Total de visualizações de página

domingo, 27 de março de 2016

I. O corte hipocrático




(PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)

 

            “A psicanálise é a última flor da medicina”[1]. Frase de Lacan que me encantou desde a primeira vez que a ouvi. E que ao mesmo tempo me fez enigma.

            O encantamento sem dúvida tem a ver com o poema de Olavo Bilac, sobre a língua portuguesa. 

“Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...”[2]

O motivo do encantamento deu-me uma pista para decifrar o enigma. As flores do Lácio são as línguas derivadas do latim: português, espanhol, catalão, francês, romeno, italiano...

Entre as flores da medicina pode-se citar, no campo que é o nosso, além da psicanálise, a psicologia e a psiquiatria. Quando se considera, ainda, que o campo da saúde mental é uma derivação da psiquiatria, observa-se então que todas essas disciplinas estão, em suas origens, interligadas.

Constatação que abre portas para o convite: revisitar o nascimento e a evolução de cada uma, em abordagem que se ocupe não de sinopse histórica, mas da elucidação de seus fundamentos. A definição dos estatutos permite distinção mais clara da estrutura de cada disciplina e também das condições e possibilidades de aproximação entre elas.

O convite pode e deve ser expresso de forma mais explícita: um passeio que começa pelo nascimento da medicina, passa pela sua introdução no método científico, pela fundação da psiquiatria, pela clínica psiquiátrica clássica, pela criação da psicanálise, pela psiquiatria das grandes escolas, pela psiquiatria do DSM e que termina com a rede de serviços da saúde mental. A origem da psicologia será apenas apontada.

O trajeto é longo e heterogêneo, mas, só há leitura a partir de determinado lugar. Minha leitura será a partir de meu lugar de psicanalista. Definir um lugar é precisar seu alcance e seu limite. 

Assim, por exemplo, para o psicanalista só há história dos tempos atuais. Mesmo quando se dirige o olhar para épocas mais remotas, é de um olhar de hoje de que se trata. Pode-se ainda acrescentar que o ensinamento que se busca no passado é importante para impasses contemporâneos.

 Com esse espírito tem início nosso passeio.


Hipócrates

Hipócrates, que viveu de 460 a 370 a.C., é considerado o pai da medicina, epíteto que não será aqui questionado. 

Correntes de pensamento respeitáveis postulam que a história evolui não de modo contínuo, mas por meio de cortes. A pergunta que aflora, nesse caso, então é esta: se Hipócrates é o pai da medicina, se depois dele surge algo novo, de que corte se trata?

Não há dúvida quanto à resposta: o corte hipocrático traz a separação entre religião e medicina, entre sacerdote e médico, entre templo e hospital.

Lacan adota a ideia de corte, retirando-a, porém, do contexto historicizante. Ou seja, para Lacan, não se trata de algo da ordem da história, mas da ordem do discurso. Como afirma Milner, “a teoria dos discursos é uma anti-história”[3].

Ao aplicar o que foi dito ao tema que está sendo trabalhado, pode-se afirmar que o corte hipocrático consistiu no aparecimento de um novo discurso. A proposta lacaniana é rica e traz consequências. A mais óbvia: traz a questão para os dias atuais. O novo discurso avançou, mas o velho discurso sobrevive: ainda hoje a religião faz as vezes da medicina, sacerdotes fazem as vezes dos médicos, templos fazem as vezes dos hospitais.

Entretanto, o que é o velho discurso, e o que é o novo?

Elegendo o corte hipocrático como paradigma, o tema será sucintamente abordado.


Animismo 

“No curso dos tempos a humanidade produziu três grandes visões de mundo, se dermos crédito às autoridades: a animista (mitológica), a religiosa e a científica”[4]

Desse modo Freud introduz os principais sistemas de pensamento ou visões de mundo (Weltanschauung). Embora haja diferença entre animismo e religião, alguns princípios que os regem são comuns. Pode-se considerar o animismo como uma religião primitiva, ou a religião como resultado de uma evolução do animismo.

O que é animismo? Segundo definição proposta pelo antropólogo Tylor no final do século XIX, é a doutrina segundo a qual existem almas ou espíritos não só nos seres humanos como também em todos os outros seres (animais, plantas, rios, montanhas, florestas, trovões, ventos, etc.)[5]

Qual a origem de tais visões dualistas? Freud supõe que derivariam da observação dos fenômenos do sono (inclusive os sonhos) e da morte, que tanto se lhe assemelha. “O problema da morte, mais que tudo, teria sido o ponto de partida da teorização. Para os primitivos, o prosseguimento da vida — a imortalidade — seria algo evidente”. Depois que a ideia da morte foi aceita, a noção de almas ou espíritos tornou-se saída para o impasse, na medida em que podem tornar-se independentes dos corpos e migrar para outros seres humanos. A extensão aos outros seres (não humanos) foi feita por analogia com almas humanas. A criação dos espíritos teria sido, destarte, a primeira realização teórica do homem.

O animismo é um sistema de pensamento que fornece explicação para o universo, inclusive para o homem; é uma cosmovisão. Não faz isso por pura curiosidade especulativa. Atende também à necessidade prática de controlar as forças do mundo e dá instruções a respeito de como obter o domínio sobre os homens, os animais e as coisas — ou melhor, sobre seus espíritos.

Como sistema de pensamento, o animismo possui princípios próprios, equivocados ou não, que devem ser reconhecidos. É o que será tentado, a seguir.


Feitiçaria e magia

São meios que o animismo propõe para dominar o mundo adverso. A feitiçaria consiste em influenciar espíritos tratando-os da mesma maneira como se tratariam seres humanos em situações semelhantes.  Manobras para apaziguar a fúria dos trovões, saudações para louvar a abundância da pesca, ameaças para minar o poderio das feras, ritos para controlar a frequência das chuvas, oferendas para exaltar a perfeição do sol, adoração do arco-íris como aliança com os céus.

A magia é algo diferente. Ramo mais importante da técnica animista, obedece a princípio identificado por Tylor e reconhecido por outros autores:  tomar uma associação de ideias como se fosse uma realidade.[6] Nesse contexto, foram distinguidas duas possibilidades: associação por semelhança e associação por contiguidade.

Na associação por semelhança a técnica mais utilizada é a criação de uma efígie do inimigo; tudo o que se fizer com a efígie acontecerá também com o inimigo. Variações desse procedimento ocorrem em numerosas culturas. Outras associações por semelhança: fazer passar água por uma peneira para atrair a chuva; praticar o ato sexual no campo para fertilizar a terra; comer um alimento parecido com o órgão que se quer tratar.

Na associação por contiguidade o inimigo é prejudicado de outra maneira. Uma pequena parte de seu corpo (cabelos, unhas, excreções) ou mesmo de suas vestimentas é submetida a tratamento hostil. O próprio nome do inimigo pode servir a tal propósito. A prática do canibalismo entre os povos primitivos tem origem semelhante: comendo-se parte do corpo de uma pessoa adquirem-se qualidades por ela possuídas. Muitas religiões, mais tarde, evoluem para um canibalismo simbólico, deslocado.


Realização fantasiosa de desejos e onipotência dos pensamentos

A teoria da associação por semelhança (magia imitativa ou homeopática) ou por contiguidade (magia contagiosa) explica os caminhos pelos quais a magia avança, mas não sua verdadeira essência. Vários autores estão de acordo com os motivos que levam os homens a praticar a magia: são os desejos humanos. 

A psicanálise trabalha a questão a partir de vivências infantis, e conclui que a primeira satisfação de desejo acontece pela via alucinatória. Algo que, mais tarde, se repete no sonho, na medida em que um sonho é uma alucinação. O desejo pode satisfazer-se, também, pela fantasia, seguindo a fórmula: aquilo que eu desejo constitui uma realidade. Ou seja: aquele que deseja dá consistência de realidade àquilo que deseja. O homem primitivo crê firmemente que sua magia vai fazer chover porque assim o deseja.  Ou acredita que seu inimigo padece com suas práticas mágicas porque é o que ele ardentemente espera. Ou tem certeza que os espíritos expulsos aliviarão seus sofrimentos porque ele anseia demais por isso. E assim por diante. Ou seja: a força de sua crença advém da força de seu desejo.

Pode-se dizer, então, que o princípio que dirige a magia é a onipotência dos pensamentos. Algo análogo ao que ocorre nas neuroses, particularmente na neurose obsessiva. O neurótico toma como realidade o que lhe ocorre no nível do pensamento. Em outras palavras, “o decisivo na formação dos sintomas é a realidade do pensar, não a do viver”[7].

Quando se acompanha o curso das concepções do mundo na história humana, observa-se que na fase animista há prevalência narcisista, o homem atribui a si mesmo a onipotência. Na fase religiosa prevalece o complexo paterno, e a onipotência é atribuída aos deuses. Na concepção científica o homem admite a morte e reconhece a própria pequenez, embora a confiança no poder de sua inteligência retenha algo da primitiva onipotência.


Clivagem do bem e do mal

A criação dos espíritos permitiu ao homem primitivo numerosas explicações no que tange às suas origens, ao seu destino, às vicissitudes de sua vida, ao mundo que o cerca. Freud está de acordo com vários autores que afirmam que os primeiros espíritos a nascer foram os espíritos maus. O que fundamenta esse ponto de vista á a necessidade de solução para a ambivalência — amor e ódio em relação a uma mesma pessoa. Teria sido ao lado do cadáver de alguém amado que o homem primevo inventou os espíritos, com seu sentimento de culpa pela satisfação aliado à sua tristeza levando à projeção do ódio nos espíritos recém-criados, transformados em demônios maus que deveriam ser temidos. Algo análogo acontece com o delírio de perseguição do paranoico.

O que está em jogo é uma dupla operação. A separação entre o bem e o mal traz alívio para o insuportável da ambivalência. Além disso, o ódio é atribuído a outro ser. Ou seja, é sempre menos difícil lidar com um perigo externo do que com um perigo interno.  Um passo posterior seria a criação de espíritos bons, que se tornariam aliados nos duros embates da vida.

A influência dos espíritos —não só humanos mas também de outros seres — exerceriam papel fundamental na gênese das doenças —assim como dos outros males — e também na sua cura ou solução. Daí a reunião do sacerdote e do médico num só personagem — no Brasil, o pajé. 


Processo primário e processo secundário

O animismo, para Freud, é um sistema de pensamento. Nos termos de Lacan, um discurso. De modo sucinto, foram apresentados os princípios que o regem.

Um exame cuidadoso permite aproximações. 

A feitiçaria, por exemplo, tal como foi concebida, funda-se numa relação especular, tal como a que foi formalizada no estádio do espelho, por Lacan.

A magia de associação por semelhança pode ser comparada à condensação, que, para Freud, é um modo essencial de funcionamento do inconsciente. Lacan, inspirado por Jakobson, irá correlacioná-la com a metáfora (substituição de um significante por outro significante), na sua formulação do inconsciente estruturado como uma linguagem.

A magia de associação por contiguidade, por sua vez, pode ser comparada ao deslocamento, que, para Freud, é o segundo modo essencial de funcionamento do inconsciente. Lacan, novamente inspirado por Jakobson, irá correlacioná-la à metonímia (remissão de um significante a outro significante). Ou seja, metáfora e metonímia como as duas operações básicas do inconsciente estruturado como uma linguagem.

Dando prosseguimento, é possível aproximar a realização fantasiosa (ou alucinatória) do desejo da realidade psíquica freudiana, ou do real lacaniano.

Finalmente, a onipotência dos pensamentos e a clivagem do bem e do mal põem em jogo projeções e introjeções que fragilizam os limites entre o mundo interno e o mundo externo e problematizam as relações entre o dentro e o fora (topologia moebiana).

Ora, o que foi dito só faz aproximar (mas não equivaler) o pensamento do homem primitivo ao que Freud formulou como processo primário, que é o modo de funcionamento próprio do sistema inconsciente. O processo secundário, regido por outros princípios, é próprio dos sistemas pré--consciente e consciente. Em diversos momentos de seu texto há comparações entre a lógica do homem primevo e a da criança, a do psicótico e a do neurótico. 

A esta altura, fica mais clara a proposta de abordar o animismo não como questão histórica, mas como questão de discurso. Há, aqui, duplo argumento. Não se trata apenas de admitir que é sempre com olhos de hoje que se enxerga o passado arcaico. Importa também relevar que, por mais arcaico que seja, é algo que resiste e sobrevive nos dias de hoje. Princípios que regem o animismo estão presentes na mentalidade das crianças, nas vivências dos psicóticos, nos sintomas dos neuróticos, nos ritos e crenças religiosas e no inconsciente de cada um.

Se a história admite etapas em que o pensamento animista é seguido do religioso e finalmente do científico, é preciso desmontar a pretensa evolução a favor de uma concepção segundo a qual os vários discursos coexistem mesmo na atualidade.  Lacan define a debilidade mental como a posição de um sujeito que flutua entre dois discursos. 


Retorno a Hipócrates

O que fez, então, Hipócrates? Sair de uma posição que assim postulava: as doenças são causadas por espíritos e, portanto, sua cura depende também deles.

Que nova posição adotou? As doenças são devidas a causas naturais, que devem ser pesquisadas e descobertas para então orientar os tratamentos. 

Um grande corte. O homem deixa de ser joguete dos espíritos e passa a agente de seu processo de evolução. Não se introduz, nesse momento, na era científica, mas no período pré-científico. Milênios seriam ainda necessários até que a medicina pudesse se fundar no método científico. Melhor do que história da medicina seria dizer história do nascimento de um novo discurso.


ANIMISMO
PROCESSO PRIMÁRIO
Feitiçaria
Estádio do espelho
Magia de associação
por semelhança
Condensação
Metáfora
Magia de associação
por contiguidade
Deslocamento
Metonímia
Realização fantasiosa
ou alucinatória de desejo
Realidade psíquica (Freud)
Real (Lacan)
Onipotência de pensamentos
Pensamento obsessivo
ou paranoico
Clivagem
do bem e do mal
Jogo de projeções
e introjeções
Culturas primitivas
Inconsciente freudiano



Bibliografia sugerida:

Leitura resumida:
Freud, S. (2012) Animismo, magia e onipotência dos pensamentos. In: Totem e Tabu (1912-1913), capítulo III, p. 121 a 154. In: Obras Completas Volume 11. São Paulo: Companhia das Letras.

Leitura avançada:
Freud, S. (2012): Totem e Tabu (o livro todo).


NOTAS


[1] Lacan, J. (1975) Conversa com estudantes na Universidade de Yale, EUA (inédito).

[2] Bilac, O. (1964) Língua Portuguesa. In: Poesias. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, p. 262.

[3] Milner, J.-C. (1996) A obra clara. Lacan, a ciência, a filosofia. P. 49. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[4] Freud, S. (2012) Totem e Tabu (1912-1913). In: Obras Completas Volume 11. São Paulo: Companhia das Letras, p. 124.

[5] Freud. S. (2012) Idem, p. 121.

[6] Freud, S. (2012) Idem, p. 126

[7] Freud, S. (2012) Idem, p. 137.

O bem-estar na civilização






Prefácio - Elisa Alvarenga

Apresentação

Introdução literária
O inventor da pólvora

Capítulo I
PSICANÁLISE: A SUBJETIVIDADE DE NOSSA ÉPOCA
O Normal e o Patológico (para a Medicina, para a Psiquiatria, para a Saúde Mental e para a Psicanálise)
O bem-estar na civilização
A angústia de nosso tempo
Os efeitos da ciência sobre o corpo (O corpo-máquina da medicina, o corpo neuronal da psiquiatria biológica, o corpo remodelado da medicina plástica)
A responsabilidade do toxicômano
A tese do aborto como assassinato
Violência no Brasil. A delinquência dos poderes constituídos
Por que a violência?

Capítulo II
PSICANÁLISE: ENSAIOS
A questão do mecanismo de defesa (operação estruturante) da psicose
S ou a Síndrome do Automatismo Mental , de Clérambault
Lacan e a apresentação de pacientes
A querelância  e o Judiciário
Semblante e laço social
O casamento da histérica com o obsessivo
A interpretação borromeana
Todo mundo delira, menos o esquizofrênico
Psicanálise e transmissão: A política da experiência psicanalítica

Capítulo III
PSICANÁLISE: MATEMAS
O homem e a mulher, a lógica e a psicanálise
O real sem lei da ciência
LACAN E A ESTRUTURA (Introdução à topologia lacaniana):
Parte I: A estrutura é a estrutura da linguagem
Parte II: A estrutura é a estrutura lógica
Parte III: A estrutura é a estrutura topológica

Capítulo IV
A PSICANÁLISE E A REFORMA PSIQUIÁTRICA DE MINAS
Entrevista: Francisco Paes Barreto
O aberto e o fechado (Uma questão topológica para a Reforma Psiquiátrica de Minas)
O impossível da supervisão em saúde mental
Notas sobre a história da psiquiatria mineira
História mínima da clínica psiquiátrica

Adendo
Testemunho: Uma linda mulher




Livraria do Psicólogo (Tel. 3303-1000)