(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
Como foi visto, Lacan sempre deu ênfase à ideia de
estrutura, embora, ao longo de seu ensino, tenha mudado consideravelmente a
maneira de concebê-la.
Quanto a isso, é possível distinguir três momentos
principais em seu percurso.
No primeiro momento, a estrutura é a estrutura da
linguagem. A axiomática inclui a primazia do Outro, ou do simbólico, a
hegemonia do par significante-significado, tendo como operações fundamentais a
metáfora e a metonímia.
No segundo momento, a estrutura é a estrutura lógica
(matema). A ênfase desloca-se para o cruzamento do simbólico com o real
(litoral), a hegemonia é do par signo-sentido e as operações fundamentais são a
alienação e a separação.
No terceiro momento, a estrutura é a estrutura topológica
(nó borromeu). A nova axiomática traz a primazia do Um, ou do real, a hegemonia
é do par sinthoma-gozo e as operações fundamentais são o enodamento e o
desenodamento.
A estrutura muda, mas se mantém. O mesmo ocorre com o
conceito subsidiário de estrutura clínica. É importante verificar, entretanto,
o que se modifica quando se passa do primeiro para o último Lacan.
Se o primeiro Lacan é uma releitura de Freud, o último
Lacan é um desenlace de Freud. É um mais além.
É possível, num exame cuidadoso, tal como foi realizado
por Miller, identificar uma viragem ou desdobramento no último Lacan, quando,
por exemplo, a ênfase se desloca da estrutura lógica para a topológica. É o que
tem sido designado como ultimíssimo Lacan [1].
Em suma, trata-se de ensino que avança com modificações
pronunciadas, que inverte seus próprios axiomas, e que exige leitura
epistemológica cuidadosa para não cair na inconsistência ou na trivialização.
Para não recuar diante do desafio, e ao mesmo tempo
manter as questões dentro de limites operacionais, a ênfase será dada à
oposição entre o primeiro e o último Lacan.
Em que aspectos fundamentais Lacan mudou ao longo de seu
ensino, no que tange à formalização e à própria ordenação da experiência
analítica?
PRIMEIRO LACAN
|
ÚLTIMO LACAN
|
Axiomática
Primazia
do Outro
(O Um a
partir do Outro)
Primazia
do significante
O Outro
do Outro
|
Mudança de axiomática
Primazia
do Um
(O Outro
a partir do Um)
Primazia
do gozo
O Outro
não existe
|
Estrutura
Linguagem
Palavra
Letra
|
Aparelhos
Lalíngua
(lalangue)
Aparola (l’apparole)
Lituraterra
(lituraterre)
|
Inconsciente estrutura
Querer
dizer
Isso
fala
|
Inconsciente usina
Querer
gozar
O gozo
fala
|
Sintoma metáfora (symptôme)
Formação
do inconsciente
Significante/significado
S1
– S2 (cadeia significante)
Sujeito
|
Sintoma gozo (sinthome)
Acontecimento
de corpo
Signo/sentido
S1
(estatuto do Um só, Há do Um)
Parlêtre
|
Primeira clínica
NP: sim
ou não
Foraclusão
localizada
Estruturalista
Descontinuista
Categorial
|
Segunda clínica
NP ≡ Σ
Foraclusão generalizada
Estrutura borromeana
Continuista
Elástica
|
Interpretação (I)
Decifração
Isso
quer dizer outra coisa
Ilimitada
Assegura
o sentido
|
Interpretação (II)
Corte
Isso não
quer dizer nada
Faz
limite ao sentido
Assegura
o real do gozo
|
Antes de prosseguir, uma advertência que Miller tem feito
várias vezes, com diferentes termos, durante seus cursos. Não se deve conceber
os termos do primeiro e do último Lacan como uma teoria derrotando a outra.
Trata-se, melhor comparando, de algo que evoca o que Freud propôs a respeito da
neurose, a saber, de uma superposição e de uma acumulação de teorias que se
encontram de certa forma co-presentes [2].
Em outra ocasião, a tomada de posição foi mais enfática.
“Quando Lacan disse isso? Você cita
Lacan, mas, de que época? Esta advertência que adquiriu
forma cronológica é uma degeneração perigosa que levaria a pensar que o ensino
de Lacan deve ser considerado em termos de progresso e que, por exemplo, a
mudança de perspectiva introduzida sobre o sintoma eliminaria as perspectivas
anteriores.
É
verdade que Lacan falava de seu avanço, mas isso não equivale a um progresso.
Avançar é seguir girando ao redor do impossível de dizer, é seguir tentando
cercá-lo, ainda que se saiba que a própria escolha da perspectiva implica uma
perda em relação ao que se trata de demonstrar”[3].
Aspectos fundamentais da
formalização da experiência analítica
Mudança de axiomática. No
último Lacan, a mudança de axiomática leva à primazia do Um. Há um rebaixamento
do simbólico (pelo real), do significante (pelo signo), do sentido (pelo objeto
a), do saber (pelo fazer). A
linguagem torna-se aparelho de gozo, seu ponto de partida é um querer gozar que
não visa primariamente à comunicação. A frase que resume o último Lacan é “A
relação sexual não existe”. O Outro é incompleto (falta um significante no
Outro) e inconsistente (possui um elemento não significante). Ou seja, tem
estrutura de ficção e não passa de semblante (o Outro não existe).
Aparelhos. Em
vez de língua, lalíngua (lalangue). Quando
se toma como ponto de partida o gozo, é preciso pensar a palavra como algo que
não se dirige ao Outro. Daí a invenção de lalíngua, ou língua materna. Lalíngua
é algo singular, incomparável com qualquer outra, e que só se sustenta no
mal-entendido, só se nutre dele. Aqui, o fenômeno essencial não é o sentido, é
o gozo. O inconsciente está feito de lalíngua e “A linguagem é uma elucubração
de saber sobre lalíngua”.
Em vez de fala (parole),
aparola (l’apparole). Quando se toma
a pulsão como o motor do ser falante, fala não é mais termo adequado (ela toma
a pulsão a partir da palavra). O conceito de aparola situa a linguagem como
aparelho de gozo; não se dirige ao Outro, não é diálogo, é monólogo. Aqui não
há comunicação, há autismo, autismo do gozo [4].
Letra, no primeiro Lacan, é algo essencialmente do
registro do simbólico. Lituraterra: a letra no litoral, no limite, quer dizer,
no cruzamento do simbólico com o real: letra de gozo (ou fixão de gozo). Tudo
está dentro do mesmo movimento: do simbólico ao real, do significante ao gozo,
da estrutura da linguagem à estrutura lógica ou topológica.
Inconsciente: usina
de gozo. No último Lacan, com a primazia do Um, o ponto de partida é um
querer gozar, e é mais apropriado tratar o inconsciente não como estrutura, mas
como uma usina de gozo. Aqui, a pulsão não está estruturada como demanda, não
está tomada a partir da fala: pelo contrário, o gozo fala.
Sintoma gozo (sinthome). O sintoma gozo é um
acontecimento de corpo que implica não a cadeia significante, mas um
significante fora da cadeia, tomado como letra de gozo. Contexto no qual está
presente não o sujeito mortificado pela sua falta de ser, mas o parlêtre que fala seu gozo.
Segunda clínica de
Lacan. Na última parte do ensino de Lacan há uma desvalorização do
Nome-do-Pai, que se traduz em sua pluralização: nomes-do-pai. Além disso,
estabelece-se uma equivalência entre o Nome-do-Pai e o sintoma: tanto um como o
outro pode enlaçar os três registros na cadeia borromeana. Miller afirma que
existe uma fórmula fundamental na segunda clínica:
NP
≡ Σ
Ocorre, por assim dizer, uma generalização do
Nome-do-Pai, já que, na psicose, o sintoma pode fazer as vezes dele. Há, por
outro lado, uma generalização da foraclusão, ou uma foraclusão fisiológica da
espécie humana, que atinge, portanto, a todos, e cujo paradigma é a foraclusão
do significante do sexo feminino.
É claro que mudanças de tal importância, que mexem com o
alicerce das construções teóricas, têm consequências na clínica. Uma delas: uma
continuidade entre as estruturas clínicas. Por exemplo: neuróticos mais
parecidos com psicóticos, e psicóticos mais parecidos com neuróticos.
O que não abala as estruturas clínicas. Miller, a esse
respeito, é taxativo. Para ele, não existe meia foraclusão: a foraclusão existe
ou não existe. O que permite a continuidade são as compensações neopaternas [5].
Do mesmo modo, o diagnóstico de psicose ordinária não dispensa
a necessidade de definir a forma clínica. No caso paradigmático de Joyce, por
exemplo, além de psicose ordinária, a forma clínica: esquizofrenia.
Outra diferença: enquanto que a primeira clínica é
categorial, a segunda clínica é elástica. É possível, mediante suplências,
encontrar sintomas conversivos ou obsessivos em psicóticos. Da mesma maneira, a
partir da foraclusão generalizada, encontrar em neuróticos passagens ao ato,
delírios ou alucinações. Os sintomas tornaram-se transestruturais.
Interpretação II. O
que há de novo na interpretação, no último Lacan? Há várias maneiras de
respondê-lo. O essencial é isto: enquanto no primeiro Lacan a interpretação tem
efeito de sentido, no último Lacan tem efeito de furo. O efeito de sentido
verifica-se no cruzamento do simbólico com o imaginário; o efeito de furo no
cruzamento do simbólico com o real. O efeito de furo faz ressoar não um
sentido, mas uma significação vazia, que aponta para o gozo, ou para a
referência assexuada do objeto a.
Vinheta:
Uma jovem senhora está em
análise:
— O
meu casamento acabou. Durou pouco. O pior, entretanto, é isto: estou de volta à
casa de meus pais. Eu, minha mãe, meu pai e meu filho numa mesma casa... Aquilo
ali é um hospício. Minha mãe é uma louca. Quando quer me agredir, é deste
jeito: —Você é uma puta! Você é uma sem-vergonha! Você só serve para arruinar a
nossa vida!— É duro ouvir isso da própria mãe. Sou o resultado dessa violência.
Meu pai, às vezes, é diferente de minha mãe, é meu amigo. O mais comum, porém,
é ele me agredir, com os mesmos termos.
Analista:
— Você não é simplesmente o
resultado de seus pais.
Na próxima sessão, ela continua:
— Vim para dizer-lhe o
seguinte. Recebi, ontem, proposta de
novo emprego. Fazendo o mesmo que faço hoje e que gosto muito, mas ganhando
simplesmente o dobro!
Analista:
— É uma boa notícia!
Ela responde:
—
Aí
é que está o problema. O grande
problema. Fiz as contas: é possível agora
eu sair da casa dos meus pais, ter a minha casa, morar lá com o meu filho. Por
mais que eu considere isto o supra-sumo do que queria na vida, envergonhei-me
ao pensar, de repente, que eu tinha medo disso, que eu gostaria, na verdade, de
continuar morando na casa de meus pais, naquele hospício...
Nesse momento, o analista se
levanta, sem dizer uma só palavra e se dirige à porta de sua sala (ato com que
assinala o fim de uma sessão). Ela demora um pouco, mas entende o gesto,
levantando-se do divã, também em silêncio, e deixando a sala.
Corte que limita o sentido e
aponta o gozo.
Neurose e psicose
A
relação entre a segunda clínica de Lacan e a primeira não é de anulação, mas de
modulação. Neurose e psicose, por exemplo, mantêm-se como estruturas,
diferem-se quanto aos aspectos fundamentais, mas aproximam-se em aspectos
superestruturais.
Considere-se,
primeiro, a neurose. Cabe, também aqui, a ideia de desencadeamento, embora
concebida com outros termos. E têm lugar várias manifestações antes restritas
ao terreno da psicose, tais como passagens ao ato, delírios, alucinações, gozo
autista.
Exemplos.
Laurent comenta uma epidemia histérica contemporânea nos Estados Unidos, que
ocorre em escala relativamente grande e que é estudada como tal: gira em torno
de pessoas que declaram terem sido raptadas por extraterrestres [6].
Pode
ainda ser lembrado que se verifica nos neuróticos, na época contemporânea, uma
tendência ao gozo autista da solidão estrutural, ou seja, ao estado nativo do
gozo, que desse modo deixa de se entrelaçar com o discurso do Outro e de se
inscrever no laço social.
A semelhança fenomênica entre
neurose e psicose na segunda clínica de Lacan é devida, também, ao fato dos
sintomas contemporâneos (os chamados novos sintomas) serem transestruturais,
quer dizer, não serem específicos de determinada estrutura: depressão, pânico,
toxicomania, anorexia, bulimia, etc.
Do lado da psicose, como já foi
observado, pode aparecer vários sintomas antes característicos de outras
estruturas: conversões, rituais obsessivos, traços perversos.
As considerações precedentes não
significam, todavia, que caiu por terra a distinção entre neurose e psicose. A
esse respeito, Miller é claro: “Não digam simplesmente que é uma psicose
ordinária; devem ir mais longe e reencontrar a clínica psiquiátrica e
psicanalítica clássica” [7].
Se é uma psicose, a indicação é de que seja relacionada a categorias
nosográficas clássicas (paranoia, esquizofrenia, melancolia, mania).
Se não é por meio dos aspectos
fenomênicos, como deve ser feita a distinção entre neurose e psicose?
Trata-se
de distinção mais fina, em que a estrutura se reconhece pelo funcionamento
.
Alguns aspectos podem ser apontados.
Na neurose, uma relação como Nome-do-Pai, algumas provas da relação com a
castração, com a impotência e a impossibilidade, uma diferenciação nítida entre
os significantes e as pulsões, um supereu claramente traçado [8].
Na psicose ordinária, Miller vai
buscar, nos termos de Lacan, “uma desordem provocada na junção mais íntima do
sentimento de vida do sujeito” [9]. E
assinala três pontos cruciais a ser considerados. A relação do sujeito com o
Outro Social, com o Outro corporal e como Outro subjetivo.
Na
relação com o Outro Social (função social, profissão) trabalha três
possibilidades: ligamento ou conexão (branchement),
desligamento ou desconexão (débranchement)
e religamento ou reconexão (rebranchement).
Na
relação do sujeito com o Outro corporal a desordem mais íntima é a brecha ou o
fosso no qual seu corpo se desfaz, e o que o leva a inventar laços artificiais
para prendê-lo ou trazê-lo de volta. Por exemplo, certos usos do peircing e da tatuagem.
Na relação com o Outro subjetivo
ressalta-se a experiência do vazio ou vacuidade do psicótico ordinário, que o
leva a uma identificação real com o objeto a
enquanto dejeto, transformando-o num rebotalho [10].
Conclusão
O estruturalismo do primeiro Lacan foi uma tentativa de
superar a proposta de dualismo epistemológico, de dualismo científico: ciências
da natureza, matematizáveis, e ciências da cultura, não matematizáveis. Para o
estruturalismo —a linguística seria paradigma— ciências da cultura também
seriam de certa forma matematizáveis.
Lacan, como foi visto, acreditou no estruturalismo e na
matematização. Em certo momento, porém,
o vislumbre: o estruturalismo passará, mas a estrutura não.
De fato o estruturalismo passou; em relativamente pouco
tempo, já não mais existia. Mas, para Lacan, a estrutura não.
Houve, sim, transmutação: estrutura da linguagem...
Estrutura lógica-matemática... A lógica como ciência do real.
No
ultimíssimo Lacan a lógica foi também desacreditada: não há ciência do real.
Nesse momento, estrutura é o nó borromeu, estrutura não formalizada do ponto de
vista matemático.
Em
suma: Lacan desiste da psicanálise como ciência, embora considere que ela só
seja possível a partir do discurso científico.
Bibliografia
sugerida
Leitura
resumida:
Miller, J.-A. O monólogo da apparola. In: Opção Lacaniana
nº 23, dezembro 1998, 68-76. São Paulo: Eólia.
Miller, J.-A. (2012) Efeito
do retorno à psicose ordinária. In: A psicose ordinária. Belo Horizonte:
Escola Brasileira de Psicanálise. Scriptum.
Leitura
avançada:
Miller, J.-A. (2012) A
psicose ordinária. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise.
Scriptum.
NOTAS
[1] Miller, J.-A. Orientation lacanienne III, 9. Quatrième
séance du Cours (mercredi 6 décembre 2006).
[2] Miller, J.-A. Orientation lacanienne III, 9. Troisième séance du Cours (mercredi, 29 novembre 2006).
[3]
Miller, J.-A. (1998) Los signos Del goce,
p. 335. Buenos Aires: Paidós.
[4]
Miller, J.-A. Idem, p. 72.
[5] Miller, J.-A. La forclusion. Conférence au Groupe de Recherches. Entrevue
nª 5. 24 septembre 1982, p.18.
[6]
Miller, J.-A. & Laurent, E. (2005) El
Otro que no existe y sus comités de ética, p. 43. Buenos Aires: Paidós.
[7]
Miller, J.-A. (2012) Efeito do retorno à psicose ordinária. In: A
psicose ordinária, p. 412. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise.
Scriptum.
[8]
Miller, J.-A. (2012), Idem, p. 417.
[9]
Miller, J.-A. (2012) Ibidem, p. 411.
[10]
Miller, J.-A. (21012) Ibidem, p. 415.