(PSICANÁLISE E
PSIQUIATRIA: APROXIMAÇÕES)
“A psicanálise é a última flor da
medicina”[1].
Frase de Lacan que me encantou desde a primeira vez que a ouvi. E que ao mesmo
tempo me fez enigma.
O encantamento sem dúvida tem a ver
com o poema de Olavo Bilac, sobre a língua portuguesa.
“Última
flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...”[2]
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...”[2]
O motivo do encantamento deu-me
uma pista para decifrar o enigma. As flores do Lácio são as línguas derivadas
do latim: português, espanhol, catalão, francês, romeno, italiano...
Entre as flores da medicina
pode-se citar, no campo que é o nosso, além da psicanálise, a psicologia e a
psiquiatria. Quando se considera, ainda, que o campo da saúde mental é uma
derivação da psiquiatria, observa-se então que todas essas disciplinas estão,
em suas origens, interligadas.
Constatação que abre portas para
o convite: revisitar o nascimento e a evolução de cada uma, em abordagem que se
ocupe não de sinopse histórica, mas da elucidação de seus fundamentos. A
definição dos estatutos permite distinção mais clara da estrutura de cada
disciplina e também das condições e possibilidades de aproximação entre elas.
O convite pode e deve ser
expresso de forma mais explícita: um passeio que começa pelo nascimento da
medicina, passa pela sua introdução no método científico, pela fundação da
psiquiatria, pela clínica psiquiátrica clássica, pela criação da psicanálise,
pela psiquiatria das grandes escolas, pela psiquiatria do DSM e que termina com
a rede de serviços da saúde mental. A origem da psicologia será apenas
apontada.
O trajeto é longo e heterogêneo,
mas, só há leitura a partir de determinado lugar. Minha leitura será a partir
de meu lugar de psicanalista. Definir um lugar é precisar seu alcance e seu
limite.
Assim, por exemplo, para o
psicanalista só há história dos tempos atuais. Mesmo quando se dirige o olhar
para épocas mais remotas, é de um olhar de hoje de que se trata. Pode-se ainda
acrescentar que o ensinamento que se busca no passado é importante para
impasses contemporâneos.
Com esse espírito tem início nosso passeio.
Hipócrates
Hipócrates, que viveu de 460 a
370 a.C., é considerado o pai da medicina, epíteto que não será aqui
questionado.
Correntes de pensamento
respeitáveis postulam que a história evolui não de modo contínuo, mas por meio
de cortes. A pergunta que aflora, nesse caso, então é esta: se Hipócrates é o
pai da medicina, se depois dele surge algo novo, de que corte se trata?
Não há dúvida quanto à resposta:
o corte hipocrático traz a separação entre religião e medicina, entre sacerdote
e médico, entre templo e hospital.
Lacan adota a ideia de corte,
retirando-a, porém, do contexto historicizante. Ou seja, para Lacan, não se
trata de algo da ordem da história, mas da ordem do discurso. Como afirma
Milner, “a teoria dos discursos é uma anti-história”[3].
Ao aplicar o que foi dito ao tema
que está sendo trabalhado, pode-se afirmar que o corte hipocrático consistiu no
aparecimento de um novo discurso. A proposta lacaniana é rica e traz
consequências. A mais óbvia: traz a questão para os dias atuais. O novo
discurso avançou, mas o velho discurso sobrevive: ainda hoje a religião faz as vezes
da medicina, sacerdotes fazem as vezes dos médicos, templos fazem as vezes dos
hospitais.
Entretanto, o que é o velho
discurso, e o que é o novo?
Elegendo o corte hipocrático como
paradigma, o tema será sucintamente abordado.
Animismo
“No curso dos tempos a humanidade
produziu três grandes visões de mundo, se dermos crédito às autoridades: a
animista (mitológica), a religiosa e a científica”[4].
Desse modo Freud introduz os principais
sistemas de pensamento ou visões de mundo (Weltanschauung).
Embora haja diferença entre animismo e religião, alguns princípios que os regem
são comuns. Pode-se considerar o animismo como uma religião primitiva, ou a
religião como resultado de uma evolução do animismo.
O que é animismo? Segundo
definição proposta pelo antropólogo Tylor no final do século XIX, é a doutrina
segundo a qual existem almas ou espíritos não só nos seres humanos como também
em todos os outros seres (animais, plantas, rios, montanhas, florestas,
trovões, ventos, etc.)[5].
Qual a origem de tais visões
dualistas? Freud supõe que derivariam da observação dos fenômenos do sono
(inclusive os sonhos) e da morte, que tanto se lhe assemelha. “O problema da
morte, mais que tudo, teria sido o ponto de partida da teorização. Para os
primitivos, o prosseguimento da vida — a imortalidade — seria algo evidente”.
Depois que a ideia da morte foi aceita, a noção de almas ou espíritos tornou-se
saída para o impasse, na medida em que podem tornar-se independentes dos corpos
e migrar para outros seres humanos. A extensão aos outros seres (não humanos) foi
feita por analogia com almas humanas. A criação dos espíritos teria sido,
destarte, a primeira realização teórica do homem.
O animismo é um sistema de
pensamento que fornece explicação para o universo, inclusive para o homem; é
uma cosmovisão. Não faz isso por pura curiosidade especulativa. Atende também à
necessidade prática de controlar as forças do mundo e dá instruções a respeito
de como obter o domínio sobre os homens, os animais e as coisas — ou melhor,
sobre seus espíritos.
Como sistema de pensamento, o
animismo possui princípios próprios, equivocados ou não, que devem ser
reconhecidos. É o que será tentado, a seguir.
Feitiçaria
e magia
São meios que o animismo propõe
para dominar o mundo adverso. A feitiçaria consiste em influenciar espíritos
tratando-os da mesma maneira como se tratariam seres humanos em situações
semelhantes. Manobras para apaziguar a
fúria dos trovões, saudações para louvar a abundância da pesca, ameaças para
minar o poderio das feras, ritos para controlar a frequência das chuvas, oferendas
para exaltar a perfeição do sol, adoração do arco-íris como aliança com os
céus.
A magia é algo diferente. Ramo
mais importante da técnica animista, obedece a princípio identificado por Tylor
e reconhecido por outros autores: tomar
uma associação de ideias como se fosse uma realidade.[6]
Nesse contexto, foram distinguidas duas possibilidades: associação por
semelhança e associação por contiguidade.
Na associação por semelhança a
técnica mais utilizada é a criação de uma efígie do inimigo; tudo o que se
fizer com a efígie acontecerá também com o inimigo. Variações desse
procedimento ocorrem em numerosas culturas. Outras associações por semelhança:
fazer passar água por uma peneira para atrair a chuva; praticar o ato sexual no
campo para fertilizar a terra; comer um alimento parecido com o órgão que se
quer tratar.
Na associação por contiguidade o
inimigo é prejudicado de outra maneira. Uma pequena parte de seu corpo
(cabelos, unhas, excreções) ou mesmo de suas vestimentas é submetida a
tratamento hostil. O próprio nome do inimigo pode servir a tal propósito. A
prática do canibalismo entre os povos primitivos tem origem semelhante:
comendo-se parte do corpo de uma pessoa adquirem-se qualidades por ela
possuídas. Muitas religiões, mais tarde, evoluem para um canibalismo simbólico,
deslocado.
Realização
fantasiosa de desejos e onipotência dos pensamentos
A teoria da associação por
semelhança (magia imitativa ou homeopática) ou por contiguidade (magia
contagiosa) explica os caminhos pelos quais a magia avança, mas não sua
verdadeira essência. Vários autores estão de acordo com os motivos que levam os
homens a praticar a magia: são os desejos humanos.
A psicanálise trabalha a questão a
partir de vivências infantis, e conclui que a primeira satisfação de desejo
acontece pela via alucinatória. Algo que, mais tarde, se repete no sonho, na
medida em que um sonho é uma alucinação. O desejo pode satisfazer-se, também,
pela fantasia, seguindo a fórmula: aquilo que eu desejo constitui uma
realidade. Ou seja: aquele que deseja dá consistência de realidade àquilo que
deseja. O homem primitivo crê firmemente que sua magia vai fazer chover porque
assim o deseja. Ou acredita que seu
inimigo padece com suas práticas mágicas porque é o que ele ardentemente
espera. Ou tem certeza que os espíritos expulsos aliviarão seus sofrimentos
porque ele anseia demais por isso. E assim por diante. Ou seja: a força de sua crença advém da força de seu desejo.
Pode-se dizer, então, que o
princípio que dirige a magia é a onipotência dos pensamentos. Algo análogo
ao que ocorre nas neuroses, particularmente na neurose obsessiva. O neurótico
toma como realidade o que lhe ocorre no nível do pensamento. Em outras
palavras, “o decisivo na formação dos sintomas é a realidade do pensar, não a
do viver”[7].
Quando se acompanha o curso das
concepções do mundo na história humana, observa-se que na fase animista há
prevalência narcisista, o homem atribui a si mesmo a onipotência. Na fase
religiosa prevalece o complexo paterno, e a onipotência é atribuída aos deuses.
Na concepção científica o homem admite a morte e reconhece a própria pequenez,
embora a confiança no poder de sua inteligência retenha algo da primitiva
onipotência.
Clivagem
do bem e do mal
A criação dos espíritos permitiu
ao homem primitivo numerosas explicações no que tange às suas origens, ao seu
destino, às vicissitudes de sua vida, ao mundo que o cerca. Freud está de
acordo com vários autores que afirmam que os primeiros espíritos a nascer foram
os espíritos maus. O que fundamenta esse ponto de vista á a necessidade de
solução para a ambivalência — amor e ódio em relação a uma mesma pessoa. Teria
sido ao lado do cadáver de alguém amado que o homem primevo inventou os
espíritos, com seu sentimento de culpa pela satisfação aliado à sua tristeza
levando à projeção do ódio nos espíritos recém-criados, transformados em
demônios maus que deveriam ser temidos. Algo análogo acontece com o delírio de
perseguição do paranoico.
O que está em jogo é uma dupla
operação. A separação entre o bem e o mal traz alívio para o insuportável da
ambivalência. Além disso, o ódio é atribuído a outro ser. Ou seja, é sempre
menos difícil lidar com um perigo externo do que com um perigo interno. Um passo posterior seria a criação de
espíritos bons, que se tornariam aliados nos duros embates da vida.
A influência dos espíritos —não
só humanos mas também de outros seres — exerceriam papel fundamental na gênese
das doenças —assim como dos outros males — e também na sua cura ou solução. Daí
a reunião do sacerdote e do médico num só personagem — no Brasil, o pajé.
Processo
primário e processo secundário
O animismo, para Freud, é um
sistema de pensamento. Nos termos de Lacan, um discurso. De modo sucinto, foram
apresentados os princípios que o regem.
Um exame cuidadoso permite
aproximações.
A feitiçaria, por exemplo, tal
como foi concebida, funda-se numa relação especular, tal como a que foi
formalizada no estádio do espelho, por Lacan.
A magia de associação por
semelhança pode ser comparada à condensação, que, para Freud, é um modo
essencial de funcionamento do inconsciente. Lacan, inspirado por Jakobson, irá
correlacioná-la com a metáfora (substituição de um significante por outro
significante), na sua formulação do inconsciente estruturado como uma
linguagem.
A magia de associação por contiguidade,
por sua vez, pode ser comparada ao deslocamento, que, para Freud, é o segundo
modo essencial de funcionamento do inconsciente. Lacan, novamente inspirado por
Jakobson, irá correlacioná-la à metonímia (remissão de um significante a outro
significante). Ou seja, metáfora e metonímia como as duas operações básicas do
inconsciente estruturado como uma linguagem.
Dando prosseguimento, é possível
aproximar a realização fantasiosa (ou alucinatória) do desejo da realidade psíquica freudiana, ou do real lacaniano.
Finalmente, a onipotência dos
pensamentos e a clivagem do bem e do mal põem em jogo projeções e introjeções
que fragilizam os limites entre o mundo interno e o mundo externo e
problematizam as relações entre o dentro e o fora (topologia moebiana).
Ora, o que foi dito só faz
aproximar (mas não equivaler) o pensamento do homem primitivo ao que Freud
formulou como processo primário, que
é o modo de funcionamento próprio do sistema inconsciente. O processo secundário, regido por outros
princípios, é próprio dos sistemas pré--consciente e consciente. Em diversos
momentos de seu texto há comparações entre a lógica do homem primevo e a da
criança, a do psicótico e a do neurótico.
A esta altura, fica mais clara a
proposta de abordar o animismo não como questão histórica, mas como questão de
discurso. Há, aqui, duplo argumento. Não se trata apenas de admitir que é
sempre com olhos de hoje que se enxerga o passado arcaico. Importa também
relevar que, por mais arcaico que seja, é algo que resiste e sobrevive nos dias
de hoje. Princípios que regem o animismo estão presentes na mentalidade das
crianças, nas vivências dos psicóticos, nos sintomas dos neuróticos, nos ritos
e crenças religiosas e no inconsciente de cada um.
Se a história admite etapas em
que o pensamento animista é seguido do religioso e finalmente do científico, é
preciso desmontar a pretensa evolução a favor de uma concepção segundo a qual
os vários discursos coexistem mesmo na atualidade. Lacan define a debilidade mental
como a posição de um sujeito que flutua entre dois discursos.
Retorno
a Hipócrates
O que fez, então, Hipócrates?
Sair de uma posição que assim postulava: as doenças são causadas por espíritos
e, portanto, sua cura depende também deles.
Que nova posição adotou? As
doenças são devidas a causas naturais, que devem ser pesquisadas e descobertas
para então orientar os tratamentos.
Um grande corte. O homem deixa de
ser joguete dos espíritos e passa a agente de seu processo de evolução. Não se
introduz, nesse momento, na era científica, mas no período pré-científico. Milênios seriam ainda necessários até que a medicina pudesse se fundar
no método científico. Melhor do que história da medicina seria dizer história
do nascimento de um novo discurso.
ANIMISMO
|
PROCESSO
PRIMÁRIO
|
Feitiçaria
|
Estádio do
espelho
|
Magia de
associação
por semelhança
|
Condensação
Metáfora
|
Magia de
associação
por
contiguidade
|
Deslocamento
Metonímia
|
Realização
fantasiosa
ou
alucinatória de desejo
|
Realidade
psíquica (Freud)
Real (Lacan)
|
Onipotência
de pensamentos
|
Pensamento
obsessivo
ou paranoico
|
Clivagem
do bem e do
mal
|
Jogo de
projeções
e introjeções
|
Culturas
primitivas
|
Inconsciente
freudiano
|
Bibliografia
sugerida:
Freud, S. (2012) Animismo, magia e onipotência dos pensamentos. In: Totem e Tabu (1912-1913), capítulo III, p. 121 a 154. In: Obras Completas Volume 11. São Paulo: Companhia das Letras.
Leitura avançada:
Freud, S. (2012): Totem e Tabu (o livro todo).
NOTAS
[1]
Lacan, J. (1975) Conversa com estudantes na Universidade de Yale, EUA
(inédito).
[2]
Bilac, O. (1964) Língua Portuguesa. In:
Poesias. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, p. 262.
[3]
Milner, J.-C. (1996) A obra clara. Lacan,
a ciência, a filosofia. P. 49. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[4]
Freud, S. (2012) Totem e Tabu
(1912-1913). In: Obras Completas Volume 11. São Paulo: Companhia das
Letras, p. 124.
[5]
Freud. S. (2012) Idem, p. 121.
[6]
Freud, S. (2012) Idem, p. 126
[7]
Freud, S. (2012) Idem, p. 137.