Seminário
A
DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI
Capítulo I
A
Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder
Vicente
De Nardin, um dos organizadores do Seminário, observou há pouco que este
auditório (do Centro de Estudos Galba Velloso) recebeu o meu nome. De fato... e
isso aconteceu em 1987, ou seja, há exatamente 30 anos. 1987, para mim, foi um
ano extremamente importante, também por outros motivos. Em Curitiba, num
Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, fiquei conhecendo Jacques-Alain Miller.
Algo que precipitou a decisão de levar a fundo minha formação lacaniana.
Minha
primeira formação psicanalítica aconteceu no Círculo Psicanalítico de Minas
Gerais, após dois períodos de análise com dois analistas (cerca de 9 anos),
além de formação teórica e supervisão. O Círculo dominava amplamente o cenário
psicanalítico de Minas Gerais.
Em
1980, liderei a criação do Colégio Mineiro de Psicanálise, fazendo um corte na
hegemonia absoluta do Círculo. O Colégio, entre outras coisas, difundiu em
Minas o interesse pelo ensino de Lacan. Supunha, entretanto, que seria uma
evolução contínua, sem rupturas. Exatamente por esse motivo, o Colégio acabou,
em 1984.
Experimentei
na própria carne: levar a fundo a orientação lacaniana exigiria mudar tudo. Nova
análise, nova formalização, nova prática, nova instituição. Recomeçar!
Sim,
nova análise: dois ciclos, com dois analistas. Meu fim de análise lacaniana
aconteceu somente em 2013. No meu último livro (O bem-estar na civilização)
deixo um testemunho dele.
Não
pensem que evito meu tema. Pelo contrário, introduzo-me na questão. Afinal, o
que é o artigo de Lacan, título da aula de hoje: “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E OS
PRINCÍOS DE SEU PODER”?
Trata-se
de texto de 1958, publicado nos “Escritos”. Para localizá-lo minimamente: o
ensino lacaniano propriamente dito começara em 1953, com o Discurso de Roma, e
sua excomunhão da IPA ocorreu em 1963.
“A
DIREÇÃO DO TRATAMENTO” é parte do primeiro ensino de Lacan, no qual se situam
também os outros temas que serão abordados no primeiro semestre deste ano. O
texto versa essencialmente sobre teoria da prática psicanalítica e apresenta
duas vertentes cruciais: uma crítica dos pressupostos vigentes na IPA e uma
exposição das formulações lacanianas.
Em
sua crítica, a referência principal é “La
psychanalyse d’aujourd’hui” (PDA), cujos autores Lacan evita nomear, talvez
por delicadeza. Citarei, não obstante, os mais importantes. O editor é Sacha
Nacht. O prefaciador é Ernest Jones. Entre os autores, temos: Serge Lébovici,
Maurice Bouvet, Pierre Mâle, Favreau, Diatkine.
As
críticas de Lacan ao pós-freudismo não são apenas ácidas. São simplesmente
demolidoras. Não fica pedra sobre pedra...
Olho
para minha estante da época, para os grandes mestres de minha primeira
formação, e o que vejo? “A presença do analista” (Sacha Nacht), “O ego e os
mecanismos de defesa” (Anna Freud), “Teoria psicanalítica da neurose” (Oto
Fenichel), “Inveja e Gratidão” (Melanie Klein), “Análise do Caráter” (Wilhelm
Reich), “Técnica Psicanalítica” (Heinrich Racker), “Teoria Psicanalítica da Libido”
(Karl Abraham), “A Estrutura da Teoria Psicanalítica” (David Rapaport), etc.,
etc. Pois bem. Tudo isso terá seus fundamentos radicalmente questionados, direta
ou indiretamente.
Antes
de continuar, um comentário. Alguém poderá, com justa razão, argumentar: Como
apresentar tema tão amplo e complexo como “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E OS
PRINCÍPIOS DE SEU PODER” em apenas uma aula?
De
fato, a crítica tem procedência. Pode-se, inclusive, ampliá-la: é tema para um
seminário, ou para um cartel, e não para uma aula. O mesmo poderia ser dito, no
entanto, para todas as outras aulas do Seminário. Como falar, num só fôlego, da
direção do tratamento da histérica, ou do obsessivo, ou do psicótico? Os temas
do segundo semestre, concernentes ao o último Lacan (A segunda clínica de
Lacan, A interpretação borromeana, A doutrina clássica do passe, O passe do parlêtre) não são, quanto a isso,
diferentes.
Reconheço
e dou a mão à palmatória. Proponho, mesmo, que se formem cartéis sobre o(s)
tema(s). Trago, porém, meu plano. O que pretendo é uma síntese. Uma redução.
Como falar do que é complexo da maneira mais simples?
É
claro que isso tem limites. Mas, tem seu alcance. Para os iniciantes, funciona
como provocação, convocação, estímulo. Para os mais avançados em sua formação,
uma oportunidade de sistematização de suas reflexões.
Em
outras palavras: a capacidade de análise implica, dialeticamente, a capacidade
de síntese. Lacan, certa feita, manifestou-se como quem fala de muitíssimas
coisas e, ao mesmo tempo, sempre a mesma coisa.
Miller,
por seu turno, propôs resumir todo o primeiro Lacan numa única frase: “O
inconsciente está estruturado como uma linguagem “. Ou todo o último Lacan em
outra frase: “A relação sexual não existe”. Tal é a essência do matema: o que é
complexo da forma mais reduzida, ou mais simples (com menos elementos). Eis o
paradoxo: síntese que exige análise.
Num
esforço de síntese, proponho então: “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E OS PRINCÍPIOS DE
SEU PODER” é um texto que leva adiante, de um lado, uma crítica radical dos
pressupostos teórico-técnicos do pós-freudismo, e de outro lado, uma exposição
metódica da fundamentação da prática do que se convencionou chamar de primeiro
Lacan.
Pós-freudismo X Primeiro
Lacan
Minha
leitura terá como eixo, por conseguinte, uma contraposição entre a perspectiva
pós-freudiana e a perspectiva lacaniana, considerando-se o primeiro ensino de
Lacan.
QUADRO
I
|
PÓS-FREUDISMO
|
PRIMEIRO LACAN
|
|
Desvio de Freud
|
Retorno a Freud
|
|
Imaginarização da
psicanálise
(Eu, Defesa,
Pessoa do analista, Contratransferência, Identificação, etc.)
|
Significantização
da psicanálise
(Sujeito, pulsão,
desejo, fantasia, inconsciente, transferência, sintoma, etc.)
|
|
Prevalência do eu
|
Prevalência do
inconsciente
|
|
Contratransferência
|
Desejo do analista
|
|
Análise das
resistências
|
Interpretação
|
|
Presença do
analista
(ser do analista)
|
O analista paga
com sua pessoa
(falta-a-ser do
analista)
|
|
Reeducação
emocional
|
Transmutação do sujeito
|
|
A análise como
relação dual
(relação de
objeto)
|
A análise como
relação com o analista
(relação com o
objeto)
|
|
O analista frustra
(ou atende) a demanda
|
O analista
sustenta a demanda
|
|
Imaginarizar o
desejo
|
Tomar o desejo ao
pé da letra
|
|
Fim de análise:
Identificação com
o analista
|
Fim de análise:
Identificação com
o nome próprio
Des-ser
|
Apresento
um quadro com duas colunas. Na primeira, perfilo considerações atinentes ao
pós-freudismo e na segunda coluna indico o que se opõe a elas no ensino
lacaniano. Assim temos, de um lado, um conjunto capaz de configurar a
psicanálise pós-freudiana, e de outro lado, na outra coluna, uma caracterização
do primeiro Lacan. Se, em vez de uma leitura vertical, for realizada uma
leitura horizontal, linha por linha, percebe-se a cada lance a oposição entre
as duas perspectivas.
Aprendi
esse método de abordagem com Miller, que o utiliza sistematicamente. Permite
formalizar e elucidar o tema examinado, principalmente quando se procura, como
é nosso caso agora, uma visão de síntese.
À
luz da perspectiva lacaniana, como definir, numa única fórmula, a psicanálise
pós-freudiana? Seria, sem dúvida: uma
psicologia do ego. Aliás, trata-se de autodenominação: é por demais
conhecida a expressão “ego psychology”,
nome sob o qual se organizou poderosa tendência dentro da IPA.
Quanto
ao primeiro Lacan, poderia também ser reduzido a uma fórmula: uma leitura estruturalista de Freud. Este
é, por sinal, o título de importante obra de Oscar Masotta, autor que
introduziu Lacan na Argentina.
Desvio de Freud X Retorno
a Freud
Para
Lacan, o pós-freudismo é um desvio de Freud. Não se trata, propriamente, de um
abandono de Freud, mas de uma leitura recortada. Poderia ser dito que toda
leitura é um recorte. É verdade. Sendo então, mais preciso: uma leitura
recortada de Freud que deixou fora exatamente o que há de fundamental, o que há
de subversivo na descoberta freudiana.
Sendo
ainda mais preciso: o recorte deixou fora aspectos cruciais da primeira tópica
e privilegiou aspectos amenos da segunda tópica. Houve um abrandamento, uma
domesticação da psicanálise, que contribuiu para fazer dela uma pílula
palatável para a cultura ocidental, mormente a norte-americana. Operação que
surtiu efeito: a psicologia do ego dominou amplamente o cenário psi nos Estados
Unidos, durante tempo considerável.
O
preço, entretanto, foi alto: a descaracterização da psicanálise, deixando de
lado exatamente a pérola do legado freudiano. Daí a expressão forte: desvio de
Freud. Forçando um pouco os termos, poderia ser dito que, para Lacan, os
pós-freudianos são pré-freudianos.
É
nesse contexto que o ensino lacaniano se apresenta como um retorno a Freud. Também uma leitura recortada, mas que
privilegia a originalidade, a base, a virulência da descoberta psicanalítica. O
próprio Lacan formula, de maneira elegante: “O sentido do retorno a Freud é o
retorno ao sentido de Freud”.
A
leitura estruturalista retoma o texto freudiano à luz dos conceitos
linguísticos. Principalmente três: significante,
que foi buscar em Saussure, metáfora
e metonímia, que foi buscar em Jakobson.
Imaginarização X
Significantização da psicanálise
Qual
é o cerne do desvio pós-freudiano? Em termos lacanianos, poderia ser dito que
se trata de uma imaginarização da
psicanálise. O conceito fundamental, como já foi dito, é o de eu (ego).
A partir daí, é dada grande importância às defesas
do eu, responsáveis pelas resistências
à análise. Outra concepção imaginarizada é a ênfase dada à pessoa do analista, que, com sua
presença no cenário analítico, desempenharia papel de relevo no processo
terapêutico. Outros termos amplamente
utilizados foram abordados sobretudo pelo viés imaginário: transferência,
contratransferência, fantasia, identificação, etc.
O
primeiro ensino de Lacan, por seu turno, pode ser marcado com justeza como uma significantização da psicanálise.
Darei exemplos.
O
falo, concebido inicialmente como objeto imaginário, foi considerado em seguida
como um significante. Num primeiro momento, como significante da castração.
No
Seminário 3, sobre “As psicoses”, Lacan avança na elucidação da operação
fundamental dessa estrutura clínica. Afirma tratar-se basicamente de uma
rejeição (Verwerfung). Mais adiante,
acrescenta que se trata da exclusão de um significante primordial. Finalmente,
identifica esse significante como sendo o do Nome-do-Pai. E assim, em termos de
afirmação ou exclusão significantes (Bejahung
ou Verwerfung), formaliza as operações fundamentais das três estruturas
clínicas.
Vários
outros conceitos são reconhecidos em sua dimensão primariamente significante.
Citarei alguns: inconsciente, pulsão, desejo, fantasia, transferência,
identificação, Édipo.
A
certa altura, no entanto, Lacan faz uma pausa. Nem tudo é significante. Há uma
exceção: o objeto (a). É o início da
virada no seu ensino.
Prevalência do eu X
Prevalência do inconsciente
A
psicologia do ego (ego psychology)
teve um trio fundador: Hartmann, Kris e Lowenstein.
Lowenstein
foi o analista de Lacan; sua análise com ele durou sete anos.
Kris
foi o analista do homem dos miolos frescos, célebre caso que Lacan comenta em
“A DIREÇÃO DO TRATAMENTO”.
Quanto
a Hartmann... bom, Lacan morreu internado na Clínica Hartmann. Um Hartmann nada
tem a ver com o outro, mas, para quem é lacaniano, estas coisas pesam...
A
psicologia do ego tornou explícita uma tendência que grassava na IPA: a de
valorizar o ego e os processos conscientes em detrimento do inconsciente e da
pulsão. A isso se opôs com veemência o retorno lacaniano a Freud.
O
retorno à primazia do inconsciente está resumido numa frase, sobre a qual muita
tinta já se gastou: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”.
Inconsciente concebido não como um conteúdo, mas como uma hiância (ou um
lugar), e regido por duas operações principais: a metáfora (condensação) e a
metonímia (deslocamento).
Sua
expressão clínica é dada pelas formações do inconsciente: sonhos, atos falhos,
chistes, sintomas.
Contratransferência X
Desejo do analista
Entre
os pós-freudianos, uma tendência assumiu importância notável: a de mudar o
estatuto da contratransferência, passando a considerá-la como bússola do
tratamento. Um dos expoentes dessa tendência foi Heinrich Racker. De que
maneira isso aconteceria? Suponha-se que um analista fique com raiva de seu
analisante. Isso seria indicativo de uma transferência agressiva. Se o analista
experimenta atração sexual, isso apontaria uma transferência sedutora. Se o
analista fica com sono, e ameaça dormir, é sinal de uma transferência que visa
colocá-lo fora de combate.
Ou
seja: a bússola do tratamento estaria baseada numa imaginarização, num
espelhismo, apoiados no par transferência X contratransferência.
Lacan
faz oposição radical a essa postulação. Para ele, como para Freud, a
contratransferência é, sim, uma reação à transferência, mas é algo que perturba
o andamento de uma psicanálise.
No
lugar da contratransferência, como bússola da psicanálise, Lacan cunha novo
conceito: o de desejo do analista, cujo
sintagma mais próximo é desejo de saber.
Como se vê, de novo um salto do imaginário ao simbólico. Importa assinalar que
o saber que está em jogo é o saber inconsciente: quer dizer, aquele capaz de
decifrar o enigma do sintoma.
Análise das resistências X
Interpretação
Se
existe a primazia do eu, se ele está no centro da análise, o principal a ser
feito é trabalhar as defesas, ou seja, as resistências que ele oferece ao que
está subjacente. Tal a proposta dos pós-freudianos.
Lacan
contrapõe: numa análise, a resistência não está do lado do analisante, está do
lado do analista. Dizendo o mesmo em outras palavras: se o analisante resiste,
ele está no seu papel; se o analista resiste, porém, está nele o entrave de uma
análise.
Não
é papel do analista centrar-se nas defesas. Seu papel é: interpretar.
E
o que é interpretar, no primeiro momento de Lacan?
É
decifrar. É desvendar o sentido oculto do sintoma, ou da formação do
inconsciente. É transpor a barra que separa o enigma do sintoma (ou o sonho) e
seu sentido latente.
A
interpretação pode fazer desaparecer o sintoma.
O
sentido latente, porém, traz um outro significante, um novo enigma...
Ser do analista X
Falta-de-ser do analista
Outra
tendência marcante entre os pós-freudianos: a de considerar o psicanalista como
uma pessoa. Ou enquadre é de uma relação interpessoal, ou intersubjetiva.
Enquadre que faz apelo a concepções humanistas, ou, na melhor das hipóteses,
existencialistas.
Lacan,
quanto a isso, é rude: o que importa não é o ser do analista, mas, sim, sua
falta-de-ser. Em outras palavras, o analista não deve se apresentar como
pessoa; pelo contrário, deve esquivar-se disso, deve pagar com sua pessoa.
Abrir um parêntesis em seu julgamento moral, em seus valores éticos, em suas
preferências pessoais. Ocultar seus dados pessoais e suas inclinações políticas
ou religiosas, fazendo semblante, ou transformando-se numa tela, onde será
projetado o atributo da transferência.
Reeducação emocional X
Transmutação do sujeito
Na
bojo da proposta do analista como pessoa está a ideia de reeducação emocional.
Ideia que concebe a análise como pedagogia. Isso tem implicações sérias.
Significa admitir que uma nova relação possa corrigir os erros de uma relação
pregressa. De novo, o espelhismo, ou a abordagem imaginarizada: uma ação e
reação diferente pode retificar uma ação e reação problemática.
Lacan
é, decididamente, antipedagogo. Não se trata de corrigir mediante nova relação.
Trata-se de interpretar e trabalhar (perlaborar).
A
reeducação emocional propõe mudança gradativa, contínua, quantitativa.
A
proposta psicanalítica implica transmutação do sujeito, ou mudança subjetiva: o
que exige ruptura, mudança qualitativa.
Relação de objeto X
Relação com o objeto
Os
pós-freudianos teorizam de diferentes maneiras a relação de objeto. Um ponto a
ser considerado: para Freud a pulsão sexual buscaria primariamente satisfação;
para alguns autores, buscaria primariamente objeto. A ênfase no objeto pode ser
estendida, até conceber a psicanálise como relação simétrica, entre duas
pessoas, ou entre dois sujeitos, numa interação terapêutica.
Para
Lacan, o analista não é uma pessoa, nem um sujeito, é simplesmente um ator que
se apaga enquanto pessoa ou enquanto sujeito. Trata-se de relação assimétrica.
Mais
precisamente, o analista é ator que faz semblante (simulacro) de objeto. A
relação analítica, por conseguinte, é peculiar, diferente de toda e qualquer
relação existente.
Na
tela dessa relação peculiar, é tecido e desenvolvido o drama da análise, sob o
espectro da transferência.
Não
uma relação de objeto, mas uma relação com o objeto.
Frustrar X
Sustentar a demanda
Freud
costuma dizer que uma análise se faz sob abstinência. Os pós-freudianos
entenderam que os analistas devem frustrar a demanda dos analisantes. Ou seja:
que uma análise deve acontecer sob atmosfera de frustração.
Houve
quem discordasse. Ferenczi, por exemplo, defendeu a ideia de um papel ativo na
transferência, com o analista gratificando o analisante em certos casos. Freud
discordou dele, mas, posteriormente, outros pós-freudianos retomaram a proposta
da postura ativa do analista (no sentido da gratificação), desenvolvendo
técnicas como, por exemplo, a da maternagem.
Para
Lacan, a abstinência freudiana não implicaria frustrar nem gratificar, possibilidades
que se inserem, uma vez mais, numa perspectiva imaginarizada. Trata-se, isso
sim, de sustentar a demanda, ou seja, de tentar elevá-la a outro patamar, que
não seja o da satisfação imediata. Operação que abriria campo para a interpretação
e para o trabalho da análise.
Imaginarizar o desejo X
Tomar o desejo ao pé da letra
Na
IPA, a hegemonia da psicologia do ego não foi absoluta. A psicanálise kleiniana
seria um exemplo de divergência. Os kleinianos sempre privilegiaram a abordagem
do inconsciente e sempre consideraram a pulsão de morte. Há, porém, um aspecto
importante. Sua concepção de inconsciente é imaginarizada, assim como sua concepção
de fantasia.
Embora
reconheça a dimensão imaginária da fantasia e do desejo, Lacan prioriza sua
dimensão simbólica. A fantasia pode ser condensada numa frase. E o desejo deve
ser tomado ao pé da letra.
Todo
um seminário é dedicado ao desejo e sua interpretação. A conclusão é uma frase
que resume todo o percurso: o desejo é sua interpretação.
Fim de análise:
Identificação com o analista X
Identificação com o nome próprio
Lacan
comenta que a IPA promoveu uma obsessivação do tratamento psicanalítico, ao
estabelecer um standard do que seria uma psicanálise
propriamente dita. Estão predeterminados a frequência das
sessões, a duração de cada sessão, o contrato analítico, os procedimentos
técnicos mais importantes, a forma de terminação.
Será
dado destaque a um aspecto. O final de análise é concebido como uma
identificação com o analista, ou mais precisamente, uma identificação com o ego
do analista, ou mais precisamente ainda, com o ego forte do analista. Como se
vê, por onde quer que se caminhe reencontra-se a estrutura: imaginarização da
psicanálise.
Lacan
concebe o final de análise de diferentes maneiras, ao longo de seu ensino. Em
“Variantes do tratamento padrão”, texto publicado em 1955, o fim de análise é
formulado como identificação com o nome próprio. Na “DIREÇÃO DO TRATAMENTO”
Lacan diz que a interpretação aponta o horizonte desabitado do ser, ou o nada
que é o ser (des-ser). As duas formulações não são incompatíveis, uma vez que,
nesse momento em que é nítida a influência hegeliana, a palavra é tomada como a
morte da coisa. Também aqui, reencontra-se a estrutura: significantização da
psicanálise.
Para
concluir esta parte, uma confirmação: é possível opor, passo a passo, a
psicanálise lacaniana à pós-freudiana, ainda que se considere que os pós-freudianos
não formam um conjunto homogêneo, mas uma colcha de retalhos.
Lacan,
por sua vez, é autor complexo, que se reformula várias vezes ao longo de seu
ensino. Por muitas razões, também os lacanianos se pluralizaram, também eles
passaram a constituir uma colcha de retalhos.
De
vez em quando, alguém me pergunta: Será que ainda é possível, nos dias atuais,
falar em psicanálise? Haveria ainda alguma consistência nesse termo?
Tenho
uma resposta. Sim, é possível. O caminho passa por um critério epistemológico e
por um critério metodológico.
Critério
epistemológico: só há psicanalista freudiano. Diferentes leituras, diferentes
recortes, mas a base é Freud. Seu texto é, por assim dizer, a nossa Bíblia. O
campo epistemológico aberto por Freud reune os psicanalistas.
Critério
metodológico: a formação psicanalítica é constituída por um tripé. Em primeiro
lugar, o mais importante: a própria análise.
Em segundo lugar, a formação teórica,
ou o que os lacanianos chamam de matema.
E em terceiro lugar, a supervisão ou
controle. Não há psicanálise minimamente defensável que não tenha sua
formação baseada nesse tripé.
O percurso de uma análise
Freud
compara o percurso de uma análise a uma partida de xadrez. O início e o fim são
bem definidos, mas o meio é inteiramente imprevisível, devido a um número
infinito de situações possíveis.
A
procura de uma análise se faz a partir de um sofrimento, o sofrimento do
sintoma, também chamado de gozo do sintoma. Mas o sintoma não é só sofrimento,
é também enigma; ou seja, faz questão para o sujeito, que não sabe por que
sofre.
Se
o interesse é apenas conseguir alívio, não há demanda de análise, há apenas
demanda terapêutica. A demanda de análise ocorre quando o sujeito, mais do que
alívio, quer saber sobre o sintoma.
E
mais: é preciso que o sujeito atribua ao analista um saber sobre seu sintoma,
fazendo dele um sujeito suposto saber. Algo que se constata a partir do
significante da transferência.
O
saber de que se trata é o saber inconsciente do próprio sujeito, um saber que
não se sabe. Se a notação do enigma é S1, a notação do saber é S2.
Situado
o analista como sujeito suposto saber, a interpretação consiste numa
decifração, que desvela o enigma do sintoma. Ou seja, o saber inconsciente, de
modo retroativo, aponta o sentido latente do sintoma, desfazendo o enigma.
Vinheta: Uma
jovem senhora é indicada por um gastrenterologista devido a náusea persistente
para a qual não foi encontrada nenhuma causa orgânica. Convidada a falar, suas
associações trazem um cruzeiro pelo Caribe que fez em companhia do marido. Numa
das ilhas paradisíacas recebe visita de seus “pais” e de seu “irmão” americano:
morou com eles durante um ano de intercâmbio cultural, quando manteve com o “irmão”
um amor platônico. Na ilha, sai a sós com ele, quando então trocam declarações
amorosas, abraços e beijos. Na continuação da viagem, experimenta sensações
fortes e passa mal com náuseas (enjoo marítimo). Na volta a Belo Horizonte,
sente ímpetos de ligar para o “irmão”, mas entra em conflito, quando se lembra
do marido. De
forma irônica, comenta: “O meu drama amoroso, doutor, é um drama bilingue”. Interpreto: ––O seu sintoma é náusea: podemos separar
essa palavra em duas: NAU e SEA; o que você acha? Ela ri e responde: “Com certeza, não há o que
contestar...” O sintoma não mais retorna, após ser retroativamente
ressignificado por meio da interpretação.
O enigma do sintoma, portanto, é da ordem do
significante, e a decifração põe em jogo um outro significante, que estava
latente no discurso do analisante. Passa-se de significante a significante: por
esse motivo, é mais preciso dizer que, em vez de desaparição, há transmutação
do sintoma.
O
que foi trazido até agora acontece sob a égide do sujeito suposto saber,
semblante (simulacro) que o analista sustenta e que prevalece no início da
análise.
Até
agora, a ênfase recaiu sobre o enigma do sintoma. Dirigindo o foco para o gozo,
verifica-se que a mutação sintomática traz alívio, mas o gozo não se extingue,
ele se desloca. Quando uma análise ultrapassa sua fase inicial, a importância
do sintoma cede lugar cada vez mais à importância da fantasia.
Em
outras palavras, no início da análise está mais presente a relação do sujeito
com o significante, ou a relação do sujeito com o enigma de seu sintoma, ao
passo que, quando a análise avança, assume maior relevo a relação do sujeito
com o objeto, ou a relação do sujeito com seu desejo e seu gozo.
Da
mesma forma, se no início o analista faz semblante de suposição de saber, em
etapas posteriores da análise a convocação do analista é para fazer semblante
de objeto. No primeiro caso, como foi visto, a interpretação é uma decifração.
E no segundo caso?
O
analista como semblante de objeto é ator de um percurso da análise que Lacan
denominou travessia da fantasia, que
é a melhor definição do final de análise no primeiro ensino. O que é a
travessia da fantasia? Questão complexa, aqui será apenas introduzida.
Se
o sintoma concerne interpretação, o mesmo não se pode dizer da fantasia. Não se
interpreta a fantasia. A operação própria à fantasia é a construção.
Em
seu artigo “Construções em análise”, Freud faz excelente diferenciação entre
uma e outra, utilizando a metáfora do arqueólogo. A interpretação é comparada
ao trabalho do arqueólogo quando ele retira uma peça do soterramento. Algo que
estava submerso vem então à tona, revelando um passado desaparecido. A
construção, por outro lado, acontece quando o arqueólogo descobre não uma peça,
mas um fragmento mínimo, um caco, e, a partir daí, é necessário o trabalho de
reconstituir o objeto perdido.
A
fantasia, por conseguinte, não é um achado, não é uma descoberta, é uma
construção do analista e do analisante em torno de um vazio de sua história.
Geralmente uma frase, cujo paradigma poderia ser: “Uma criança está sendo espancada”.
A
fantasia tem a ver com o desejo, tem a ver com o gozo. O desejo desconhece sua
verdade, e o segredo da verdade do desejo é o gozo. Como esclarecer esse
aspecto? Para Freud, a pulsão é sempre satisfeita. Já o desejo tem origem no não, numa interdição fundamental. O
desejo é estruturalmente insatisfeito, mas busca satisfação, ainda que
interditada. Se o desejo fosse plenamente satisfeito, equivaleria à pulsão.
A
fantasia é o que há de mais avançado no campo do significante em relação ao gozo.
Como deslindar de forma mínima sua travessia? Trata-se, segundo Miller, de nova
aliança com a pulsão. Implica necessariamente duas coisas. A primeira é o
reconhecimento da perda inerente ao impossível do desejo (-). A segunda é o
reconhecimento do ganho inerente ao possível da pulsão e sua satisfação (a).
Sugestões
bibliográficas:
Jacques Lacan (1998) A direção do tratamento e os princípios de
seu poder (1958). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Jacques-Alain Miller (1987)
Duas dimensões clínicas: sintoma e
fantasia. In: Percurso de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.