(PSICANÁLISE
E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
Pinel
é personagem fascinante, tanto por seus acertos como por seus erros.
Geralmente lembrado como fundador da psiquiatria, seu
papel como principal artífice do método clínico é esquecido pelos médicos,
talvez por sua posição equivocada de recusar o método anatomoclínico.
Além de médico eminente, Pinel foi discípulo de um
enciclopedista (Condillac) e teve participação ativa na Revolução Francesa. Os
ideais libertários do movimento vitorioso, que abriu as portas da Bastilha, não
combinavam com o que acontecia nas masmorras da Bicêtre e da Salpêtrière, onde
se amontoava e se enjaulava toda sorte de escória social. Nosso personagem para
lá então se dirigiu, tornando-se protagonista de duplo advento: do humanismo e
da gestão médica no tratamento dos alienados mentais.
A questão pode ser vista por outros ângulos. Para
Foucault, em vez de libertar os loucos, Pinel teria fechado o cerco em torno
deles com um rígido discurso médico e moralista, ao definir o estatuto da
loucura simultaneamente como doença e erro (no sentido moral).[1]
Prova disso são as suas hipóteses célebres: a loucura como distúrbio funcional
do SNC, as causas morais e o tratamento moral.
Apresento
outro ponto de vista. Na sua perspectiva nominalista, Pinel concebia a armação
do real forjada segundo o modelo da linguagem.
Haveria entre eles uma simetria.
Sendo assim, uma linguagem que reproduzisse aproximadamente a realidade,
alcançaria um conhecimento pragmaticamente eficaz. A ciência, nesta ótica, é a “língua bem
formada” de Condillac. Havia nessa
abordagem algo que hoje podemos chamar de ingênuo: atribuir ao real organização
discursiva. É possível que Pinel tenha
tido algum vislumbre da fragilidade de seu modelo epistemológico. É possível também
que por esse motivo tenha escolhido a psiquiatria, pois seu objeto está
constituído na linguagem do paciente.
Essa é a “coisa” da psiquiatria.
Desse modo, o método de Pinel deixava de mancar: o preconceito
nominalista de uma ordem discursiva do real ficava mascarado quando se tratava
de descrever os processos discursivos das alienações mentais.[2]
Os questionamentos são vários e os temas são polêmicos.
Talvez seja preferível, então, começar pelo inquestionável: Pinel é o fundador
da psiquiatria.
O método clínico
aplicado à alienação mental
Seu “Tratado Médico-Filosófico da Alienação
Mental” (1801), publicado depois que se dirigiu à Bicêtre (1793) e à
Salpêtrière (1795), tornou-se a obra inaugural da psiquiatria.
O ponto de partida foi a aplicação do método clínico ao
estudo das alienações mentais. A partir daí, Pinel desenvolveu uma hipótese
sobre sua natureza, uma classificação (nosologia), teorizou sobre as causas e
propôs um tratamento.
É importante assinalar que Pinel realizou autópsias de
alienados mentais, sem achados importantes. Sua desconfiança em relação à
anatomia patológica foi reforçada. Formulou, em seguida, uma hipótese a
respeito da natureza da alienação mental: seria um distúrbio funcional do SNC.
Os danos cerebrais não seriam necessários, seriam contingentes. É a posição funcionalista mais radical da
história da psiquiatria.
Pinel deu o nome de vesânias
às perturbações funcionais do SNC. Entre elas, classificou as loucuras e outras afecções menores, que
não faziam do sujeito um alienado. E as loucuras poderiam ser de três tipos: manias (quadros com exaltação do
conjunto das faculdades mentais, com delírios e redução da atenção voluntária),
monomanias (afecções que só afetavam
o espírito parcialmente) e demências (enfraquecimento
geral das faculdades cerebrais, com perda da função de síntese). A nosologia de
Pinel, enriquecida pela contribuição de seu discípulo Esquirol (nosologia
pinel-esquiroliana), era basicamente sindrômica.[3]
Foram identificadas várias causas para as alienações
mentais, com destaque para as famosas causas
morais, que, numa postulação não cartesiana, seriam grandes responsáveis
pelos distúrbios funcionais do SNC.
Coerente com a hipótese etiológica, a ênfase foi dada ao tratamento moral dos alienados. A
proposta prevê a retirada de seu ambiente habitual, onde tiveram origem os
problemas, e o isolamento numa instituição especial, com disciplina severa e
paternal, regulada pela lei médica. Ameaças, recompensas e consolos teriam seu
papel, com a implantação do “trabalho mecânico” e o estabelecimento de “policiamento
interior”. Isso aconteceria sob estrita dependência de um homem que, por suas
qualidades físicas e morais, conquistasse a confiança e o respeito do alienado.
Para alcançar essa “transferência paterna” o recurso não seria a violência, mas
a firmeza e a doçura.[4] A
ideia de tratamento moral é saga aberta por Pinel e que sobrevive, sob
diferentes modalidades, até os dias de hoje.
O método
anatomoclínico aplicado à psiquiatria?
Pinel teve um único grande discípulo, Esquirol, que, por
sua vez, teve vários discípulos importantes (Baillarger, Georget, Guislain,
Falret, entre outros) e dominou a psiquiatria francesa até metade do século
XIX. Esquirol enriqueceu consideravelmente a clínica psiquiátrica recém-criada
e foi fiel seguidor de seu mestre em todos os aspectos: manteve a posição
funcionalista, a nosologia, a ênfase nas causas morais e no tratamento moral.
Em 1822 Bayle apresentou uma tese em que descreveu uma
forma de alienação mental acompanhada de perturbações motoras e que evoluía em
três fases: 1. Delírio monomaníaco com exaltação; 2. Delírio maníaco geral; 3.
Demência com amnésia.
Bayle utilizou, portanto, uma sucessão de categorias da
nosologia pinel-esquiroliana. E, no campo anátomo-patológico, trouxe uma
novidade: correlacionou a referida alienação mental com uma lesão determinada,
uma meningite crônica. E deu nome à enfermidade descoberta: paralisia geral.
Esquirol e seus discípulos criticaram duramente e
rejeitaram as ideias de Bayle, que, decepcionado, abandonou a psiquiatria. Por
que motivo essa tese incomodou tanto? Em primeiro lugar, porque o critério era
clínico-evolutivo, ou seja, concebia a nova doença num processo diacrônico,
onde as categorias pinel-esquirolianas não passavam de sub-elementos, ou de
síndromes que se sucediam. E, em segundo
lugar, porque o critério era também anatomoclínico, quer dizer, relacionava o
quadro clínico com substrato anatômico[5].
Exatamente por significar um corte, ou o princípio do fim
da nosologia pinel-esquiroliana, a contribuição de Bayle demorou cerca de vinte
anos para ser aceita. Depois que foi amplamente reconhecida, tornou-se o
protótipo de uma nova nosologia. A transição da nosologia pinel-esquiroliana
para a nosologia clássica foi lenta e difícil. Nessa mudança, desempenhou papel
fundamental aquele que foi o mais brilhante dos discípulos de Esquirol: Falret.
Crítico insistente da nosologia de seus mestres, procurou, desde o início,
completa reestruturação do campo da psiquiatria. Deve-se a ele um aprimoramento
do método clínico e a ênfase no critério clínico-evolutivo, que apontaria as
entidades mórbidas ou as “espécies verdadeiramente naturais”. Empresa que, para
ele, não seria de um só homem, nem de uma só geração.[6]
A questão apresentou outro desdobramento. Por meio de
Guislain, discípulo de Esquirol, aplicação do método clínico à alienação mental
chegou a Griesinger, que se tornou o pai da psiquiatria alemã. No seu célebre
“Tratado das Doenças Mentais” (1843) afirma logo na primeira página, inspirado
na descoberta de Bayle, que “devemos sempre ver antes de tudo nas doenças
mentais uma afecção do cérebro”[7]. Posição anatomista radical, que assinala
reviravolta iminente: depois da morte de Esquirol toda a psiquiatria clássica
se torna anatomista.
Para ser mais preciso: toda a psiquiatria clássica, tendo
como paradigma a paralisia geral, passa a sonhar com a inserção da psiquiatria
no método anatomoclínico próprio da medicina.
Viagem ao reino da
linguagem
Afinal, o que é
a paralisia geral de Bayle, paradigma da nosologia psiquiátrica clássica? Uma
projeção rumo ao futuro fornece
os achados que se sucederam a este importante
descobrimento. Baillarger enriqueceu a descrição clínica da nova entidade
nosológica e suspeitou tratar-se de forma de sífilis nervosa. Com
a sistematização do quadro clínico passou a chamar-se paralisia geral progressiva (PGP). Calmeil completou a descrição anátomo-patológica, incluindo as
lesões primitivas do córtex cerebral
(tratava-se de meningo-encefalite crônica difusa). Em 1905, Schaudinn descobriu
o agente infeccioso da sífilis (uma bactéria — o Treponema
pallidum) em lesões genitais primárias. Em 1906, Wassermann desenvolveu um
tipo de exame de sangue (reação de fixação do complemento) no qual se mostravam
positivamente os pacientes que tinham sífilis. Em 1913, Noguchi identificou o Treponema pallidum
no cérebro de pacientes que sofriam de
paralisisa cerebral. Em 1910, Ehrlich desenvolveu um medicamento à base de
arsênico para o tratamento da sífilis. Pouco mais tarde, Wagner-Jauregg
observou que a febre da malária produzia temperaturas que destruíam o Treponema no organismo humano, e propôs a
malarioterapia, inovação pela qual recebeu o prêmio Nobel (1927). Finalmente,
em 1945, Fleming isolou a penicilina, antibiótico que elimina radicalmente o
agente causador da sífilis humana[8].
Eis aí o ideal da psiquiatria organicista: uma
doença mental com quadro clínico bem definido, ao qual correspondem estruturas
anátomo-patológicas bem determinadas, causadas por agente etiológico bem
conhecido e que tem tratamento específico, eficaz e inócuo![9]
A inscrição da psiquiatria no método
anatomoclínico, todavia, foi só um sonho. Depois da paralisia geral, poucas
foram as entidades clínicas que tiveram seu substrato anatomopatológico
estabelecido. A anatomia patológica nunca exerceu, para a psiquiatria, o papel
fundamental que desempenhou para a medicina. A categórica afirmação de
Griesinger não passou de postulação, sem nenhuma possibilidade de demonstração.
Mais
tarde, em 1863, outro grande nome da escola alemã ––Kahlbaum–– reconhecia,
modestamente, que os achados da clínica psiquiátrica poderiam, talvez, orientar
e dirigir a pesquisa anatomopatológica na descoberta dos resultados esperados[10].
A psiquiatria clássica, porém, nunca pôde se fundar na anatomia patológica,
embora sempre tivesse situado no seu horizonte essa possibilidade. Ironicamente, a psiquiatria sobreviveu à
medida que esse sonho não se realizou: uma identificação plena com a clínica
médica representaria sua absorção pela neurologia[11].
A
psiquiatria clássica não se estabeleceu em bases anatômicas e sempre se valeu
de bases psicológicas. Inicialmente, fornecidas pelos filósofos: a psicologia
de Pinel foi inspirada em Locke e Condillac; a de Esquirol e seus discípulos,
nos filósofos da Escola Espiritualista Eclética; a de Griesinger, em Herbart.
Kraepelin, por sua vez, baseou-se em Wundt, expressão máxima do
associacionismo, doutrina psicológica que dominou o panorama do período áureo
da psiquiatria clássica. Wundt era empirista (recebeu grande influência de Helmholtz);
sua psicologia era inspirada na fisiologia, a partir do arco reflexo e adotava
um método introspeccionista experimentalmente controlado. O primeiro
laboratório de psicologia experimental foi fundado ppor Wundt em 1879, na
universidade de Leipzig. Sua análise buscava os componentes sensoriais elementares
dos estados mentais e os princípios pelos quais eles se sucediam nos processos
psíquicos (associacionismo). Wundt é considerado o fundador da psicologia
enquanto disciplina independente da filosofia. Kraepelin foi seu aluno e
recebeu dele a sugestão de dedicar-se à clínica.
A
psiquiatria clássica constitui longo período de mais de um século que começa
com Pinel e termina com Clérambault (1872-1934), na escola francesa, e que vai
de Griesinger (1817-1868) a Kraepelin (1856-1925), na escola alemã. Funda-se no
método clínico, criado por Pinel e aprimorado por outros psiquiatras clássicos
(Falret, Kahlbaum) e representa, no caso das alienações mentais, uma viagem sem
volta ao reino da linguagem.
As
psicoses e os clássicos da psiquiatria
Não
tendo sido definidas anatomopatologicamente, sobre que sustentação foram constituidas as doenças
mentais? A psiquiatria clássica não
respondeu assim, mas hoje, revisitando esses velhos
temas, pode-se afirmar:
as doenças mentais constituiram-se
na linguagem. Ora, o método clínico realizou abordagem fenomenológica, cujo
objetivo era a descrição e sistematização das manifestações dos pacientes. Um
trabalho com essa finalidade acabou reunindo gama diversificada de dados, tais
como sintomas medicamente definidos, alterações da conduta e distúrbios de linguagem. Mesmo
levando em conta tal diversidade, é possível destacar a linguagem como o carro
chefe dessa composição.
A clínica
psiquiátrica fundamentou-se, por conseguinte, em primeiro lugar, na consideração da experiência
de linguagem dos pacientes. Com efeito, são constituídos na linguagem, e
abordáveis somente por meio dela, fenômenos como os delírios, as alucinações, a
fuga de idéias, a melancolia, as fobias, as obsessões, as amnésias, a
obnubilação, e assim por diante. Às vezes, o próprio ato é uma palavra e, mesmo
quando um ato se realiza ultrapassando o aparelho da linguagem, ele é
importante exatamente por essa referência.[12]
A obra dos psiquiatras clássicos é vastíssima. Enquanto
os clássicos franceses compuseram uma constelação de nomes, na escola alemã um
nome sobressaiu e dominou amplamente o cenário: o de Kraepelin. Além de
empregar exaustivamente o método clínico, teve produção escrita incomparável.
Seu “Compêndio de Psiquiatria” apareceu
em 1883 com 380 páginas. Após oito edições, transformou-se, em trinta anos
(1913), num tratado de quatro volumes e 2.500 páginas: trabalho de Hércules,
para pôr ordem na casa, no campo das doenças mentais.
De fato, o projeto de Falret ocupou várias gerações de
psiquiatras. Será apresentado, de maneira bastante sucinta, o resultado final
deste trabalho, com as conclusões da escola francesa e as da escola alemã.
A nosologia psiquiátrica clássica culminou por
diferenciar a categoria das psicoses em dois grupos: as psicoses funcionais
(vesânias puras de Baillarger) e as psicoses orgânicas (vesânias sintomáticas
de Baillarger). As psicoses funcionais eram aquelas para as quais ainda não
havia sido descoberto o substrato anatômico cerebral. Serão apresentadas de
modo bastante sintético.
As psicoses e a escola francesa[13]
De
acordo com os clássicos da escola francesa, as psicoses funcionais eram as que
se seguem.
®delírio de
interpretação
Delírios
sistematizados crônicos ®delírio de
reivindicação
®delírio de
imaginação
®delírio
crônico
Psicose alucinatória
crônica ®formas
fantasiosas
®delírio
de influência
®demência
paranóide
Demência precoce ®catatonia
®hebefrenia
®forma
simples
Psicose
maníaco-depressiva
Psicose. Termo da lavra de Feurchtesleben,
psiquiatra da escola alemã. A denominação neurose
é mais antiga; de autoria de Cullen, médico escocês, foi adotada por Pinel, que
lhe deu sentido amplo, designando o conjunto das doenças mentais, que, para ele,
seriam distúrbios funcionais. O sentido moderno de neurose surgiu a partir de
Charcot e seus discípulos.
Delírios sistematizados crônicos. Constituidos por
quadros não alucinatórios. Fazem parte das páginas mais bem trabalhadas da
escola francesa. .
Delírio de interpretação. Denominação dada por
Sérieux e Capgras, que o caracterizaram de forma magistral. Era o quadro
paradigmático dos delírios sistematizados crônicos. O sintoma fundamental era a
interpretação delirante, cuja temática podia ser a mais variada (perseguição,
grandeza, ciúme, erotismo, misticismo, hipocondria, auto-acusação). No quadro,
ainda, propensão aos raciocínios e deduções, verossimilhança e sistematização
das idéias delirantes, com relativa conservação da atividade mental.
Delírio de reivindicação. Assim nomeado por
Sérieux e Capgras. Seu precursor foi o delírio
dos perseguidos-perseguidores, de Falret filho. Clérambault, de maneira
mais nítida do que Sérieux e Capgras, dissociou o grupo paranóico em duas
partes (loucuras racionais e delírios passionais), situando o delírio de
reivindicação entre os delírios
passionais. O elemento central era uma paixão mórbida (persecutória ou erotomaníaca)
na base do delírio, com os pacientes podendo ser ainda querelantes,
hipocondríacos ou ciumentos.
Delírio de imaginação. Caracterizado e nomeado por
Dupré e baseando-se em fabulações, com predomínio das idéias de grandeza,
invenção e reforma. Clérambault situava o delírio de imaginação ao lado do
delírio de interpretação e opondo-se a ele como o otimismo se opõe ao
pessimismo.
Psicose alucinatória crônica. Síntese proposta por
Ballet, englobando os delírios sistematizados crônicos alucinatórios.
Delírio crônico. Tratava-se do delírio crônico de evolução sistemática,
de Magnan, cujo precursor foi o delírio
de perseguição, de Lasègue. No cerne da sintomatologia estavam o automatismo
mental e a presença de alucinações. Havia conservação da atividade mental, mas
com invasão progressiva do automatismo.
Formas fantasiosas. Quadro semelhante ao anterior,
com exagero da inverossimilhança e do aspecto absurdo e fantasioso do delírio.
Delírio de influência. Descrito inicialmente e
nomeado por Séglas. Como nos casos anteriores, o automatismo mental ocupava
lugar central; o que diferenciava esse quadro eram as alucinações motoras, nas
quais a falsa percepção se via acompanhada de movimentos (ou sensações de
movimentos) que escapavam à vontade do sujeito (tremores nas comissuras
labiais, deslocamentos da laringe, ou até mesmo emissão verbal em voz alta)[14].
Demência precoce e psicose maníaco-depressiva. De
um modo geral, os clássicos franceses aceitaram bem estas duas contribuições da
nosologia kraepeliniana. Com pequenas divergências, por exemplo: o autor alemão
considerava o delírio de influência como uma forma paranóide branda da demência
precoce.
As psicoses e a escola alemã[15]
As
diversas edições do seu Compêndio revelam as sucessivas influências que pesaram
sobre Kraepelin. Inicialmente, Esquirol e Griesinger, o fundador da escola
alemã. Em seguida, Krafft-Ebing e Schule, eminentes psiquiatras da escola de
Illenau. Mais adiante, a influência mais importante e decisiva: Kahlbaum, cuja
obra, que até então tinha tido pequena repercussão, foi redescoberta por
Kraepelin. E assim, numa tarefa que foi numerosas vezes questionada e numerosas
vezes reformulada pelo autor, consumou-se a nosologia psiquiátrica clássica, o
projeto de Falret.
A distribuição das psicoses funcionais, na perspectiva
kraepeliniana, será sucintamente apresentada, tal como foi feito para a escola
francesa.
Paranoia
®forma sistemática
Parafrenia ®forma expansiva
®forma
confabulatória
®forma fantasiosa
®forma
paranóide
Demência
precoce ®forma
catatônica
®forma
hebefrênica
®forma simples
Loucura
maníaco-depressiva ®fase
maníaca
®fase depressiva
®fase
mista
Paranoia. Assim definida por Kraepelin:
“Desenvolvimento insidioso, na dependência de causas internas e, segundo
evolução contínua, de sistema delirante duradouro e impossível de abalar, que
se instaura com conservação completa da clareza e da ordem no pensamento, na
vontade e na ação”.[16]
Corresponde, aproximadamente, aos delírios sistematizados crônicos dos
franceses.
Parafrenia. O termo é neologismo de Kahlbaum. Para
Kraepelin, tratava-se de afecção intermediária entre paranóia e demência
precoce: a atividade delirante era menos sistematizada e mais fantasiosa, com
alterações mais ou menos pronunciadas da linguagem. Existia com frequência base
alucinatória; entretanto, não dava lugar ao embrutecimento característico da
demência precoce.
Parafrenia sistemática. Forma clínica que recobria
o delírio crônico de evolução
sistemática, de Magnan.
Parafrenia expansiva. Caracterizada pelo
desenvolvimento de humor exaltado e delírio exuberante, com temas
megalomaníacos, eróticos e místicos.
Parafrenia confabulatória. Correspondendo, em
parte, ao delírio de imaginação, de
Dupré.
Parafrenia fantasiosa. Equivalendo à dementia paranoides, anteriormente
descrita por Kraepelin: ideias delirantes extravagantes, com alucinações
múltiplas, fora das quais o enfermo permanecia, não obstante, com preservação
da consciência e sem alteração do comportamento[17].
Demência precoce. Sob esta denominação Kraepelin
reuniu vários quadros, numa vasta síntese que obedeceu a dois critérios: 1º)
Estados terminais muito parecidos; 2º) Sintomas fundamentais idênticos. A
demência terminal foi reconhecida com perspicácia muito maior do que se supõe:
a inteligência, a memória e a orientação estariam preservadas, mas haveria
desintegração da personalidade. Os distúrbios da afetividade e da vontade dominavam
o quadro mórbido, onde foram diferenciados os sintomas fundamentais
(embotamento afetivo, indiferença, apatia e prejuízo consequente da vontade,
levando à perda da unidade interna) e os sintomas secundários (alucinações,
idéias delirantes, depressões, excitações, impulsos)[18].
Demência precoce — forma paranóide. Com predomínio
dos sintomas da esfera intelectual –atividade delirante. Subdividida em forma
paranóide branda, que se aproximava do delírio
de influência, de Séglas, e forma paranóide grave, com acentuada
desintegração da personalidade.
Demência precoce — forma catatônica. Tratava-se da
catatonia ou loucura de tensão, classicamente
descrita e nomeada por Kahlbaum. Predominavam os sintomas da esfera motora, que
podiam oscilar entre dois pólos: furor e estupor.
Demência precoce — forma hebefrênica. Tratava-se
da hebefrenia —nomeada por Kahlbaum e
esmeradamente descrita por seu discípulo, Hecker. Aqui, havia predomínio dos sintomas
da esfera afetiva. Era também conhecida como demência néscia, dado o infantilismo e o aspecto tolo dos enfermos.
Demência precoce — forma simples. Quando havia
predomínio dos sintomas fundamentais.
Loucura maníaco-depressiva. Sob este nome
Kraepelin reuniu um conjunto de estados caracterizados por três tipos de distúrbios:
1º) Alteração primária do humor (tom afetivo); 2º) Perturbações específicas do
curso do pensamento e 3º) Distúrbios da psicomotilidade. O quadro clínico
incluía o polo maníaco, com elação do humor, fuga de idéias e excitação
psicomotora, e o polo melancólico, com depressão do humor, lentidão do
pensamento e inibição motora. Do ponto de vista evolutivo, assinalou os
períodos de intermitência e a tendência à recidiva. A atitude pré-kraepeliniana
de estudar separadamente os quadros maníacos e os quadros melancólicos foi
inteiramente superada; seriam dois aspectos de uma mesma entidade com simetria
invertida[19].
Fases maníaca, depressiva e mista. Considerando a
demência precoce o resultado de vasta síntese realizada por Kraepelin, temos a
acrescentar que ele a opôs radicalmente à sua outra síntese (a loucura
maníaco-depressiva) em razão da natureza dos distúrbios afetivos que
caracterizavam as duas entidades mórbidas[20]. Na
demência precoce, a afetividade era descrita como marcada pelo embotamento e
pela indiferença; na loucura maníaco-depressiva, o humor e o tom afetivo
estariam primariamente alterados. Alteração que podia manifestar-se através de
dois distúrbios polares: exaltação (fase maníaca) ou abaixamento (fase
depressiva). Fases que tendiam a recidivar-se, e que podiam ou não se alternar,
ou ainda se mesclar.
PHILIPPE PINEL
(1745-1826)
JEAN ETIENNE
ESQUIROL (1772-1840)
ANTOINE LAURENT
BAYLE (1799-1858)
WILHELM GRIESINGER
(1817-1868)
JEAN-PIERRE FALRET
(1794-1870)
ERNEST LASÈGUE
(1816-1883)
JULES BAILLARGER
(1809-1890)
JEAN MARTIN
CHARCOT (1825-1893)
KARL KAHLBAUM
(1828-1899)
JULES FALRET (1824-1902)
EWALD HECKER
(1843-1909)
VALENTIN MAGNAN
(1835-1916)
GILBERT BALLET
(1853-1916)
ERNEST DUPRÉ (1862-1921)
EMIL KRAEPELIN
(1856-1925)
GAËTAN GATIAN
DE CLÉRAMBAULT (1872-1934)
JULES SÉGLAS
(1856-1939)
SIGMUND FREUD (1856-1939)
PAUL SÉRIEUX (1864-1947)
Bibliografia sugerida:
Leitura resumida:
Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os
clássicos da psiquiatria. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p.
111 a 122.
Barreto, F.P. (1999) Psicoses: uma questão de
linguagem? In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 127 a 130.
Leitura avançada:
Bercherie, P. (1989) Os Fundamentos da
Clínica. História e estrutura do saber psiquiátrico. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor.
Foucault, M. (1978) História da Loucura.
São Paulo: Perspectiva.
NOTAS
[1]
Foucault M. (1958) A constituição histórica da doença mental (p. 81-82) In: Doença mental e psicologia. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro.
[2] Barreto,
F. P. (1999) Sobre o Nascimento e os
Fundamentos da Clínica. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 104.
Belo Horizonte: Itatiaia.
[3]
Bercherie, P. (1986) Los Fundamentos de
la clínica. Historia y estructura del
saber psiquiátrico, c. 1 e 2. Buenos
Aires: Manantial.
[4] Idem, p.22.
[5] Idem, c. 5.
[6]
Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os
clássicos da psiquiatria. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p.
114. Belo Horizonte: Itatiaia.
[7] Barreto,
F. P.(1999) Homenagem a um Velho
Psiquiatra. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 124. Belo
Horizonte: Itatiaia.
[8]
Alexander, F. & Selesnich, S. T (1968) História
da Psiquiatria, p. 117. São
Paulo: IBRASA.
[9]
Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os
clássicos da psiquiatria. Op. cit., p. 114.
[10]
Bercherie, P. (1989) Os Fundamentos da
Clínica. História e estrutura do saber
psiquiátrico, c. 8. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[11]
Barreto, F. P. (1999) Sobre o Nascimento
e os Fundamentos da Clínica. Op. cit., p. 106.
[12]
Barreto, F. P. (1999) Psicoses: Uma
questão de linguagem? In: Reforma Psiquiáytrica e Movimento Lacaniano, p. 128-129.
Belo Horizonte: Itatiaia.
[13]
Barreto, F, P, (1999) As psicoses e os clássicos
da psiquiatria. Op. cit., p. 115-116.
[14]
Bercherie, P. (1986) Op. cit., c. 14.
[15]
Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os
clássicos da psiquiatra. Op. cit., p. 117 a 119.
[16] Bercherie, P. (1986) Op. cit., p. 112.
[17]Idem. c. 16.
[18] Idem, c. 12.
[19]
Doyle, I. (1961) Nosologia Psiquiátrica, p. 331. . Rio de Janeiro:Casa do Estudante do Brasil.
[20]
Porot, A. (1967) Diccionario de
Psiquiatría, p. 182.
Barcelona: Labor, 1967.