5] Foucault, M. (1987) Op. cit., p. 150.

[6] Foucault, M. (1987) Idem., p. 149-150.

[7] Foucault, M. (1987) Idem, p. 149-150.

[8] Foucault, M. Op. cit., p. 227.

[9] Barreto, F. P. (1999) Op. cit., p.104.

[10] Canguilhem, C. (1990) O Normal e o Patológico, 3ª edição. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, p. 183.

[11] Barreto, F. P. (2010) Notas sobre a história da medicina. In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 41. Belo Horizonte: Scriptum.

[12] Barreto, F. P. (2010) Idem, p. 40.

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