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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

X. As estruturas clínicas no último Lacan



(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)



            Como foi visto, Lacan sempre deu ênfase à ideia de estrutura, embora, ao longo de seu ensino, tenha mudado consideravelmente a maneira de concebê-la.

            Quanto a isso, é possível distinguir três momentos principais em seu percurso. 

            No primeiro momento, a estrutura é a estrutura da linguagem. A axiomática inclui a primazia do Outro, ou do simbólico, a hegemonia do par significante-significado, tendo como operações fundamentais a metáfora e a metonímia.

            No segundo momento, a estrutura é a estrutura lógica (matema). A ênfase desloca-se para o cruzamento do simbólico com o real (litoral), a hegemonia é do par signo-sentido e as operações fundamentais são a alienação e a separação.

            No terceiro momento, a estrutura é a estrutura topológica (nó borromeu). A nova axiomática traz a primazia do Um, ou do real, a hegemonia é do par sinthoma-gozo e as operações fundamentais são o enodamento e o desenodamento.

            A estrutura muda, mas se mantém. O mesmo ocorre com o conceito subsidiário de estrutura clínica. É importante verificar, entretanto, o que se modifica quando se passa do primeiro para o último Lacan. 

            Se o primeiro Lacan é uma releitura de Freud, o último Lacan é um desenlace de Freud. É um mais além. 

            É possível, num exame cuidadoso, tal como foi realizado por Miller, identificar uma viragem ou desdobramento no último Lacan, quando, por exemplo, a ênfase se desloca da estrutura lógica para a topológica. É o que tem sido designado como ultimíssimo Lacan [1].

            Em suma, trata-se de ensino que avança com modificações pronunciadas, que inverte seus próprios axiomas, e que exige leitura epistemológica cuidadosa para não cair na inconsistência ou na trivialização.

            Para não recuar diante do desafio, e ao mesmo tempo manter as questões dentro de limites operacionais, a ênfase será dada à oposição entre o primeiro e o último Lacan. 

            Em que aspectos fundamentais Lacan mudou ao longo de seu ensino, no que tange à formalização e à própria ordenação da experiência analítica?
           



PRIMEIRO LACAN


ÚLTIMO LACAN

Axiomática
Primazia do Outro
(O Um a partir do Outro)
Primazia do significante
O Outro do Outro


Mudança de axiomática
Primazia do Um
(O Outro a partir do Um)
Primazia do gozo
O Outro não existe

Estrutura
Linguagem
Palavra
Letra


Aparelhos
Lalíngua (lalangue)
Aparola (l’apparole)
Lituraterra (lituraterre)

Inconsciente estrutura
Querer dizer
Isso fala

Inconsciente usina
Querer gozar
O gozo fala


Sintoma metáfora (symptôme)
Formação do inconsciente
Significante/significado
S1 – S2 (cadeia significante)
Sujeito


Sintoma gozo (sinthome)
Acontecimento de corpo
Signo/sentido
S1 (estatuto do Um só, Há do Um)
Parlêtre

Primeira clínica
NP: sim ou não
Foraclusão localizada
Estruturalista
Descontinuista
Categorial

Segunda clínica
NP Σ
Foraclusão generalizada
Estrutura borromeana
Continuista
Elástica


Interpretação (I)
Decifração
Isso quer dizer outra coisa
Ilimitada
Assegura o sentido


Interpretação (II)
Corte
Isso não quer dizer nada
Faz limite ao sentido
Assegura o real do gozo

   
         Antes de prosseguir, uma advertência que Miller tem feito várias vezes, com diferentes termos, durante seus cursos. Não se deve conceber os termos do primeiro e do último Lacan como uma teoria derrotando a outra. Trata-se, melhor comparando, de algo que evoca o que Freud propôs a respeito da neurose, a saber, de uma superposição e de uma acumulação de teorias que se encontram de certa forma co-presentes [2].

            Em outra ocasião, a tomada de posição foi mais enfática.
“Quando Lacan disse isso? Você cita Lacan, mas, de que época? Esta advertência que adquiriu forma cronológica é uma degeneração perigosa que levaria a pensar que o ensino de Lacan deve ser considerado em termos de progresso e que, por exemplo, a mudança de perspectiva introduzida sobre o sintoma eliminaria as perspectivas anteriores.
É verdade que Lacan falava de seu avanço, mas isso não equivale a um progresso. Avançar é seguir girando ao redor do impossível de dizer, é seguir tentando cercá-lo, ainda que se saiba que a própria escolha da perspectiva implica uma perda em relação ao que se trata de demonstrar”[3].

            Aspectos fundamentais da formalização da experiência analítica

Mudança de axiomática. No último Lacan, a mudança de axiomática leva à primazia do Um. Há um rebaixamento do simbólico (pelo real), do significante (pelo signo), do sentido (pelo objeto a), do saber (pelo fazer). A linguagem torna-se aparelho de gozo, seu ponto de partida é um querer gozar que não visa primariamente à comunicação. A frase que resume o último Lacan é “A relação sexual não existe”. O Outro é incompleto (falta um significante no Outro) e inconsistente (possui um elemento não significante). Ou seja, tem estrutura de ficção e não passa de semblante (o Outro não existe). 

Aparelhos. Em vez de língua, lalíngua (lalangue). Quando se toma como ponto de partida o gozo, é preciso pensar a palavra como algo que não se dirige ao Outro. Daí a invenção de lalíngua, ou língua materna. Lalíngua é algo singular, incomparável com qualquer outra, e que só se sustenta no mal-entendido, só se nutre dele. Aqui, o fenômeno essencial não é o sentido, é o gozo. O inconsciente está feito de lalíngua e “A linguagem é uma elucubração de saber sobre lalíngua”.

            Em vez de fala (parole), aparola (l’apparole). Quando se toma a pulsão como o motor do ser falante, fala não é mais termo adequado (ela toma a pulsão a partir da palavra). O conceito de aparola situa a linguagem como aparelho de gozo; não se dirige ao Outro, não é diálogo, é monólogo. Aqui não há comunicação, há autismo, autismo do gozo [4].   

            Letra, no primeiro Lacan, é algo essencialmente do registro do simbólico. Lituraterra: a letra no litoral, no limite, quer dizer, no cruzamento do simbólico com o real: letra de gozo (ou fixão de gozo). Tudo está dentro do mesmo movimento: do simbólico ao real, do significante ao gozo, da estrutura da linguagem à estrutura lógica ou topológica.

            Inconsciente: usina de gozo. No último Lacan, com a primazia do Um, o ponto de partida é um querer gozar, e é mais apropriado tratar o inconsciente não como estrutura, mas como uma usina de gozo. Aqui, a pulsão não está estruturada como demanda, não está tomada a partir da fala: pelo contrário, o gozo fala.

            Sintoma gozo (sinthome). O sintoma gozo é um acontecimento de corpo que implica não a cadeia significante, mas um significante fora da cadeia, tomado como letra de gozo. Contexto no qual está presente não o sujeito mortificado pela sua falta de ser, mas o parlêtre que fala seu gozo.  

            Segunda clínica de Lacan. Na última parte do ensino de Lacan há uma desvalorização do Nome-do-Pai, que se traduz em sua pluralização: nomes-do-pai. Além disso, estabelece-se uma equivalência entre o Nome-do-Pai e o sintoma: tanto um como o outro pode enlaçar os três registros na cadeia borromeana. Miller afirma que existe uma fórmula fundamental na segunda clínica: 

NP ≡ Σ

            Ocorre, por assim dizer, uma generalização do Nome-do-Pai, já que, na psicose, o sintoma pode fazer as vezes dele. Há, por outro lado, uma generalização da foraclusão, ou uma foraclusão fisiológica da espécie humana, que atinge, portanto, a todos, e cujo paradigma é a foraclusão do significante do sexo feminino.

            É claro que mudanças de tal importância, que mexem com o alicerce das construções teóricas, têm consequências na clínica. Uma delas: uma continuidade entre as estruturas clínicas. Por exemplo: neuróticos mais parecidos com psicóticos, e psicóticos mais parecidos com neuróticos.

            O que não abala as estruturas clínicas. Miller, a esse respeito, é taxativo. Para ele, não existe meia foraclusão: a foraclusão existe ou não existe. O que permite a continuidade são as compensações neopaternas [5].

            Do mesmo modo, o diagnóstico de psicose ordinária não dispensa a necessidade de definir a forma clínica. No caso paradigmático de Joyce, por exemplo, além de psicose ordinária, a forma clínica: esquizofrenia.

            Outra diferença: enquanto que a primeira clínica é categorial, a segunda clínica é elástica. É possível, mediante suplências, encontrar sintomas conversivos ou obsessivos em psicóticos. Da mesma maneira, a partir da foraclusão generalizada, encontrar em neuróticos passagens ao ato, delírios ou alucinações. Os sintomas tornaram-se transestruturais.

            Interpretação II. O que há de novo na interpretação, no último Lacan? Há várias maneiras de respondê-lo. O essencial é isto: enquanto no primeiro Lacan a interpretação tem efeito de sentido, no último Lacan tem efeito de furo. O efeito de sentido verifica-se no cruzamento do simbólico com o imaginário; o efeito de furo no cruzamento do simbólico com o real. O efeito de furo faz ressoar não um sentido, mas uma significação vazia, que aponta para o gozo, ou para a referência assexuada do objeto a.


            Vinheta: 

Uma jovem senhora está em análise:
 — O meu casamento acabou. Durou pouco. O pior, entretanto, é isto: estou de volta à casa de meus pais. Eu, minha mãe, meu pai e meu filho numa mesma casa... Aquilo ali é um hospício. Minha mãe é uma louca. Quando quer me agredir, é deste jeito: —Você é uma puta! Você é uma sem-vergonha! Você só serve para arruinar a nossa vida!— É duro ouvir isso da própria mãe. Sou o resultado dessa violência. Meu pai, às vezes, é diferente de minha mãe, é meu amigo. O mais comum, porém, é ele me agredir, com os mesmos termos.
            Analista:
— Você não é simplesmente o resultado de seus pais.      
Na próxima sessão, ela continua:
— Vim para dizer-lhe o seguinte.   Recebi, ontem, proposta de novo emprego. Fazendo o mesmo que faço hoje e que gosto muito, mas ganhando simplesmente o dobro!
Analista:
— É uma boa notícia!
Ela responde:
     Aí é que está o problema.  O grande problema.  Fiz as contas: é possível agora eu sair da casa dos meus pais, ter a minha casa, morar lá com o meu filho. Por mais que eu considere isto o supra-sumo do que queria na vida, envergonhei-me ao pensar, de repente, que eu tinha medo disso, que eu gostaria, na verdade, de continuar morando na casa de meus pais, naquele hospício...
Nesse momento, o analista se levanta, sem dizer uma só palavra e se dirige à porta de sua sala (ato com que assinala o fim de uma sessão). Ela demora um pouco, mas entende o gesto, levantando-se do divã, também em silêncio, e deixando a sala.
Corte que limita o sentido e aponta o gozo.


Neurose e psicose

A relação entre a segunda clínica de Lacan e a primeira não é de anulação, mas de modulação. Neurose e psicose, por exemplo, mantêm-se como estruturas, diferem-se quanto aos aspectos fundamentais, mas aproximam-se em aspectos superestruturais. 

Considere-se, primeiro, a neurose. Cabe, também aqui, a ideia de desencadeamento, embora concebida com outros termos. E têm lugar várias manifestações antes restritas ao terreno da psicose, tais como passagens ao ato, delírios, alucinações, gozo autista.

Exemplos. Laurent comenta uma epidemia histérica contemporânea nos Estados Unidos, que ocorre em escala relativamente grande e que é estudada como tal: gira em torno de pessoas que declaram terem sido raptadas por extraterrestres [6]

Pode ainda ser lembrado que se verifica nos neuróticos, na época contemporânea, uma tendência ao gozo autista da solidão estrutural, ou seja, ao estado nativo do gozo, que desse modo deixa de se entrelaçar com o discurso do Outro e de se inscrever no laço social.

A semelhança fenomênica entre neurose e psicose na segunda clínica de Lacan é devida, também, ao fato dos sintomas contemporâneos (os chamados novos sintomas) serem transestruturais, quer dizer, não serem específicos de determinada estrutura: depressão, pânico, toxicomania, anorexia, bulimia, etc.

 Do lado da psicose, como já foi observado, pode aparecer vários sintomas antes característicos de outras estruturas: conversões, rituais obsessivos, traços perversos.

 As considerações precedentes não significam, todavia, que caiu por terra a distinção entre neurose e psicose. A esse respeito, Miller é claro: “Não digam simplesmente que é uma psicose ordinária; devem ir mais longe e reencontrar a clínica psiquiátrica e psicanalítica clássica” [7]. Se é uma psicose, a indicação é de que seja relacionada a categorias nosográficas clássicas (paranoia, esquizofrenia, melancolia, mania).

  Se não é por meio dos aspectos fenomênicos, como deve ser feita a distinção entre neurose e psicose?

Trata-se de distinção mais fina, em que a estrutura se reconhece pelo funcionamento
.
Alguns aspectos podem ser apontados. Na neurose, uma relação como Nome-do-Pai, algumas provas da relação com a castração, com a impotência e a impossibilidade, uma diferenciação nítida entre os significantes e as pulsões, um supereu claramente traçado [8].

Na psicose ordinária, Miller vai buscar, nos termos de Lacan, “uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida do sujeito” [9]. E assinala três pontos cruciais a ser considerados. A relação do sujeito com o Outro Social, com o Outro corporal e como Outro subjetivo.

Na relação com o Outro Social (função social, profissão) trabalha três possibilidades: ligamento ou conexão (branchement), desligamento ou desconexão (débranchement) e religamento ou reconexão (rebranchement).

Na relação do sujeito com o Outro corporal a desordem mais íntima é a brecha ou o fosso no qual seu corpo se desfaz, e o que o leva a inventar laços artificiais para prendê-lo ou trazê-lo de volta. Por exemplo, certos usos do peircing e da tatuagem.

Na relação com o Outro subjetivo ressalta-se a experiência do vazio ou vacuidade do psicótico ordinário, que o leva a uma identificação real com o objeto a enquanto dejeto, transformando-o num rebotalho [10].

            Conclusão

       O estruturalismo do primeiro Lacan foi uma tentativa de superar a proposta de dualismo epistemológico, de dualismo científico: ciências da natureza, matematizáveis, e ciências da cultura, não matematizáveis. Para o estruturalismo —a linguística seria paradigma— ciências da cultura também seriam de certa forma matematizáveis.

            Lacan, como foi visto, acreditou no estruturalismo e na matematização.  Em certo momento, porém, o vislumbre: o estruturalismo passará, mas a estrutura não.

            De fato o estruturalismo passou; em relativamente pouco tempo, já não mais existia. Mas, para Lacan, a estrutura não.

            Houve, sim, transmutação: estrutura da linguagem... Estrutura lógica-matemática... A lógica como ciência do real.

No ultimíssimo Lacan a lógica foi também desacreditada: não há ciência do real. Nesse momento, estrutura é o nó borromeu, estrutura não formalizada do ponto de vista matemático.

Em suma: Lacan desiste da psicanálise como ciência, embora considere que ela só seja possível a partir do discurso científico.





Bibliografia sugerida

Leitura resumida:

Miller, J.-A. O monólogo da apparola. In: Opção Lacaniana nº 23, dezembro 1998, 68-76. São Paulo: Eólia.

Miller, J.-A. (2012)  Efeito do retorno à psicose ordinária. In: A psicose ordinária. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise. Scriptum.

Leitura avançada:

Miller, J.-A. (2012)  A psicose ordinária. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise. Scriptum.



NOTAS


[1] Miller, J.-A. Orientation lacanienne III, 9. Quatrième séance du Cours (mercredi 6 décembre 2006).

[2] Miller, J.-A. Orientation lacanienne III, 9. Troisième séance du Cours (mercredi, 29 novembre 2006). 

[3] Miller, J.-A. (1998) Los signos Del goce, p. 335. Buenos Aires: Paidós.

[4] Miller, J.-A. Idem, p. 72.

[5] Miller, J.-A. La forclusion. Conférence au Groupe de Recherches. Entrevue nª 5. 24 septembre 1982, p.18.

[6] Miller, J.-A. & Laurent, E. (2005) El Otro que no existe y sus comités de ética, p. 43. Buenos Aires: Paidós.

[7] Miller, J.-A. (2012)  Efeito do retorno à psicose ordinária. In: A psicose ordinária, p. 412. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise. Scriptum.

[8] Miller, J.-A. (2012), Idem, p. 417.

[9] Miller, J.-A. (2012) Ibidem, p. 411.

[10] Miller, J.-A. (21012) Ibidem, p. 415.