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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

IX. Estruturas clínicas no primeiro ensino de Lacan



(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)




            O primeiro ensino de Lacan é uma leitura estruturalista de Freud. Lacan lê Freud principalmente à luz da linguística estrutural, com destaque para as  contribuições de Saussure e Jakobson. 

            A frase que resume esse momento é, segundo Miller, “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”. E a formalização mais importante concerne às estruturas clínicas: neurose, perversão e psicose. 

            O que caracteriza cada uma delas é uma operação estruturante específica. No caso da neurose, o recalque (Verdrängung), já reconhecido como tal por Freud. Lacan teve o mérito de identificar, no texto freudiano, as operações das outras duas estruturas clínicas. No caso da perversão, a recusa (Verleugnung) e no caso da psicose a forclusão (Verwerfung).

            Como conceber cada uma das operações específicas?


            Castração e Édipo

            Para avançar nesse sentido, é necessário trabalhar a idéia de castração, tal como concebida pela psicanálise. As três operações são três modos diferentes de lidar com a castração.

            O ponto de partida é uma teoria sexual infantil identificada por Freud. A criança constata a falta de pênis no sexo feminino e atribui o fenômeno à castração. Constatação que, no fundo, é uma interpretação: a criança entende como falta porque esperava encontrar um pênis em todos os seres humanos e, como isso não acontece, explica pela castração a diferença entre os sexos. Quando a criança é do sexo feminino, vê-se, de imediato, em relação com a falta; quando é do sexo masculino, surge o medo à castração [1]. Miller afirma, por conseguinte, que “A clínica freudiana gira inteira em torno de um objeto que não existe, a saber, o pênis da mãe” [2].

            Lacan trata a castração como lei do pai, que dita a proibição do incesto, o que não implica apenas o Não te deitarás com tua mãe, dirigido à criança, mas, também, um Não reintegrarás teu produto, endereçado à mãe. E “O pai como aquele que promulga a lei é o pai morto, isto é, o símbolo do pai. O pai morto é o Nome-do-Pai...[3]

Freud concebe o Édipo como drama que se desenrola entre a criança, sua mãe e seu pai. Lacan traduz o Édipo em termos de armação significante mínima: a metáfora paterna, ou a substituição do significante da mãe pelo significante do pai. Ou seja, tanto o pai como a mãe são tratados como significantes. O significante do pai, como foi dito, é o Nome-do-Pai. O significante materno é o Desejo da Mãe, que ora está ao lado do filho, ora não está: binarismo próprio da articulação significante. 

Na leitura lacaniana, a fórmula mais simples que se pode dar do Édipo apresenta o significante paterno e, sob a barra, o significante materno. A barra indica que a criança e a mãe estão efetivamente separadas.


                                                         P / M


Na metáfora paterna a lei do pai substitui o desejo sem lei da mãe e o resultado da operação é a produção do significante fálico, o significante da castração. A metáfora paterna lacaniana reúne, em formulação significante, as duas concepções freudianas: Édipo e castração [4].

                                           P  / M           P      A /     
                                                                                                                                    
O Nome-do-Pai é aquilo que, no Outro (A), dá consistência ao conjunto de significantes; é responsável pela ordenação da bateria de significantes. O significante fálico, por sua vez, é o significante destinado a designar, em seu conjunto, os efeitos de significado ou de significação.

Mais tarde, Lacan reformula tais questões, com outros termos: o sujeito se divide (S/) entre o significante mestre (S1) e o significante do saber (S2), divisão esta que deixa um resto, o objeto (a). Desse modo obtêm-se as seguintes notações: S1, S2, $ e a, que são os termos dos quatro discursos.

Como conciliar estruturas clínicas e discursos?

No que se refere à neurose, pode-se aproximar a histeria ao discurso homônimo, ou seja, do Discurso da Histérica, e a obsessão ao Discurso da Universidade. A perversão pode ser aproximada ao Discurso do Mestre. E a psicose está fora de discurso[5].


            As operações estruturantes

            O que efetiva a lei do pai, ou a castração, portanto, é a inscrição de um significante primordial, o Nome-do-Pai, no Outro, na cadeia significante do sujeito. O que pode ocorrer ou não ocorrer, ou ocorrer de diferentes maneiras: é o que está em jogo quando se trata das operações estruturantes do sujeito.

            Primeira possibilidade: a rejeição (Verwerfung) ou forclusão do significante do Nome-do-Pai, que fica, assim, excluído da cadeia significante do sujeito. Com isso, não se inscreve a lei do pai, não há registro da castração, o Outro não é barrado (A), é consistente, também o sujeito não é barrado (S), o objeto (a) não é extraído, não cai como resto da operação. A rejeição ou forclusão é específica da estrutura psicótica.

            Segunda possibilidade: o significante do Nome-do-Pai é inscrito na cadeia significante do sujeito: afirmação simbólica (Bejahung). Nesse caso, prevalece a lei do pai ou lei da castração, o Outro é barrado (A/)  e o sujeito também (S/).

            Na neurose, a afirmação simbólica (Bejahung) é seguida pelo recalque (Verdrängung). Isso quer dizer que a castração é inscrita, mas, dela, o sujeito não quer saber. Quando o recalque é bem sucedido, há uma neurose sem sintomas. Quando o recalque falha há vacilação: o sujeito divide-se entre aceitação da castração e não querer saber dela (A ou A/). A histérica evita a vacilação pela exacerbação da falta, enquanto que o obsessivo escapa pela obliteração da falta.

            Na perversão, a afirmação simbólica é seguida pela recusa (Verleugnung). Isso quer dizer que a castração é inscrita, mas, em relação a ela, o sujeito tem posição dupla: de aceitação e não aceitação, ao mesmo tempo. Por tal motivo a perversão é o negativo da neurose. Enquanto que o neurótico sofre com o seu dilema: ou um ou outro, o perverso convive tranquilamente com sua contradição: um e outro (A e A/).


            Psicose, neurose, perversão

         Todo o edifício da estrutura psicótica, portanto, está erguido sobre o alicerce da forclusão. Schreber, que foi psicótico ordinário e grande jurista até os 51 anos, teve sua psicose desencadeada quando foi promovido ao mais alto cargo da magistratura alemã. Ou seja, o significante do Nome-do-Pai foi invocado lá onde ele não estava, e todo o arcabouço imaginário que fazia suplência à forclusão desabou. As barreiras contra o real ruíram e o gozo avassalador invadiu o corpo, num espetáculo mortífero onde alucinações de todo tipo se apresentaram. A estabilização foi conseguida gradualmente, organizadas por metáfora delirante que fez suplência à forclusão: mulher-de-Deus.

            A forma clínica princeps da estrutura psicótica é a paranoia. Para a psicanálise, isso significa: o Outro gozador é subjetivado (tomado como outro sujeito, perseguidor ou erotomaníaco). Em outra forma clínica, a esquizofrenia, o gozo faz retorno sobre o corpo. Na melancolia, o perseguidor é interno: o supereu, como “pura cultura de pulsão de morte”, toma o eu como objeto [6]. Finalmente a mania, que se apresenta como defesa contra melancolia; nela, o eu consegue desvencilhar-se do objeto.

            O recalque pode manter o neurótico livre de sintomas ao longo de toda a vida, mas seu comprometimento pode fazer aflorar problemas de toda sorte. No caso da histeria há tentativa de compensar a falha do recalque pela exploração da falta (posição subjetiva de vítima do Outro). O sintoma histérico, por sua vez, é produzido no corpo e funciona como mensagem cifrada de cunho metafórico. Sua interpretação (decifração) pode fazer desaparecer o sintoma.

            No caso da obsessão tenta-se compensar a falha no recalque pela obturação da falta (posição subjetiva de reparador do Outro). O sintoma obsessivo é da ordem do pensamento e funciona como modo de gozo repetitivo, de cunho metonímico. É resistente à decifração e sua evolução depende de mutação subjetiva.

            A estrutura perversa assenta-se sobre a recusa, que aceita a lei (do pai) e no mesmo ato o fora-da-lei. Não há conflito entre os contrários, que coexistem lado a lado, sem sofrimento. O perverso apresenta-se como suposto saber gozar, razão pela qual não procura a psicanálise. Ou, se procura, é para utilizar-se dela em sua estratégia existencial, e não para alguma retificação subjetiva. Na prática psicanalítica são mais comuns os traços perversos em outras estruturas clínicas.

Para a psicanálise, o tipo princeps de perversão é o fetichismo. A castração é inscrita, como falta, mas o fetiche se apresenta como substituto do pênis, negando ao mesmo tempo a castração.


            Aspectos fundamentais da formalização da experiência analítica

            Para melhor discernimento, é importante indicar e concatenar os aspectos fundamentais da formalização do primeiro ensino lacaniano. São bases conceituais que serão apresentas, agora, de modo bastante sumário. 

            Axiomática. No primeiro Lacan há claramente uma primazia do Outro. Destaca-se, por exemplo, a significantização de categorias psicanalíticas: o pai, a mãe, o falo, as formações do inconsciente, o sintoma, a transferência. E o inconsciente está estruturado como uma linguagem. Linguagem que tem função de comunicação: seu ponto de partida é um querer dizer.

A cadeia significante da comunicação produz uma cadeia significante inconsciente, a cadeia da pulsão, com efeitos de gozo [7]. O Outro, como bateria de significantes, é considerado consistente, e o Nome-do-Pai é tomado como garantia, como Outro do Outro.



PRIMEIRO LACAN


Axiomática
Primazia do Outro
(O Um a partir do Outro)
Primazia do significante
O Outro do Outro


Estrutura
Linguagem
Palavra
Letra


Inconsciente estrutura
Querer dizer
Isso fala


Sintoma metáfora (symptôme)
Formação do inconsciente
Significante/significado
S1 – S2 (cadeia significante)
Sujeito


Primeira clínica
NP: sim ou não
Foraclusão localizada
Estruturalista
Descontinuista
Categorial


Interpretação (I)
Decifração
Isso quer dizer outra coisa
Ilimitada
Assegura o sentido



            Estrutura. No primeiro Lacan, estrutura é a estrutura da linguagem. Eis uma definição precisa de estrutura: “Um conjunto solidário de elementos diferenciados, diacríticos, relacionados uns aos outros, de tal sorte que a variação de um repercute sobre os outros e provoca variações concomitantes” [8]

            Na linguagem, deve-se diferenciar a língua (convenção essencialmente social) e a fala ou palavra (particular da comunicação, em que o sujeito se dirige ao Outro).

            O significante é o elemento da estrutura da linguagem e representante psíquico da pulsão. Sua base é material: letra. A letra, portanto, é o que caracteriza o significante em sua materialidade.

            A estrutura da linguagem possui dois princípios fundamentais de funcionamento: metáfora (palavra por palavra) e metonímia (palavra a palavra).

Inconsciente: estrutura. O inconsciente estruturado como uma linguagem é tributário de um esquema de comunicação. É o que permite fórmulas tais como “O inconsciente é o discurso do Outro” ou “o sujeito recebe do Outro sua própria mensagem de forma invertida”. O ponto de partida é, portanto, um querer dizer. E para além da cadeia significante do discurso existe a cadeia significante inconsciente, a cadeia da pulsão: isso fala.

Sintoma metáfora (symptôme). O sintoma metáfora é uma formação do inconsciente que implica a cadeia significante do sujeito numa mensagem cifrada. O que assim se organiza é o envoltório formal do sintoma. Além disso, há o caroço do sintoma, o seu núcleo duro, que é da ordem do gozo e que se relaciona com a fantasia fundamental. A interpretação decifra e desfaz o sintoma, mas não o seu gozo. 

Primeira clínica de Lacan. A primeira clínica de Lacan está centrada no Nome-do-Pai: se ele está inscrito na cadeia significante do sujeito, ou seja, se há Bejahung (afirmação simbólica), tem-se uma neurose ou uma perversão; se ele não está inscrito, se há uma Verwerfung (foraclusão), tem-se uma psicose. 

            No caso de uma psicose considera-se uma foraclusão localizada, o que quer dizer específica do sujeito em questão. Nesse contexto, foraclusão é exclusiva da psicose.

            A primeira clínica está apoiada nos termos da estrutura da linguagem. Pela própria conceituação de estrutura clínica, prevê descontinuidade entre os diagnósticos, não havendo lugar para casos limítrofes nem para mesclas. Há demarcações inclusive fenomênicas: sintomas histéricos, sintomas obsessivos, sintomas psicóticos.

            Interpretação I. No primeiro Lacan o sintoma é concebido como mensagem cifrada e a interpretação é da ordem da decifração. Visa à produção de um sentido latente, ou oculto sob a barra do recalque.

            Ora, um sentido é expresso por meio de um significante, que por sua vez pode levar a outro sentido: a interpretação que assegura o sentido é ilimitada.

Vinheta: Uma paciente de Freud sofre de dores no baixo dorso. As associações levam à palavra Kreuz (cruz) e ela diz que Cruz significa sua dor. Kreuz em alemão designa igualmente o sacro (local da dor). Freud chama a atenção para o fato de Kreuz servir também para significar o sofrimento moral, interpretação que faz desaparecer o sintoma. O deslizamento foi de Cruz para sacro e para sofrimento moral[9].


A transição

            A leitura estruturalista empreendida por Lacan em seu primeiro ensino coloca a estrutura da linguagem (ou o Outro) em primeiro plano. Pode-se falar, então, em primazia do Outro, ou primazia do simbólico, ou primazia do significante.

            Nessa axiomática, o imaginário e o real (o gozo) ficam em plano secundário. O objetivo da interpretação é decifrar o sentido latente, o que é capaz de fazer desaparecer o sintoma-metáfora.

            As estruturas clínicas, divididas em Bejahung (neurose e perversão) e não Bejahung (psicose), ou NP: sim ou não, revelam nítida descontinuidade: ou neurose, ou perversão, ou psicose. Nada de estados limítrofes, ou de gradação, ou de mesclas.

            O estruturalismo foi uma tentativa de superar a proposta de dualismo epistemológico, de dualismo científico: ciências da natureza, matematizáveis, e ciências da cultura, não matematizáveis. Para o estruturalismo —e a linguística seria paradigma— ciências da cultura também seriam matematizáveis.

            O estruturalismo refere-se à matematização num sentido novo: Inspira-se no bourbakismo, corrente francesa para a qual a essência da matemática não é a medida ou a quantidade, mas uma literalização não quantitativa. Se “o grande livro do universo está escrito em língua matemática”, o bourbakismo prefere ressaltar a “língua”.  Galileismo ampliado, portanto [10].

            Lacan bebeu nessas águas. Acreditou no estruturalismo e na matematização das ciências da cultura.  Entretanto, em certo momento, teve o vislumbre: o estruturalismo passará, mas a estrutura não.

            De fato, o estruturalismo passou. Em relativamente pouco tempo, já não mais existia. Mas, para Lacan, a estrutura não.

            No último Lacan, houve transmutação da estrutura. Se, no seu primeiro ensino, estrutura era estrutura da linguagem, na reformulação por ele empreendida estrutura tornou-se estrutura lógica, ou logicomatemática. Ou ainda: a estrutura chama-se matema, cujo exemplo mais acabado são os matemas da sexuação.

            Haverá outro momento, no ultimíssimo Lacan, com mais uma transmutação. Estrutura torna-se estrutura topológica, ou mais precisamente, o nó borromeu.


Bibliografia sugerida

Leitura resumida:
Miller, J.-A. (1988) S’ truc dure. In: Matemas II. Buenos Aires: Manantial.

Leitura avançada:
Miller, J.-A. (1997) Lacan elucidado. Palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.



NOTAS


[1] Freud, S. (1976) Sobre as teorias sexuais das crianças (1908), p. 219-220. In: ESB, Vol. IX. Rio da Janeiro: Imago.

[2] Miller, J.-A. (1996) Clínica irônica, p. 195. In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[3] Lacan, J. (1999) O Seminário. Livro 5. As formações do inconsciente (1957-58), p. 152.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[4] Miller, J.-A. (1997) Sobre a clínica psicanalítica, p. 305-306. In: Lacan Elucidado. Palestras no Brasil.   Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[5] Forbes, J. (1993) Os eixos da subversão psicanalítica: os quatro discursos. http://www.psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/Oseixosdasubversaoanalitica-osquatrodiscursos.pdf

[6] Freud, S. (1976) O Ego e o Id (1923) (p. 69-70). ESB, Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago.

[7] Miller, J.-A. (1991) Lógicas de la vida amorosa, p. 55. Buenos Aires: Manantial.

[8] Miller, J.-A. O monólogo da apparola. In: Opção Lacaniana n. 23, dezembro 1998 (68-76), p. 69. São Paulo: Eólia.

[9] Fages, J. B. (1977) Para compreender Lacan, 3ª edição, p. 55. Rio de Janeiro: Editora Rio.

[10] Milner, j.-C. (1996) A obra clara, p. 74-77. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.