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sexta-feira, 22 de abril de 2016

III. A psiquiatria clássica




(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)


           
Pinel é personagem fascinante, tanto por seus acertos como por seus erros.

          Geralmente lembrado como fundador da psiquiatria, seu papel como principal artífice do método clínico é esquecido pelos médicos, talvez por sua posição equivocada de recusar o método anatomoclínico.

           Além de médico eminente, Pinel foi discípulo de um enciclopedista (Condillac) e teve participação ativa na Revolução Francesa. Os ideais libertários do movimento vitorioso, que abriu as portas da Bastilha, não combinavam com o que acontecia nas masmorras da Bicêtre e da Salpêtrière, onde se amontoava e se enjaulava toda sorte de escória social. Nosso personagem para lá então se dirigiu, tornando-se protagonista de duplo advento: do humanismo e da gestão médica no tratamento dos alienados mentais.

            A questão pode ser vista por outros ângulos. Para Foucault, em vez de libertar os loucos, Pinel teria fechado o cerco em torno deles com um rígido discurso médico e moralista, ao definir o estatuto da loucura simultaneamente como doença e erro (no sentido moral).[1] Prova disso são as suas hipóteses célebres: a loucura como distúrbio funcional do SNC, as causas morais e o tratamento moral.

Apresento outro ponto de vista. Na sua perspectiva nominalista, Pinel concebia a armação do real forjada segundo o modelo da linguagem.  Haveria entre eles uma simetria.  Sendo assim, uma linguagem que reproduzisse aproximadamente a realidade, alcançaria um conhecimento pragmaticamente eficaz.  A ciência, nesta ótica, é a “língua bem formada” de Condillac.  Havia nessa abordagem algo que hoje podemos chamar de ingênuo: atribuir ao real organização discursiva.  É possível que Pinel tenha tido algum vislumbre da fragilidade de seu modelo epistemológico. É possível também que por esse motivo tenha escolhido a psiquiatria, pois seu objeto está constituído na linguagem do paciente.  Essa é a “coisa” da psiquiatria.  Desse modo, o método de Pinel deixava de mancar: o preconceito nominalista de uma ordem discursiva do real ficava mascarado quando se tratava de descrever os processos discursivos das alienações mentais.[2]

           Os questionamentos são vários e os temas são polêmicos. Talvez seja preferível, então, começar pelo inquestionável: Pinel é o fundador da psiquiatria.


            O método clínico aplicado à alienação mental

          Seu “Tratado Médico-Filosófico da Alienação Mental” (1801), publicado depois que se dirigiu à Bicêtre (1793) e à Salpêtrière (1795), tornou-se a obra inaugural da psiquiatria.

            O ponto de partida foi a aplicação do método clínico ao estudo das alienações mentais. A partir daí, Pinel desenvolveu uma hipótese sobre sua natureza, uma classificação (nosologia), teorizou sobre as causas e propôs um tratamento.

            É importante assinalar que Pinel realizou autópsias de alienados mentais, sem achados importantes. Sua desconfiança em relação à anatomia patológica foi reforçada. Formulou, em seguida, uma hipótese a respeito da natureza da alienação mental: seria um distúrbio funcional do SNC. Os danos cerebrais não seriam necessários, seriam contingentes. É a posição funcionalista mais radical da história da psiquiatria. 

          Pinel deu o nome de vesânias às perturbações funcionais do SNC. Entre elas, classificou as loucuras e outras afecções menores, que não faziam do sujeito um alienado. E as loucuras poderiam ser de três tipos: manias (quadros com exaltação do conjunto das faculdades mentais, com delírios e redução da atenção voluntária), monomanias (afecções que só afetavam o espírito parcialmente) e demências (enfraquecimento geral das faculdades cerebrais, com perda da função de síntese). A nosologia de Pinel, enriquecida pela contribuição de seu discípulo Esquirol (nosologia pinel-esquiroliana), era basicamente sindrômica.[3]

            Foram identificadas várias causas para as alienações mentais, com destaque para as famosas causas morais, que, numa postulação não cartesiana, seriam grandes responsáveis pelos distúrbios funcionais do SNC.

          Coerente com a hipótese etiológica, a ênfase foi dada ao tratamento moral dos alienados. A proposta prevê a retirada de seu ambiente habitual, onde tiveram origem os problemas, e o isolamento numa instituição especial, com disciplina severa e paternal, regulada pela lei médica. Ameaças, recompensas e consolos teriam seu papel, com a implantação do “trabalho mecânico” e o estabelecimento de “policiamento interior”. Isso aconteceria sob estrita dependência de um homem que, por suas qualidades físicas e morais, conquistasse a confiança e o respeito do alienado. Para alcançar essa “transferência paterna” o recurso não seria a violência, mas a firmeza e a doçura.[4] A ideia de tratamento moral é saga aberta por Pinel e que sobrevive, sob diferentes modalidades, até os dias de hoje.


            O método anatomoclínico aplicado à psiquiatria?

            Pinel teve um único grande discípulo, Esquirol, que, por sua vez, teve vários discípulos importantes (Baillarger, Georget, Guislain, Falret, entre outros) e dominou a psiquiatria francesa até metade do século XIX. Esquirol enriqueceu consideravelmente a clínica psiquiátrica recém-criada e foi fiel seguidor de seu mestre em todos os aspectos: manteve a posição funcionalista, a nosologia, a ênfase nas causas morais e no tratamento moral.

          Em 1822 Bayle apresentou uma tese em que descreveu uma forma de alienação mental acompanhada de perturbações motoras e que evoluía em três fases: 1. Delírio monomaníaco com exaltação; 2. Delírio maníaco geral; 3. Demência com amnésia.

         Bayle utilizou, portanto, uma sucessão de categorias da nosologia pinel-esquiroliana. E, no campo anátomo-patológico, trouxe uma novidade: correlacionou a referida alienação mental com uma lesão determinada, uma meningite crônica. E deu nome à enfermidade descoberta: paralisia geral.

          Esquirol e seus discípulos criticaram duramente e rejeitaram as ideias de Bayle, que, decepcionado, abandonou a psiquiatria. Por que motivo essa tese incomodou tanto? Em primeiro lugar, porque o critério era clínico-evolutivo, ou seja, concebia a nova doença num processo diacrônico, onde as categorias pinel-esquirolianas não passavam de sub-elementos, ou de síndromes que se sucediam.  E, em segundo lugar, porque o critério era também anatomoclínico, quer dizer, relacionava o quadro clínico com substrato anatômico[5].

        Exatamente por significar um corte, ou o princípio do fim da nosologia pinel-esquiroliana, a contribuição de Bayle demorou cerca de vinte anos para ser aceita. Depois que foi amplamente reconhecida, tornou-se o protótipo de uma nova nosologia. A transição da nosologia pinel-esquiroliana para a nosologia clássica foi lenta e difícil. Nessa mudança, desempenhou papel fundamental aquele que foi o mais brilhante dos discípulos de Esquirol: Falret. Crítico insistente da nosologia de seus mestres, procurou, desde o início, completa reestruturação do campo da psiquiatria. Deve-se a ele um aprimoramento do método clínico e a ênfase no critério clínico-evolutivo, que apontaria as entidades mórbidas ou as “espécies verdadeiramente naturais”. Empresa que, para ele, não seria de um só homem, nem de uma só geração.[6]

           A questão apresentou outro desdobramento. Por meio de Guislain, discípulo de Esquirol, aplicação do método clínico à alienação mental chegou a Griesinger, que se tornou o pai da psiquiatria alemã. No seu célebre “Tratado das Doenças Mentais” (1843) afirma logo na primeira página, inspirado na descoberta de Bayle, que “devemos sempre ver antes de tudo nas doenças mentais uma afecção do cérebro”[7]. Posição anatomista radical, que assinala reviravolta iminente: depois da morte de Esquirol toda a psiquiatria clássica se torna anatomista. 

           Para ser mais preciso: toda a psiquiatria clássica, tendo como paradigma a paralisia geral, passa a sonhar com a inserção da psiquiatria no método anatomoclínico próprio da medicina.


            Viagem ao reino da linguagem

           Afinal, o que é a paralisia geral de Bayle, paradigma da nosologia psiquiátrica clássica? Uma projeção rumo ao futuro fornece os achados que se sucederam a este importante descobrimento. Baillarger enriqueceu a descrição clínica da nova entidade nosológica e suspeitou tratar-se de forma de sífilis nervosa. Com a sistematização do quadro clínico passou a chamar-se paralisia geral progressiva (PGP). Calmeil completou a descrição anátomo-patológica, incluindo as lesões primitivas do córtex cerebral (tratava-se de meningo-encefalite crônica difusa). Em 1905, Schaudinn descobriu o agente infeccioso da sífilis (uma bactéria — o Treponema pallidum) em lesões genitais primárias. Em 1906, Wassermann desenvolveu um tipo de exame de sangue (reação de fixação do complemento) no qual se mostravam positivamente os pacientes que tinham sífilis. Em 1913, Noguchi identificou o Treponema pallidum no cérebro de pacientes que sofriam de paralisisa cerebral. Em 1910, Ehrlich desenvolveu um medicamento à base de arsênico para o tratamento da sífilis. Pouco mais tarde, Wagner-Jauregg observou que a febre da malária produzia temperaturas que destruíam o Treponema no organismo humano, e propôs a malarioterapia, inovação pela qual recebeu o prêmio Nobel (1927). Finalmente, em 1945, Fleming isolou a penicilina, antibiótico que elimina radicalmente o agente causador da sífilis humana[8].

Eis aí o ideal da psiquiatria organicista: uma doença mental com quadro clínico bem definido, ao qual correspondem estruturas anátomo-patológicas bem determinadas, causadas por agente etiológico bem conhecido e que tem tratamento específico, eficaz e inócuo![9]

A inscrição da psiquiatria no método anatomoclínico, todavia, foi só um sonho. Depois da paralisia geral, poucas foram as entidades clínicas que tiveram seu substrato anatomopatológico estabelecido. A anatomia patológica nunca exerceu, para a psiquiatria, o papel fundamental que desempenhou para a medicina. A categórica afirmação de Griesinger não passou de postulação, sem nenhuma possibilidade de demonstração. Mais tarde, em 1863, outro grande nome da escola alemã ––Kahlbaum–– reconhecia, modestamente, que os achados da clínica psiquiátrica poderiam, talvez, orientar e dirigir a pesquisa anatomopatológica na descoberta dos resultados esperados[10]. A psiquiatria clássica, porém, nunca pôde se fundar na anatomia patológica, embora sempre tivesse situado no seu horizonte essa possibilidade.  Ironicamente, a psiquiatria sobreviveu à medida que esse sonho não se realizou: uma identificação plena com a clínica médica representaria sua absorção pela neurologia[11].

A psiquiatria clássica não se estabeleceu em bases anatômicas e sempre se valeu de bases psicológicas. Inicialmente, fornecidas pelos filósofos: a psicologia de Pinel foi inspirada em Locke e Condillac; a de Esquirol e seus discípulos, nos filósofos da Escola Espiritualista Eclética; a de Griesinger, em Herbart. Kraepelin, por sua vez, baseou-se em Wundt, expressão máxima do associacionismo, doutrina psicológica que dominou o panorama do período áureo da psiquiatria clássica. Wundt era empirista (recebeu grande influência de Helmholtz); sua psicologia era inspirada na fisiologia, a partir do arco reflexo e adotava um método introspeccionista experimentalmente controlado. O primeiro laboratório de psicologia experimental foi fundado ppor Wundt em 1879, na universidade de Leipzig. Sua análise buscava os componentes sensoriais elementares dos estados mentais e os princípios pelos quais eles se sucediam nos processos psíquicos (associacionismo). Wundt é considerado o fundador da psicologia enquanto disciplina independente da filosofia. Kraepelin foi seu aluno e recebeu dele a sugestão de dedicar-se à clínica. 

A psiquiatria clássica constitui longo período de mais de um século que começa com Pinel e termina com Clérambault (1872-1934), na escola francesa, e que vai de Griesinger (1817-1868) a Kraepelin (1856-1925), na escola alemã. Funda-se no método clínico, criado por Pinel e aprimorado por outros psiquiatras clássicos (Falret, Kahlbaum) e representa, no caso das alienações mentais, uma viagem sem volta ao reino da linguagem.


As psicoses e os clássicos da psiquiatria

Não tendo sido definidas anatomopatologicamente, sobre que sustentação foram constituidas as doenças mentais?  A psiquiatria clássica não respondeu assim, mas hoje, revisitando esses velhos temas, pode-se afirmar: as doenças mentais constituiram-se na linguagem. Ora, o método clínico realizou abordagem fenomenológica, cujo objetivo era a descrição e sistematização das manifestações dos pacientes. Um trabalho com essa finalidade acabou reunindo gama diversificada de dados, tais como sintomas medicamente definidos, alterações da conduta e distúrbios de linguagem. Mesmo levando em conta tal diversidade, é possível destacar a linguagem como o carro chefe dessa composição.
 
         A clínica psiquiátrica fundamentou-se, por conseguinte, em primeiro lugar, na consideração da experiência de linguagem dos pacientes. Com efeito, são constituídos na linguagem, e abordáveis somente por meio dela, fenômenos como os delírios, as alucinações, a fuga de idéias, a melancolia, as fobias, as obsessões, as amnésias, a obnubilação, e assim por diante. Às vezes, o próprio ato é uma palavra e, mesmo quando um ato se realiza ultrapassando o aparelho da linguagem, ele é importante exatamente por essa referência.[12]

           A obra dos psiquiatras clássicos é vastíssima. Enquanto os clássicos franceses compuseram uma constelação de nomes, na escola alemã um nome sobressaiu e dominou amplamente o cenário: o de Kraepelin. Além de empregar exaustivamente o método clínico, teve produção escrita incomparável. Seu “Compêndio de Psiquiatria” apareceu em 1883 com 380 páginas. Após oito edições, transformou-se, em trinta anos (1913), num tratado de quatro volumes e 2.500 páginas: trabalho de Hércules, para pôr ordem na casa, no campo das doenças mentais.

            De fato, o projeto de Falret ocupou várias gerações de psiquiatras. Será apresentado, de maneira bastante sucinta, o resultado final deste trabalho, com as conclusões da escola francesa e as da escola alemã.
            A nosologia psiquiátrica clássica culminou por diferenciar a categoria das psicoses em dois grupos: as psicoses funcionais (vesânias puras de Baillarger) e as psicoses orgânicas (vesânias sintomáticas de Baillarger). As psicoses funcionais eram aquelas para as quais ainda não havia sido descoberto o substrato anatômico cerebral. Serão apresentadas de modo bastante sintético.


            As psicoses e a escola francesa[13]

 De acordo com os clássicos da escola francesa, as psicoses funcionais eram as que se seguem.  

                                                                        ®delírio de interpretação
            Delírios sistematizados crônicos      ®delírio de reivindicação
                                                                       ®delírio de imaginação

                                                                ®delírio crônico
            Psicose alucinatória crônica     ®formas fantasiosas
                                                                ®delírio de influência

                                                   ®demência paranóide
            Demência precoce        ®catatonia
                                                   ®hebefrenia
                                                   ®forma simples

            Psicose maníaco-depressiva

           Psicose. Termo da lavra de Feurchtesleben, psiquiatra da escola alemã. A denominação neurose é mais antiga; de autoria de Cullen, médico escocês, foi adotada por Pinel, que lhe deu sentido amplo, designando o conjunto das doenças mentais, que, para ele, seriam distúrbios funcionais. O sentido moderno de neurose surgiu a partir de Charcot e seus discípulos.

          Delírios sistematizados crônicos. Constituidos por quadros não alucinatórios. Fazem parte das páginas mais bem trabalhadas da escola francesa. .

             Delírio de interpretação. Denominação dada por Sérieux e Capgras, que o caracterizaram de forma magistral. Era o quadro paradigmático dos delírios sistematizados crônicos. O sintoma fundamental era a interpretação delirante, cuja temática podia ser a mais variada (perseguição, grandeza, ciúme, erotismo, misticismo, hipocondria, auto-acusação). No quadro, ainda, propensão aos raciocínios e deduções, verossimilhança e sistematização das idéias delirantes, com relativa conservação da atividade mental.

            Delírio de reivindicação. Assim nomeado por Sérieux e Capgras. Seu precursor foi o delírio dos perseguidos-perseguidores, de Falret filho. Clérambault, de maneira mais nítida do que Sérieux e Capgras, dissociou o grupo paranóico em duas partes (loucuras racionais e delírios passionais), situando o delírio de reivindicação entre os delírios passionais. O elemento central era uma paixão mórbida (persecutória ou erotomaníaca) na base do delírio, com os pacientes podendo ser ainda querelantes, hipocondríacos ou ciumentos.

           Delírio de imaginação. Caracterizado e nomeado por Dupré e baseando-se em fabulações, com predomínio das idéias de grandeza, invenção e reforma. Clérambault situava o delírio de imaginação ao lado do delírio de interpretação e opondo-se a ele como o otimismo se opõe ao pessimismo.

           Psicose alucinatória crônica. Síntese proposta por Ballet, englobando os delírios sistematizados crônicos alucinatórios.

           Delírio crônico. Tratava-se do delírio crônico de evolução sistemática, de Magnan, cujo precursor foi o delírio de perseguição, de Lasègue. No cerne da sintomatologia estavam o automatismo mental e a presença de alucinações. Havia conservação da atividade mental, mas com invasão progressiva do automatismo.

            Formas fantasiosas. Quadro semelhante ao anterior, com exagero da inverossimilhança e do aspecto absurdo e fantasioso do delírio.

          Delírio de influência. Descrito inicialmente e nomeado por Séglas. Como nos casos anteriores, o automatismo mental ocupava lugar central; o que diferenciava esse quadro eram as alucinações motoras, nas quais a falsa percepção se via acompanhada de movimentos (ou sensações de movimentos) que escapavam à vontade do sujeito (tremores nas comissuras labiais, deslocamentos da laringe, ou até mesmo emissão verbal em voz alta)[14].

         Demência precoce e psicose maníaco-depressiva. De um modo geral, os clássicos franceses aceitaram bem estas duas contribuições da nosologia kraepeliniana. Com pequenas divergências, por exemplo: o autor alemão considerava o delírio de influência como uma forma paranóide branda da demência precoce.

            As psicoses e a escola alemã[15]

 As diversas edições do seu Compêndio revelam as sucessivas influências que pesaram sobre Kraepelin. Inicialmente, Esquirol e Griesinger, o fundador da escola alemã. Em seguida, Krafft-Ebing e Schule, eminentes psiquiatras da escola de Illenau. Mais adiante, a influência mais importante e decisiva: Kahlbaum, cuja obra, que até então tinha tido pequena repercussão, foi redescoberta por Kraepelin. E assim, numa tarefa que foi numerosas vezes questionada e numerosas vezes reformulada pelo autor, consumou-se a nosologia psiquiátrica clássica, o projeto de Falret. 

            A distribuição das psicoses funcionais, na perspectiva kraepeliniana, será sucintamente apresentada, tal como foi feito para a escola francesa.

             Paranoia

                                      ®forma sistemática
            Parafrenia       ®forma expansiva
                                      ®forma confabulatória
                                      ®forma fantasiosa

                                                  ®forma paranóide
            Demência precoce       ®forma catatônica
                                                  ®forma hebefrênica
                                                 ®forma simples
                                                                
            Loucura maníaco-depressiva      ®fase maníaca
                                                                   ®fase depressiva
                                                                   ®fase mista

           Paranoia. Assim definida por Kraepelin: “Desenvolvimento insidioso, na dependência de causas internas e, segundo evolução contínua, de sistema delirante duradouro e impossível de abalar, que se instaura com conservação completa da clareza e da ordem no pensamento, na vontade e na ação”.[16] Corresponde, aproximadamente, aos delírios sistematizados crônicos dos franceses.

           Parafrenia. O termo é neologismo de Kahlbaum. Para Kraepelin, tratava-se de afecção intermediária entre paranóia e demência precoce: a atividade delirante era menos sistematizada e mais fantasiosa, com alterações mais ou menos pronunciadas da linguagem. Existia com frequência base alucinatória; entretanto, não dava lugar ao embrutecimento característico da demência precoce.

            Parafrenia sistemática. Forma clínica que recobria o delírio crônico de evolução sistemática, de Magnan.

            Parafrenia expansiva. Caracterizada pelo desenvolvimento de humor exaltado e delírio exuberante, com temas megalomaníacos, eróticos e místicos.

             Parafrenia confabulatória. Correspondendo, em parte, ao delírio de imaginação, de Dupré.

           Parafrenia fantasiosa. Equivalendo à dementia paranoides, anteriormente descrita por Kraepelin: ideias delirantes extravagantes, com alucinações múltiplas, fora das quais o enfermo permanecia, não obstante, com preservação da consciência e sem alteração do comportamento[17].

            Demência precoce. Sob esta denominação Kraepelin reuniu vários quadros, numa vasta síntese que obedeceu a dois critérios: 1º) Estados terminais muito parecidos; 2º) Sintomas fundamentais idênticos. A demência terminal foi reconhecida com perspicácia muito maior do que se supõe: a inteligência, a memória e a orientação estariam preservadas, mas haveria desintegração da personalidade. Os distúrbios da afetividade e da vontade dominavam o quadro mórbido, onde foram diferenciados os sintomas fundamentais (embotamento afetivo, indiferença, apatia e prejuízo consequente da vontade, levando à perda da unidade interna) e os sintomas secundários (alucinações, idéias delirantes, depressões, excitações, impulsos)[18].

          Demência precoce — forma paranóide. Com predomínio dos sintomas da esfera intelectual –atividade delirante. Subdividida em forma paranóide branda, que se aproximava do delírio de influência, de Séglas, e forma paranóide grave, com acentuada desintegração da personalidade.

         Demência precoce — forma catatônica. Tratava-se da catatonia ou loucura de tensão, classicamente descrita e nomeada por Kahlbaum. Predominavam os sintomas da esfera motora, que podiam oscilar entre dois pólos: furor e estupor.

            Demência precoce — forma hebefrênica. Tratava-se da hebefrenia —nomeada por Kahlbaum e esmeradamente descrita por seu discípulo, Hecker. Aqui, havia predomínio dos sintomas da esfera afetiva. Era também conhecida como demência néscia, dado o infantilismo e o aspecto tolo dos enfermos.
 
             Demência precoce — forma simples. Quando havia predomínio dos sintomas fundamentais.

          Loucura maníaco-depressiva. Sob este nome Kraepelin reuniu um conjunto de estados caracterizados por três tipos de distúrbios: 1º) Alteração primária do humor (tom afetivo); 2º) Perturbações específicas do curso do pensamento e 3º) Distúrbios da psicomotilidade. O quadro clínico incluía o polo maníaco, com elação do humor, fuga de idéias e excitação psicomotora, e o polo melancólico, com depressão do humor, lentidão do pensamento e inibição motora. Do ponto de vista evolutivo, assinalou os períodos de intermitência e a tendência à recidiva. A atitude pré-kraepeliniana de estudar separadamente os quadros maníacos e os quadros melancólicos foi inteiramente superada; seriam dois aspectos de uma mesma entidade com simetria invertida[19].

            Fases maníaca, depressiva e mista. Considerando a demência precoce o resultado de vasta síntese realizada por Kraepelin, temos a acrescentar que ele a opôs radicalmente à sua outra síntese (a loucura maníaco-depressiva) em razão da natureza dos distúrbios afetivos que caracterizavam as duas entidades mórbidas[20]. Na demência precoce, a afetividade era descrita como marcada pelo embotamento e pela indiferença; na loucura maníaco-depressiva, o humor e o tom afetivo estariam primariamente alterados. Alteração que podia manifestar-se através de dois distúrbios polares: exaltação (fase maníaca) ou abaixamento (fase depressiva). Fases que tendiam a recidivar-se, e que podiam ou não se alternar, ou ainda se mesclar.


PHILIPPE  PINEL  (1745-1826)
JEAN  ETIENNE  ESQUIROL  (1772-1840)
ANTOINE  LAURENT  BAYLE  (1799-1858)
WILHELM  GRIESINGER  (1817-1868)
JEAN-PIERRE  FALRET  (1794-1870)
ERNEST  LASÈGUE  (1816-1883)
JULES  BAILLARGER  (1809-1890)
JEAN   MARTIN  CHARCOT  (1825-1893)
KARL  KAHLBAUM  (1828-1899)
JULES  FALRET (1824-1902)
EWALD  HECKER  (1843-1909)
VALENTIN  MAGNAN  (1835-1916)
GILBERT  BALLET  (1853-1916)
ERNEST  DUPRÉ (1862-1921)
EMIL  KRAEPELIN  (1856-1925)
GAËTAN  GATIAN  DE  CLÉRAMBAULT  (1872-1934)
JULES  SÉGLAS  (1856-1939)
SIGMUND FREUD  (1856-1939)
PAUL SÉRIEUX  (1864-1947)

Bibliografia sugerida:

Leitura resumida:
Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os clássicos da psiquiatria. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 111 a 122.
Barreto, F.P. (1999) Psicoses: uma questão de linguagem? In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 127 a 130.

Leitura avançada:
Bercherie, P. (1989) Os Fundamentos da Clínica. História e estrutura do saber psiquiátrico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Foucault, M. (1978) História da Loucura. São Paulo: Perspectiva.


 NOTAS


[1] Foucault M. (1958) A constituição histórica da doença mental (p. 81-82) In: Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

[2] Barreto, F. P. (1999) Sobre o Nascimento e os Fundamentos da Clínica. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 104. Belo Horizonte: Itatiaia.

[3] Bercherie, P. (1986) Los Fundamentos de la clínica.  Historia y estructura del saber psiquiátrico, c. 1 e 2. Buenos Aires: Manantial.

[4] Idem, p.22.

[5] Idem, c. 5.

[6] Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os clássicos da psiquiatria. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 114. Belo Horizonte: Itatiaia.

[7] Barreto, F. P.(1999) Homenagem a um Velho Psiquiatra. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 124. Belo Horizonte: Itatiaia.

[8] Alexander, F. & Selesnich, S. T (1968) História da Psiquiatria, p. 117. São Paulo: IBRASA.

[9] Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os clássicos da psiquiatria. Op. cit., p. 114.

[10] Bercherie, P. (1989) Os Fundamentos da Clínica.  História e estrutura do saber psiquiátrico, c. 8.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[11] Barreto, F. P. (1999) Sobre o Nascimento e os Fundamentos da Clínica. Op. cit., p. 106.

[12] Barreto, F. P. (1999) Psicoses: Uma questão de linguagem? In: Reforma Psiquiáytrica e Movimento Lacaniano, p. 128-129. Belo Horizonte: Itatiaia.

[13] Barreto, F, P, (1999) As psicoses e os clássicos da psiquiatria. Op. cit., p. 115-116.

[14] Bercherie, P. (1986) Op. cit., c. 14.

[15] Barreto, F. P. (1999) As psicoses e os clássicos da psiquiatra. Op. cit., p. 117 a 119.

[16] Bercherie, P. (1986) Op. cit., p. 112.

[17]Idem. c. 16.

[18] Idem, c. 12.

[19] Doyle, I. (1961)  Nosologia Psiquiátrica, p. 331. . Rio de Janeiro:Casa do Estudante do Brasil.

[20] Porot, A. (1967) Diccionario de Psiquiatría,  p. 182. Barcelona: Labor, 1967.