(PSICANÁLISE
E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
O primeiro ensino de Lacan é uma leitura estruturalista
de Freud. Lacan lê Freud principalmente à luz da linguística estrutural, com
destaque para as contribuições de
Saussure e Jakobson.
A frase que resume esse momento é, segundo Miller, “O
inconsciente está estruturado como uma linguagem”. E a formalização mais
importante concerne às estruturas clínicas: neurose, perversão e psicose.
O que caracteriza cada uma delas é uma operação
estruturante específica. No caso da neurose, o recalque (Verdrängung), já reconhecido como tal por Freud. Lacan teve o
mérito de identificar, no texto freudiano, as operações das outras duas
estruturas clínicas. No caso da perversão, a recusa (Verleugnung) e no caso da psicose a forclusão (Verwerfung).
Como conceber cada uma das operações específicas?
Castração e Édipo
Para avançar nesse sentido, é necessário trabalhar a
idéia de castração, tal como concebida pela psicanálise. As três operações são
três modos diferentes de lidar com a castração.
O ponto de partida é uma teoria sexual infantil
identificada por Freud. A criança constata a falta de pênis no sexo feminino e
atribui o fenômeno à castração. Constatação que, no fundo, é uma interpretação:
a criança entende como falta porque esperava encontrar um pênis em todos os
seres humanos e, como isso não acontece, explica pela castração a diferença
entre os sexos. Quando a criança é do sexo feminino, vê-se, de imediato, em
relação com a falta; quando é do sexo masculino, surge o medo à castração [1]. Miller
afirma, por conseguinte, que “A clínica freudiana gira inteira em torno de um
objeto que não existe, a saber, o pênis da mãe” [2].
Lacan trata a castração como lei do pai, que dita a
proibição do incesto, o que não implica apenas o Não te deitarás com tua mãe, dirigido à criança, mas, também, um Não reintegrarás teu produto, endereçado
à mãe. E “O pai como aquele que promulga a lei é o pai morto, isto é, o símbolo
do pai. O pai morto é o Nome-do-Pai...[3]”
Freud
concebe o Édipo como drama que se desenrola entre a criança, sua mãe e seu pai.
Lacan traduz o Édipo em termos de armação significante mínima: a metáfora
paterna, ou a substituição do significante da mãe pelo significante do pai. Ou
seja, tanto o pai como a mãe são tratados como significantes. O significante do
pai, como foi dito, é o Nome-do-Pai. O significante materno é o Desejo da Mãe,
que ora está ao lado do filho, ora não está: binarismo próprio da articulação
significante.
Na
leitura lacaniana, a fórmula mais simples que se pode dar do Édipo apresenta o
significante paterno e, sob a barra, o significante materno. A barra indica que
a criança e a mãe estão efetivamente separadas.
P / M
Na
metáfora paterna a lei do pai substitui o desejo sem lei da mãe e o resultado
da operação é a produção do significante fálico, o significante da castração. A
metáfora paterna lacaniana reúne, em formulação significante, as duas
concepções freudianas: Édipo e castração [4].
P / M → P A / ᶲ
O
Nome-do-Pai é aquilo que, no Outro (A), dá consistência ao conjunto de
significantes; é responsável pela ordenação da bateria de significantes. O
significante fálico, por sua vez, é o significante destinado a designar, em seu
conjunto, os efeitos de significado ou de significação.
Mais
tarde, Lacan reformula tais questões, com outros termos: o sujeito se divide
(S/) entre o significante mestre (S1) e o significante do saber (S2),
divisão esta que deixa um resto, o objeto (a).
Desse modo obtêm-se as seguintes notações: S1, S2, $ e a, que são os termos dos quatro
discursos.
Como
conciliar estruturas clínicas e discursos?
No
que se refere à neurose, pode-se aproximar a histeria ao discurso homônimo, ou
seja, do Discurso da Histérica, e a obsessão ao Discurso da Universidade. A
perversão pode ser aproximada ao Discurso do Mestre. E a psicose está fora de
discurso[5].
As operações
estruturantes
O que efetiva a lei do pai, ou a castração, portanto, é a
inscrição de um significante primordial, o Nome-do-Pai, no Outro, na cadeia
significante do sujeito. O que pode ocorrer ou não ocorrer, ou ocorrer de
diferentes maneiras: é o que está em jogo quando se trata das operações estruturantes
do sujeito.
Primeira possibilidade: a rejeição (Verwerfung) ou forclusão do significante do Nome-do-Pai, que fica,
assim, excluído da cadeia significante do sujeito. Com isso, não se inscreve a
lei do pai, não há registro da castração, o Outro não é barrado (A), é
consistente, também o sujeito não é barrado (S), o objeto (a) não é extraído, não cai como resto da operação. A rejeição ou
forclusão é específica da estrutura psicótica.
Segunda possibilidade: o significante do Nome-do-Pai é
inscrito na cadeia significante do sujeito: afirmação simbólica (Bejahung). Nesse caso, prevalece a lei
do pai ou lei da castração, o Outro é barrado (A/) e o sujeito também (S/).
Na neurose, a afirmação simbólica (Bejahung) é seguida pelo recalque (Verdrängung). Isso quer dizer que a castração é inscrita, mas,
dela, o sujeito não quer saber. Quando o recalque é bem sucedido, há uma
neurose sem sintomas. Quando o recalque falha há vacilação: o sujeito divide-se
entre aceitação da castração e não querer saber dela (A ou A/). A histérica
evita a vacilação pela exacerbação da falta, enquanto que o obsessivo escapa
pela obliteração da falta.
Na perversão, a afirmação simbólica é seguida pela recusa
(Verleugnung). Isso quer dizer que a
castração é inscrita, mas, em relação a ela, o sujeito tem posição dupla: de
aceitação e não aceitação, ao mesmo tempo. Por tal motivo a perversão é o
negativo da neurose. Enquanto que o neurótico sofre com o seu dilema: ou um ou
outro, o perverso convive tranquilamente com sua contradição: um e outro (A e
A/).
Psicose, neurose,
perversão
Todo o edifício da estrutura psicótica, portanto, está
erguido sobre o alicerce da forclusão. Schreber, que foi psicótico ordinário e
grande jurista até os 51 anos, teve sua psicose desencadeada quando foi promovido
ao mais alto cargo da magistratura alemã. Ou seja, o significante do
Nome-do-Pai foi invocado lá onde ele não estava, e todo o arcabouço imaginário
que fazia suplência à forclusão desabou. As barreiras contra o real ruíram e o
gozo avassalador invadiu o corpo, num espetáculo mortífero onde alucinações de
todo tipo se apresentaram. A estabilização foi conseguida gradualmente,
organizadas por metáfora delirante que fez suplência à forclusão:
mulher-de-Deus.
A forma clínica princeps
da estrutura psicótica é a paranoia. Para a psicanálise, isso
significa: o Outro gozador é subjetivado (tomado como outro sujeito,
perseguidor ou erotomaníaco). Em outra forma clínica, a esquizofrenia, o gozo faz retorno sobre o corpo. Na melancolia, o perseguidor é interno: o
supereu, como “pura cultura de pulsão de morte”, toma o eu como objeto [6].
Finalmente a mania, que se apresenta
como defesa contra melancolia; nela, o eu consegue desvencilhar-se do objeto.
O recalque pode manter o neurótico livre de sintomas ao longo de toda a vida, mas seu comprometimento pode fazer aflorar
problemas de toda sorte. No caso da histeria há tentativa de compensar a falha
do recalque pela exploração da falta (posição subjetiva de vítima do Outro). O
sintoma histérico, por sua vez, é produzido no corpo e funciona como mensagem
cifrada de cunho metafórico. Sua interpretação (decifração) pode fazer
desaparecer o sintoma.
No caso da obsessão tenta-se compensar a falha no
recalque pela obturação da falta (posição subjetiva de reparador do Outro). O
sintoma obsessivo é da ordem do pensamento e funciona como modo de gozo
repetitivo, de cunho metonímico. É resistente à decifração e sua evolução
depende de mutação subjetiva.
A estrutura perversa assenta-se sobre a recusa, que
aceita a lei (do pai) e no mesmo ato o fora-da-lei. Não há conflito entre os
contrários, que coexistem lado a lado, sem sofrimento. O perverso apresenta-se
como suposto saber gozar, razão pela qual não procura a psicanálise. Ou, se
procura, é para utilizar-se dela em sua estratégia existencial, e não para
alguma retificação subjetiva. Na prática psicanalítica são mais comuns os
traços perversos em outras estruturas clínicas.
Para
a psicanálise, o tipo princeps de
perversão é o fetichismo. A castração
é inscrita, como falta, mas o fetiche se apresenta como substituto do pênis,
negando ao mesmo tempo a castração.
Aspectos fundamentais da
formalização da experiência analítica
Para melhor
discernimento, é importante indicar e concatenar os aspectos fundamentais da
formalização do primeiro ensino lacaniano. São bases conceituais que serão
apresentas, agora, de modo bastante sumário.
Axiomática. No
primeiro Lacan há claramente uma primazia do Outro. Destaca-se, por exemplo, a
significantização de categorias psicanalíticas: o pai, a mãe, o falo, as
formações do inconsciente, o sintoma, a transferência. E o inconsciente está
estruturado como uma linguagem. Linguagem que tem função de comunicação: seu
ponto de partida é um querer dizer.
A
cadeia significante da comunicação produz uma cadeia significante inconsciente,
a cadeia da pulsão, com efeitos de gozo [7]. O
Outro, como bateria de significantes, é considerado consistente, e o Nome-do-Pai
é tomado como garantia, como Outro do Outro.
PRIMEIRO LACAN
|
Axiomática
Primazia do Outro
(O Um a partir do Outro)
Primazia do significante
O Outro do Outro
|
Estrutura
Linguagem
Palavra
Letra
|
Inconsciente
estrutura
Querer dizer
Isso fala
|
Sintoma
metáfora (symptôme)
Formação do inconsciente
Significante/significado
S1 – S2 (cadeia
significante)
Sujeito
|
Primeira
clínica
NP: sim ou não
Foraclusão localizada
Estruturalista
Descontinuista
Categorial
|
Interpretação
(I)
Decifração
Isso quer dizer outra coisa
Ilimitada
Assegura o sentido
|
Estrutura. No
primeiro Lacan, estrutura é a estrutura da linguagem. Eis uma definição precisa
de estrutura: “Um conjunto solidário de elementos diferenciados, diacríticos,
relacionados uns aos outros, de tal sorte que a variação de um repercute sobre
os outros e provoca variações concomitantes” [8].
Na linguagem, deve-se diferenciar a língua (convenção
essencialmente social) e a fala ou palavra (particular da comunicação, em que o
sujeito se dirige ao Outro).
O significante é o elemento da estrutura da linguagem e
representante psíquico da pulsão. Sua base é material: letra. A letra,
portanto, é o que caracteriza o significante em sua materialidade.
A estrutura da linguagem possui dois princípios fundamentais
de funcionamento: metáfora (palavra por palavra) e metonímia (palavra a
palavra).
Inconsciente: estrutura. O
inconsciente estruturado como uma linguagem é tributário de um esquema de
comunicação. É o que permite fórmulas tais como “O inconsciente é o discurso do
Outro” ou “o sujeito recebe do Outro sua própria mensagem de forma invertida”.
O ponto de partida é, portanto, um querer dizer. E para além da cadeia
significante do discurso existe a cadeia significante inconsciente, a cadeia da
pulsão: isso fala.
Sintoma metáfora (symptôme).
O sintoma metáfora é uma formação do inconsciente que implica a cadeia
significante do sujeito numa mensagem cifrada. O que assim se organiza é o
envoltório formal do sintoma. Além disso, há o caroço do sintoma, o seu núcleo
duro, que é da ordem do gozo e que se relaciona com a fantasia fundamental. A
interpretação decifra e desfaz o sintoma, mas não o seu gozo.
Primeira clínica de Lacan. A
primeira clínica de Lacan está centrada no Nome-do-Pai: se ele está inscrito na
cadeia significante do sujeito, ou seja, se há Bejahung (afirmação simbólica), tem-se uma neurose ou uma
perversão; se ele não está inscrito, se há uma Verwerfung (foraclusão), tem-se uma psicose.
No caso de uma psicose considera-se uma foraclusão
localizada, o que quer dizer específica do sujeito em questão. Nesse contexto,
foraclusão é exclusiva da psicose.
A primeira clínica está apoiada nos termos da estrutura
da linguagem. Pela própria conceituação de estrutura clínica, prevê
descontinuidade entre os diagnósticos, não havendo lugar para casos limítrofes
nem para mesclas. Há demarcações inclusive fenomênicas: sintomas histéricos,
sintomas obsessivos, sintomas psicóticos.
Interpretação I. No
primeiro Lacan o sintoma é concebido como mensagem cifrada e a interpretação é
da ordem da decifração. Visa à produção de um sentido latente, ou oculto sob a
barra do recalque.
Ora, um sentido é expresso por meio de um significante, que
por sua vez pode levar a outro sentido: a interpretação que assegura o sentido
é ilimitada.
Vinheta: Uma
paciente de Freud sofre de dores no baixo dorso. As associações levam à palavra
Kreuz (cruz) e ela diz que Cruz
significa sua dor. Kreuz em alemão
designa igualmente o sacro (local da dor). Freud chama a atenção para o fato de
Kreuz servir também para significar o
sofrimento moral, interpretação que faz desaparecer o sintoma. O deslizamento
foi de Cruz para sacro e para sofrimento moral[9].
A transição
A leitura
estruturalista empreendida por Lacan em seu primeiro ensino coloca a estrutura
da linguagem (ou o Outro) em primeiro plano. Pode-se falar, então, em primazia
do Outro, ou primazia do simbólico, ou primazia do significante.
Nessa axiomática, o
imaginário e o real (o gozo) ficam em plano secundário. O objetivo da
interpretação é decifrar o sentido latente, o que é capaz de fazer desaparecer
o sintoma-metáfora.
As estruturas clínicas, divididas em Bejahung (neurose e perversão) e não Bejahung (psicose), ou NP: sim ou não, revelam nítida
descontinuidade: ou neurose, ou perversão, ou psicose. Nada de estados
limítrofes, ou de gradação, ou de mesclas.
O estruturalismo foi uma tentativa de superar a proposta
de dualismo epistemológico, de dualismo científico: ciências da natureza,
matematizáveis, e ciências da cultura, não matematizáveis. Para o
estruturalismo —e a linguística seria paradigma— ciências da cultura também
seriam matematizáveis.
O estruturalismo refere-se à matematização num sentido
novo: Inspira-se no bourbakismo, corrente francesa para a qual a essência da
matemática não é a medida ou a quantidade, mas uma literalização não
quantitativa. Se “o grande livro do universo está escrito em língua
matemática”, o bourbakismo prefere ressaltar a “língua”. Galileismo ampliado, portanto [10].
Lacan bebeu nessas águas. Acreditou no estruturalismo e
na matematização das ciências da cultura.
Entretanto, em certo momento, teve o vislumbre: o estruturalismo
passará, mas a estrutura não.
De fato, o estruturalismo passou. Em relativamente pouco
tempo, já não mais existia. Mas, para Lacan, a estrutura não.
No último Lacan, houve transmutação da estrutura. Se, no
seu primeiro ensino, estrutura era estrutura da linguagem, na reformulação por ele
empreendida estrutura tornou-se estrutura lógica, ou logicomatemática. Ou
ainda: a estrutura chama-se matema, cujo exemplo mais acabado são os matemas da
sexuação.
Haverá outro momento, no ultimíssimo Lacan, com mais uma
transmutação. Estrutura torna-se estrutura topológica, ou mais precisamente, o
nó borromeu.
Bibliografia
sugerida
Leitura
resumida:
Miller, J.-A. (1988) S’ truc dure. In: Matemas II. Buenos
Aires: Manantial.
Leitura
avançada:
Miller, J.-A. (1997) Lacan elucidado. Palestras
no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
NOTAS
[1]
Freud, S. (1976) Sobre as teorias sexuais
das crianças (1908), p. 219-220. In: ESB, Vol. IX. Rio da Janeiro: Imago.
[2]
Miller, J.-A. (1996) Clínica irônica, p.
195. In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[3]
Lacan, J. (1999) O Seminário. Livro 5. As
formações do inconsciente (1957-58), p. 152.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[4]
Miller, J.-A. (1997) Sobre a clínica
psicanalítica, p. 305-306. In: Lacan Elucidado. Palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[5] Forbes, J. (1993) Os eixos da subversão psicanalítica: os
quatro discursos. http://www.psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/Oseixosdasubversaoanalitica-osquatrodiscursos.pdf
[6] Freud,
S. (1976) O Ego e o Id (1923) (p. 69-70).
ESB, Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago.
[7]
Miller, J.-A. (1991) Lógicas de la vida
amorosa, p. 55. Buenos Aires: Manantial.
[8]
Miller, J.-A. O monólogo da apparola. In:
Opção Lacaniana n. 23, dezembro 1998 (68-76), p. 69. São Paulo: Eólia.
[9]
Fages, J. B. (1977) Para compreender
Lacan, 3ª edição, p. 55. Rio de Janeiro: Editora Rio.
[10]
Milner, j.-C. (1996) A obra clara, p.
74-77. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.